A imprudência no trânsito mata ao menos uma pessoa por mês e produz cerca de cinco acidentes com vítimas a cada dia em Bauru. A última morte desta verdadeira guerra urbana foi a do pintor de autos Willian Deliberal Zuquiere, 23 anos, que entrou, no último sábado, para uma estatística que não contempla o sofrimento de famílias inteiras e a destruição precoce de sonhos e projetos de vida.
Mas por que, a despeito das leis e da fiscalização policial, os números ainda são tão alarmantes? Para o antropólogo Roberto DaMatta, autor do livro “Fé em Deus e Pé na Tábua - Ou como e por que o trânsito enlouquece no Brasil”, o tráfego reflete um grave e perverso defeito estrutural da sociedade brasileira, que se tornou moderna sem abandonar valores ultrapassados da aristocracia de séculos passados.
“Nossa história explica o comportamento atual. O estilo de dirigir das pessoas é agressivo porque elas não foram desenhadas para viver em espaços igualitários, como são necessariamente as vias e avenidas. Ao volante, o condutor se sente dono da rua e coloca o espaço público sob seus interesses. O espaço pertence a quem ocupá-lo primeiro, com mais agressividade”, argumenta.
Em entrevista concedida à imprensa quando do lançamento de seu livro, DaMatta explicou que o desrespeito às leis de trânsito e ao espaço do outro, bem como a intolerância dos motoristas, são fruto de um pensamento ainda enraizado na sociedade, em que predominam expressões como “os incomodados que se mudem”, “você sabe com quem está falando?” e o “jeitinho brasileiro”.
“Sempre ficamos em dúvida entre respeitar o sinal ou simplesmente presumir que temos a capacidade de decidir por nós mesmos aquela situação. É uma condição que reflete esta confusão existente entre as normas de uma sociedade aristocrática e escravocrata - ainda escritas no coração e na alma das pessoas - e as normas modernas, cívicas e liberais, que valem para todos. O trânsito, na prática, apenas revela essa incongruência de modo mais claro”, aponta.
Willian Zuquiere morreu depois de se envolver em um grave acidente no cruzamento das ruas Rio Branco e Machado de Assis, nos Altos da Cidade. Ele estava em uma motocicleta com a namorada Juliane Diniz Braga, 18 anos, e foi colhido por outra moto que teria ultrapassado o sinal vermelho.
Intolerância
O sargento José Roberto Francelozo, do Pelotão de Trânsito da Polícia Militar (PM), também reforça que a esmagadora maioria dos acidentes acontece por imprudência dos motoristas. E quando as ocorrências envolvem motocicletas, a probabilidade de resultarem em tragédia se torna ainda maior. “Muitas pessoas optam pela moto para se movimentar mais rápido no trânsito. O problema é que trata-se de um veículo que deixa o condutor muito mais vulnerável a lesões em qualquer colisão”, aponta.
Francelozo lamenta que, atualmente, o trânsito mate mais brasileiros em um único ano do que combatentes em uma guerra, e aponta para a necessidade de uma mudança urgente de comportamento. “As leis e o aumento das fiscalizações têm ajudado a reduzir os índices, por mais que a frota tenha aumentado. Mas a conscientização das pessoas ainda está longe do ideal”, opina.
Além da falta de cooperação mútua, o aumento do estresse e do nível de competitividade da sociedade moderna também colaboram para os índices, conforme analisa o capitão Paulo César Valentim, comandante da 1.ª Companhia da PM. “Cada vez mais, as pessoas assumem um número maior de tarefas diárias e, por terem de lidar com esta pressão excessiva, estão menos pacientes. Também precisam cumprir prazos e horários e, quanto mais tempo ficam paradas no trânsito carregado, mais aceleram para descontar o tempo perdido”, acredita.
E esta intolerância aos limites, na opinião da psicóloga Thelma Margarida de Moraes dos Santos, acaba sendo reproduzida de uma geração para outra. “O comportamento dos indivíduos no trânsito está ligado às regras estabelecidas desde a infância. Se os pais são permissivos e nunca dizem ‘não’ para os erros dos filhos, na vida adulta eles não se intimidarão em burlar as regras para fazer o que tiverem vontade”, considera ela, que é coordenadora da clínica escola de psicologia da Universidade Sagrado Coração (USC).
14 mortes
De janeiro até ontem, 14 pessoas morreram no trânsito de Bauru, segundo dados da Polícia Militar (PM). No mesmo período, foram registrados 1.600 acidentes com pessoas feridas. Em todo o ano passado foram contabilizadas 23 vítimas fatais e 1.951 acidentes que resultaram em ferimentos a passageiros e condutores.
De acordo com dados da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), avançar o sinal vermelho do semáforo é a sexta infração mais recorrente entre os motoristas que trafegam pelas ruas da cidade. De janeiro a setembro deste ano, foram flagradas 1.076 infrações deste tipo por agentes do Grupo de Orientação ao Trânsito (GOT), os azuizinhos. A infração campeã de multas continua sendo dirigir em velocidade até 20% acima do permitido, que resultou em 27.032 autuações nos nove primeiros meses deste ano.
Luz no fim do túnel?
Para o antropólogo Roberto DaMatta, o atual nível de violência no trânsito só poderá ser transformado quando as pessoas se dispuserem a reconhecer não apenas suas qualidades, mas também seus defeitos e fragilidades.
“As dificuldades do trânsito e no campo político demonstram claramente que nosso viés aristocrático precisa ser muito mais debatido. Em todo caso, estamos mudando muita coisa. O uso do cinto, por exemplo, está consolidado e as pessoas bebem muito menos quando vão dirigir. Temos caminhado e apontar paradoxos é um modo de acelerar esse caminho”, comenta.
O antropólogo também acredita que o conceito de igualdade presente na legislação moderna também precisa se tornar presente no discurso e na prática cotidiana. A psicóloga Thelma Margarida de Moraes dos Santos concorda, defendendo a inserção de disciplinas sobre tolerância e respeito no trânsito também nas autoescolas.
“Não adianta apenas ensinar sobre a sinalização de trânsito e fazer teste psicológico. Os motoristas precisam ser conscientizados sobre sua responsabilidade ao conduzirem uma máquina que é potencialmente letal”, assinala.
Acidente ainda gera indignação
O acidente que matou o pintor de autos Willian Deliberal Zuquiere, 23 anos, e deixou gravemente ferida sua namorada, a operadora de cobrança Juliane Diniz Braga, 18 anos, ainda tem gerado indignação entre os leitores do JC. No site e no Facebook do Jornal da Cidade, eles continuam sensíveis à perda de uma pessoa tão jovem e torcem pela recuperação da garota, que já respira sem a ajuda de aparelhos.
A internauta Pâmela Cândido contou que conhecia Willian e disse que ele era “uma boa pessoa, engraçado e brincalhão, que vai fazer muita falta”. Vinicius Christinelli lembrou que o rapaz ainda tinha a vida toda pela frente, com sonhos ainda a serem conquistados.
Já Adriano Márcio da Silva está torcendo pela recuperação de Juliane. “É muito triste, mas estamos orando muito por ela e pela família de todos”.
‘Ela vai sobreviver', afirma pai de jovem que permanece internada após colisão entre motos
“Ela vai sobreviver”. Com esta frase carregada de esperança, Paulo Pereira Braga vem encontrando forças para superar o trauma que viveu no último sábado, dia em que sua filha, Juliane Diniz Braga, 18 anos, sofreu um grave acidente de moto nos Altos da Cidade. Depois de dois dias em coma induzido, a jovem foi retirada da sedação e, desde anteontem, já não precisa mais respirar com a ajuda de aparelhos.
A expectativa é de que a garota possa ser transferida para um quarto do Hospital de Base ainda hoje, mas segundo Paulo, ela ainda não foi informada da morte do namorado, o pintor de autos Willian Deliberal Zuquiere, 23 anos, vítima do mesmo acidente. “Os dois eram muito apegados e sei que ela vai sofrer muito. Por isso, os médicos é que vão decidir como e o melhor momento para contar o que aconteceu”, adianta.
De acordo com Paulo, os dois namoravam há cerca de um ano e eram bastante apaixonados. Na manhã de sábado, eles estavam a caminho do trabalho quando foram violentamente colhidos por uma moto que, segundo a polícia, teria ultrapassado o sinal vermelho. “O Willian tinha passado em casa para pegá-la, ia deixá-la no serviço e depois ia trabalhar. A minha filha trabalha desde os 15 anos e ele também era muito esforçado”, revela.
Segundo Paulo, Willian havia perdido o pai há menos de seis meses e deixou a mãe e duas irmãs, que estão inconsoláveis. Já Juliane mora com o pai, que é funileiro, e com o irmão caçula no Núcleo Geisel. A mãe, que sofre de problemas mentais, vive em São Paulo.
“Somos uma família muito unida e só Deus sabe tudo o que estou passando. Meu mundo caiu quando soube do acidente”, conta ele, que tirou uma foto junto com a filha na noite de sexta-feira, poucas horas antes da tragédia.
Como funileiro de uma concessionária da cidade, ele diz receber, por dia, cerca de 8 a 10 carros danificados em acidentes e conta já ter ouvido muitas histórias de clientes semelhantes a que ele está vivendo hoje. “São histórias que a gente ouve todo dia e nunca espera que acontecer com a gente. Mas sei que minha filha vai sobreviver”.