08 de julho de 2026
Internacional

Gaddafi é capturado e morto em Sirte, sua cidade natal

Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min

Agência

Oficialmente, o Conselho de Transição afirma que Gaddafi foi ferido na cabeça e no peito

Trípoli - Muammar Gaddafi, 69 anos, ditador da Líbia por mais de 42 anos, foi morto ontem durante o cerco das forças insurgentes a Sirte, sua terra natal e último bastião das forças leais a seu governo.

Desaparecido desde 23 de agosto - quando os insurgentes tomaram a capital líbia, Trípoli, em um conflito que se arrastava desde fevereiro -, Gaddafi era o mais longevo dos ditadores no poder em todo o mundo.

Sua morte é mais um dos marcos da Primavera Árabe, série de revoltas que, desde janeiro deste ano, derrubou os ditadores da Tunísia e do Egito e provocou turbulências em outros países, como a Síria.

Relatos não confirmados dão conta de que um dos oito filhos de Gaddafi, Mutassim, também teria sido morto, e outro, Saif al Islam, estaria preso. “Todo o mal foi banido do nosso amado país”, disse Mahmoud Jibril, premiê do Conselho Nacional de Transição, que governa interinamente a Líbia.

A morte de Muammar Gaddafi foi cercada de controvérsia. Conflitantes, relatos e imagens dão indícios de que o ditador tenha sido executado pelos rebeldes.

A primeira informação a circular na manhã de ontem (horário de Brasília) era que ele havia sido morto durante ataque da Otan (aliança militar ocidental) a um comboio que tentava tirá-lo de Sirte e levá-lo ao oeste do país.

Conforme relatos posteriores de rebeldes, Gaddafi e alguns homens sobreviveram ao ataque e procuraram se esconder em dutos de concreto usados para drenagem, onde houve confronto.

 


Vídeo


Um vídeo divulgado pela Al Jazeera ontem mostrava, segundo a rede de TV árabe, Gaddafi ferido, mas ainda vivo e sendo conduzido em um jipe por rebeldes armados - o que aparentemente aconteceu depois da ação da Otan e da fuga para os dutos.

Nesse vídeo, Gaddafi é retirado do veículo e arrastado pelos cabelos. Segundo a Reuters, ouvem-se gritos de “mantenham-no vivo!” e som de tiros - logo depois, a câmera desvia o foco.

Outras imagens posteriores mostram o corpo do ditador com o que parece ser um ferimento à bala na cabeça. A sequência reforça a hipótese de que houve execução.

Oficialmente, o CNT afirma que Gaddafi foi ferido - na cabeça e no peito - durante um tiroteio nos dutos e capturado vivo, mas morreu dentro de uma ambulância.

Segundo a agência Reuters, o corpo do ditador foi levado a uma mesquita em Misrata e deve ser enterrado na cidade hoje, de acordo com o costume islâmico. Um dos líderes do CNT, Abdel Majid Mlegta, disse que antes disso será feito exame de DNA para confirmar a identidade.

 


Comemoração


Na entrevista que deu para festejar a morte de Gaddafi, o premiê Mahmoud Jibril prometeu divulgar hoje uma declaração formal de “libertação” do país, que servirá de ponto de partida para calendário com vistas a eleições.

A notícia da morte do ditador foi o estopim para comemorações, com carros buzinando e milhares de pessoas saindo às ruas na capital, Trípoli, e em Benghazi, “capital” dos insurgentes nos meses que se seguiram ao início da revolta, em fevereiro.

Em Sirte, cercada pelos rebeldes por quase dois meses, guerrilheiros atiravam para o ar e gritavam “Deus é grande!”. Outros escreviam perto dos dutos frases como “Gaddafi foi capturado aqui”.

 

Obama celebra ‘fim’; Dilma rejeita comemorações


Washington - O presidente do EUA, Barack Obama, celebrou ontem o fim “definitivo” do regime de Muammar Gaddafi em discurso curto e com ecos da retórica neoconservadora de seu antecessor, George Bush.

Obama usou termos como “libertação da tirania” e “punho de aços”.

Ele ressaltou o papel central da Força Aérea americana na operação.

“Nossa liderança na Otan ajudou a guiar nossa coalizão. Sem colocar um único militar americano em solo, conquistamos nossos objetivos, e logo nossa missão estará encerrada.”

Analistas avaliam que, sem os EUA, a “zona de exclusão aérea” - com bombardeios às forças de Gaddafi- não teria sido tão efetiva.

 

 

Dilma


Já a presidente Dilma Rousseff, em visita a Angola, afirmou, que não se pode comemorar “a morte de qualquer líder”. Dilma evitou falar sobre o assunto, pois a morte ainda não havia sido confirmada independentemente.

A presidente, porém, comentou sobre a Líbia e a transição pela qual o país deve passar. E foi a partir do exemplo de Angola com a guerra civil que Dilma traçou um paralelo e ressaltou que as consequências da guerra vão além da destruição de infraestrutura, mas também representa a perda de oportunidades. “O Brasil vem dizendo que a grande questão é justamente a reconstrução.”

 

Otan diz que vai coordenar fim da missão na Líbia com ONU e CNT

 

Bruxelas - A  Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) pediu ontem aos líbios para colocar de lado suas diferenças após a morte do líder deposto Muammar Gaddafi e afirmou que irá coordenar o fim de sua missão militar com a Organização das Nações Unidas e a autoridade de transição da Líbia.

Rasmussen pediu ao Conselho Nacional de Transição (CNT) para evitar quaisquer represálias contra civis e mostrar moderação ao lidar com as derrotadas forças pró-Gaddafi.

 

Em Brasília, comunidade líbia comemora a morte do ditador

Brasília - A comunidade líbia comemorou, em Brasília, o anúncio da morte de Muammar Gaddafi. Entre 20 e 25 pessoas se reuniram na embaixada do país para confraternizarem.

Estiveram presentes diplomatas, líbios que moram no Brasil e estrangeiros de outros países que se solidarizaram com a causa. Os líbios celebraram a ocasião queimando fotografias de Gaddafi e exemplares do “Livro Verde” - obra da autoria do ex ditador, publicada em 1975, em que defende suas posições políticas.

No mastro da embaixada, está erguida a bandeira original da independência da Líbia (de 1951); hoje, identificada como a bandeira do Conselho Nacional de Transição (CNT).

Quando tomou o poder, em 1969, Muammar Gaddafi trocou o símbolo nacional (das cores vermelho, preto e verde; com o símbolo islâmico no centro) pela bandeira das cores vermelho, branco e preto.

Segundo Abdalla Al Hamdy, líbio que mora na capital, espera-se que, dentro de dois meses, seja indicado um novo embaixador ao posto no Brasil.

Salem El Zubeidy, ex-embaixador pró-Gaddafi, deixou o cargo em setembro, devido à queda de Gaddafi na Líbia, a ascensão do CNT e por não ter o apoio dos outros diplomatas na embaixada. Zubeidy ficou “exilado” na residência oficial durante cerca de um mês.

Patrícia Mayer, secretária dos embaixadores líbios desde 1999, disse que presenciou os acontecimentos dos últimos meses de forma intensa e que está feliz pelos desdobramentos.