Sem mais "surpresas", conforme as expectativas do mercado e fora dele, o Conselho de Política Monetária (Copom) do Banco Central anunciou mais um corte de 0.5% da taxa básica de juros, ao término da reunião da última quinta-feira 19.10, situando a Selic em 11,5% ao ano.
A decisão é coerente com os rumos da política monetária projetada pelo presidente do Banco, Alexandre Tombini e pelo Ministro Guido Mantega, convencidos de que os cortes moderados na taxa Selic são consistentes com a convergência da inflação para meta estabelecida até o final de 2012. Não é uma tarefa fácil e o governo sabe que é preciso trabalhar muito para reancorar as expectativas inflacionárias em 4.5%, mantendo a sociedade informada a respeito das medidas prudenciais postas em prática desde quando ficou evidente a piora do quadro internacional.
É necessário ampliar os esforços para cooptar o sistema financeiro. Convence-lo que a meta da inflação para 2012 não foi em nenhum momento abandonada, continua nos 4.5% (com as margens previstas pelo sistema de metas) e que apenas há um alongamento de prazo. O que se fez foi dar maior peso à sustentação dos níveis da atividade, para evitar que a produção brasileira seja molestada pelos efeitos do agravamento da crise na zona do Euro e possa enfrentar as consequências da queda no ritmo do crescimento nas economias americana e asiáticas.
Com a defesa dos cortes moderados na taxa Selic, o Banco Central mostrou sua capacidade de se antecipar à piora da situação econômica no exterior e das próprias condições políticas em muitos de nossos parceiros comerciais, indicando que podemos ter surpresas desagradáveis num futuro não muito distante. Ele escolheu um cenário realista e introduziu em seu modelo uma perspectiva que a economia mundial vai reduzir o seu ritmo de crescimento. Antecipou a queda nos juros na expectativa de que se tenha uma queda um pouco mais lenta da inflação, mas que se reduza menos o ritmo do crescimento do PIB. Os fatos têm mostrado que o Banco Central está mais antenado com a realidade do que os seus críticos.
Há realmente uma visível redução no ritmo do crescimento econômico e é muito importante impedir que esse movimento se acelere, a ponto de começar a comprometer os níveis do emprego no Brasil. O mercado de trabalho ainda oferece condições favoráveis, principalmente se comparado com o que vem acontecendo nos Estados Unidos e com a crescente desorganização nos países da zona do Euro.
A redução moderada e consistente das taxas de juro entre nós é fundamental para manter a atividade econômica num ritmo que sustente a atual dinâmica do emprego e estimule o aumento, mesmo que pequeno, das contratações. Só não podemos perder de vista que se desejamos chegar a uma taxa de juro real de 2% ou 3% num prazo razoável, temos que manter sólidas políticas fiscal e monetária e também acelerar as medidas de políticas microeconômicas para aumentar a produtividade dos nossos setores público e privados.
O autor, Antônio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC