08 de julho de 2026
Ser

?O pincel é uma varinha mágica?

Janice Sato
| Tempo de leitura: 4 min

A professora aposentada Virginia Zélia de Azevedo Rebeis Farha era muito ativa e dedicou 40 anos de sua vida na área educacional. Com um currículo invejável, deu aulas de história, foi diretora de uma escola da rede pública em Bauru e foi chefe do Departamento de Política Educacional do Ensino Fundamental do Ministério da Educação (MEC). A vida agitada levou a aposentada a manter suas atividades intelectuais a todo vapor.

Além de jogar baralho, conversar com as amigas e fazer tricô, atividades preferidas de Virgínia, ela resolveu começar a pintar, em 1999, sem qualquer pretensão de ser artista. Para ela, a arte é uma promotora do bem-estar emocional das pessoas, afasta tudo que poderia causar depressão e ajuda a melhorar a concentração.

"É um caminho encantador. Pintar é prazeroso. Não é fácil descrever o prazer de desenhar as formas de um vaso ou de uma flor, é como se o pincel fosse uma varinha mágica". Esse é o encantamento que a pintura proporciona a Virginia.

Desde criança, ela tinha contato com a arte, mas o gosto pela pintura foi influenciado por uma prima do pai dela que tinha um ateliê, na rua Barão de Itapetininga, em São Paulo. "Não sou artista, nem tenho talento para isso. Sou uma aprendiz de feiticeira boa, que quer estabelecer a sensibilidade entre o tato e a visão, porque, para mim, a arte enriquece meu espírito", conta.

Aos 11 anos, ela reproduziu com lápis de cor a natureza morta retratada numa tela que estava nesse ateliê e, há dois anos, fez a mesma pintura, desta vez, a óleo. "O olhar muda muito o jeito de captar as particularidades de um desenho. E a escolha das cores interfere no resultado final da pintura", afirma Virginia, que recomenda a prática de exercícios criativos. "Recomendo que todos busquem satisfação na pintura ou qualquer outra forma de arte. É um remédio para muitos males", conclui.


A arte imita a vida

Independentemente da técnica, das cores ou do estilo que o artista aplica na tela, um sentimento será exposto no quadro. Se for uma sensação de perturbação ou de que algo não vai bem, a pintura poderá mostrar cores menos vivas ou a reprodução de uma figura humana sóbria e melancólica, ou ainda desenhos desconexos.

"Prefiro o alto astral e privilegio o ?enxergar? a vida de forma colorida; se tenho algum problema me incomodando e sei que vai resultar num trabalho carregado de energia negativa, fico longe dos pincéis", conta a artista plástica Sueli Dabus.

Com mais de 35 anos de experiência, ela acredita que a cor traz prazer e confirma que a arte pode ser considerada uma terapia, tanto para leigos quanto para profissionais da área. "O espectador deve sofrer um ?choque feliz? ao ver minhas telas e tento ensinar meus alunos a saber enxergar, sentir a composição de luzes, sombra e toda energia que vêm do objeto que está pintando", explica.

De acordo com Sueli, cada artista pode tomar três tipos de atitude diante do trabalho deles. Uma delas é realçar a beleza da natureza e de tudo que existe no mundo exterior. A outra consiste em retratar fielmente a visão da realidade como acontece, por exemplo, nos quadros que mostram o sofrimento do ser humano diante da violência urbana, das guerras e das drogas. Já o terceiro posicionamento do artista seria exteriorizar o sentimento seja ele bom ou ruim, como acontece com a arteterapia. Nesse caso, segundo a explicação da artista, prevalece o caráter introspectivo da pessoa. Mais informações pelo telefone (14) 3223-0001.


Desbloqueio criativo

A pedagoga Marli Hildebrand Ávila Hueb também levou uma vida bem agitada. Desde criança, ela sempre gostou de artesanato, aprendeu a restaurar móveis e pintar guardanapos, mas o sonho dela era produzir a pintura de telas. Depois que os três filhos cresceram, ela se empenhou em realizar esse desejo.

Nessa trajetória, ela teve muitos mestres com alma e ofício de artista. As primeiras pinceladas tiveram a orientação da professora Ivone Paccola, em Lençóis Paulista. "Tenho sorte e privilégio em aprimorar a pintura, é uma verdadeira terapia, porque esqueço os problemas e tenho mais alegria de viver. Se os defeitos artísticos aparecerem na tela, isso significa um incentivo a mais para melhorar, é com essa mesma percepção que enfrento meus problemas pessoais", filosofa.

A decisão de incorporar os pincéis e as tintas na rotina surgiu quando ela se sentiu sozinha em casa, já que o marido e os filhos trabalhavam fora o dia todo. Para Marli Hueb, depois de terminar um quadro, fica a sensação de paz, leveza e relaxamento. "A pintura foi meu refúgio, meu destino de viagem, onde eu podia criar à vontade. Ao longo dos anos, já pintei mais ou menos 300 quadros e tenho ciúmes de cada uma das telas", revela a pedagoga.

Mas solidariedade é maior que os ciúmes. A cada ano, ela doa os quadros para embelezar creches, igrejas e um hospital de tratamento de câncer de Macatuba. Se, no passado, a arte serviu como companhia de todas as horas e um remédio para a solidão, hoje, Marli ajuda a despertar a sensibilidade das pessoas nesses locais. "Não sou médica, mas pela experiência, recomendo a qualquer pessoa que esteja passando por algum sofrimento substituir os medicamentos pela pintura, porque faz bem, é revitalizante e previne doenças", indica Marli.