08 de julho de 2026
Nacional

Dilma convoca ministro para explicações

Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Brasília - O ministro do Esporte, Orlando Silva (PC do B), antecipou sua volta do México ao Brasil após ser convocado pelo Palácio do Planalto a dar explicações sobre as acusações de corrupção na pasta, que chefia desde 2006.

Ele foi chamado para uma reunião ontem à noite com a ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral).

Os dois foram escalados para ouvi-lo pela presidente Dilma Rousseff, que embarcou para viagem à África.

O ministro voltaria a se reunir ontem em Brasília com dirigentes do PC do B, que traçam estratégia para desqualificar as acusações e tentar segurá-lo no cargo.

À revista “Veja” o policial militar João Dias Ferreira acusou Silva de participação direta num esquema de desvio de recursos do programa Segundo Tempo, que dá verba a ONGs para incentivar jovens a praticar esportes.

Segundo o relato, o ministro teria recebido dinheiro vivo na garagem da pasta.

Silva negou as acusações e afirmou ontem que está sendo alvejado porque a pasta “cresceu demais” em recursos por causa da Copa-2014 e a Olimpíada.

O ministro estava em Guadalajara e embarcou de volta na noite de sábado. Horas antes, ele havia dito a jornalistas que a presidente Dilma Rousseff o orientara a seguir com sua agenda.

Silva disse ontem que mudou os planos após ser convocado a retornar ao Brasil.

“Falei com a ministra Gleisi no sábado. Combinamos que voltaríamos a falar entre ontem e hoje. Ela disse que Gilberto (Carvalho) também participaria da reunião”, disse.

Ao desembarcar em São Paulo, ele se reuniu com sua equipe para combinar a defesa e embarcou às 19h para Brasília, onde se reuniria à noite com Gleisi e Carvalho.

A ministra demonstrou preocupação em conversa com Silva por telefone, no sábado. Na sexta-feira, antes de a revista chegar às bancas, ele já havia comunicado a Dilma o teor da reportagem. No dia seguinte, telefonou por volta das 9h e disse que tomaria medidas para se defender.

Desqualificar

Segundo dirigentes do PC do B, o ministro tentará desqualificar o acusador como “chantagista” e “recalcado” por ter perdido os convênios que mantinha com a pasta.

Silva deve seguir o roteiro terça em depoimento à Comissão de Fiscalização da Câmara, antecipado a pedido da bancada do partido.

O presidente do PC do B, Renato Rabelo, disse que “quanto mais rápido ele se pronunciar, melhor”.

Em blog, delator faz ameaças a Silva

O soldado da Polícia Militar do Distrito Federal que acusou o ministro dos Esportes, Orlando Silva (PC do B), de participar de desvios de recursos do ministério, chamou-o ontem de “bandido”, em mensagem postada em seu blog na internet.

João Dias Ferreira disse que tem como provar as acusações que fez à revista “Veja”. “O que falei pra revista está devidamente gravado e será apresentado às autoridades competentes.”

Numa mensagem dirigida ao ministro, Ferreira afirmou: “Você está equivocado, eu não sou bandido, bandido é você e sua quadrilha que faz e refaz qualquer processo do ministério de acordo com sua conveniência e você sabe muito bem disso!”

O soldado da PM, que em 2006 foi candidato derrotado a deputado distrital pelo PC do B em Brasília, também fez uma ameaça à direção nacional do partido, que ontem soltou uma nota em apoio ao ministro. “Sugestão: era bom o PC do B nacional ficar calado antes de sair em defesa do Orlando sumariamente.”

Programa dá verba federal a ONGs ligadas ao PC doB

Origem do novo escândalo no Ministério do Esporte, o programa Segundo Tempo tem sido usado para transferir verbas federais a ONGs ligadas ao PC do B, que comanda a pasta desde o início do governo Lula, em 2003.

Levantamento publicado pela Folha em março de 2008 mostrou que o governo já havia transferido R$ 14 milhões a entidades dirigidas por integrantes do partido.

A ONG Conam (Confederação Nacional das Associações de Moradores), que liderava os repasses em São Paulo com R$ 5,2 milhões, era presidida por Wander Geraldo da Silva, colega do ministro Orlando Silva no Comitê Central do PC do B.

As suspeitas de favorecimento ao partido foram encaminhadas à CPI das ONGs no Senado, mas o governo exerceu sua maioria na Casa para travar as investigações.

O PC do B indicou o relator da comissão, senador Inácio Arruda (CE), cujo texto final não chegou a ser votado. A CPI seria encerrada em novembro passado sem apontar responsáveis por desvios.

Em outro caso no interior paulista, a ONG Bola pra Frente, dirigida pela ex-jogadora de basquete Karina Valéria Rodrigues, recebeu R$ 8,5 milhões do Segundo Tempo em 2008.

O valor superou a soma dos repasses feitos pelo Ministério do Esporte a 23 prefeituras do Estado no período.

Filiada ao PC do B, Karina se elegeu vereadora em Jaguariúna (SP) no fim do ano, usando as atividades da ONG como trunfo eleitoral.

A ligação entre militantes do partido e repasses do Segundo Tempo voltou à tona em abril passado, quando a Polícia Civil do DF prendeu cinco suspeitos de desvios na Operação Shaolin.

Os investigadores apontaram como principal beneficiário do esquema o policial militar policial militar João Dias Ferreira - o mesmo que acusou o ministro Orlando Silva de receber propina em entrevista publicada nesta semana pela revista “Veja”.

Ele teria usado notas frias para simular compra de merenda, uniforme e material esportivo em nome da Federação Brasiliense de Kung Fu e da Associação João Dias.