09 de julho de 2026
Esportes

Pólo-aquático: Seja bem-vindo, ?doutor?!

Neto del Hoyo
| Tempo de leitura: 6 min

Encontra-se em Bauru desde a semana passada um dos maiores ícones do esporte mundial. Aos 57 anos o húngaro Áttila Sudàr, ex-jogador da seleção da Hungria campeã olímpica em Montreal, no Canadá, em 1976, e bronze em Moscou, na Rússia, em 1980, assinou contrato para treinar a equipe infanto-juvenil do Projeto Futuro da Associação Bauruense de Desportos Aquáticos (ABDA).

A princípio, o medalhista fica na cidade por dois meses como técnico do time que disputará em novembro o Campeonato Brasileiro no Rio de Janeiro e também como colaborador do projeto que atende cerca de 1.300 crianças entre 7 e 14 anos, sendo 92% de baixa renda. De acordo com o coordenador do Projeto Futuro, André Anastásio, a iniciativa deve atrair os olhares do polo aquático nacional para a cidade. "Trata-se de um nome reconhecido internacionalmente e que deve passar muito de sua experiência para nossos alunos. Estamos muito satisfeitos por tê-lo conosco".

Em sua primeira semana em Bauru, o novo técnico da ABDA visitou alguns projetos e participou de ações sociais promovidas pela entidade, como a entrega de brinquedos à Creche Irmã Adelaide no Dia das Crianças.


Adaptado

O campeão e ídolo húngaro retorna ao Brasil após mais de 30 anos, quando realizou uma série de amistosos no Rio de Janeiro e em São Paulo após as Olimpíadas de Moscou. Em entrevista ao JC, Áttila comentou sobre o novo desafio, lembrou das conquistas históricas e projetou suas expectativas para o trabalho em Bauru.

Ainda com certa dificuldade para entender o português, o campeão se comunica com uma mistura do italiano que aprendeu durante sua passagem na Itália como jogador somado a algumas poucas expressões locais que já consegue decifrar. As barreiras impostas pelo idioma, para ele, são as principais tarefas a serem ultrapassadas.

"Gosto muito do clima brasileiro. O calor favorece os esportes aquáticos e parece que se estende para as pessoas. Todos aqui me receberam muito bem e mostraram ter grande coração", diz o treinador que já descobriu um jeito muito simples para passar sua experiência aos atletas: "Se eu for falar vai ficar difícil, eles não vão entender direito. Então entro na piscina e mostro como se faz. Dentro da água não há segredo."

Com vitalidade exemplar para um atleta que hoje integra a seleção master de seu país, Áttila revela que o convite da equipe bauruense coincidiu com seus projetos de trabalho e espera ajudar o País a elevar o polo aquático no ranking dos esportes mais praticados. "Há 30 ou 40 anos vivi situação parecida na Hungria e fiz trabalho semelhante com crianças. Acredito ser importante para os jovens a presença de um ex-jogador, alguém que conseguiu chegar lá.

Um campeão olímpico pode ser um exemplo para os mais novos, pois é a prova viva de que a possibilidade existe e que podemos alcançá-la".


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Prazer, ?doutor Áttila?


Sem sombra de dúvidas o esporte mais praticado no Brasil é o futebol. Arrebatando mais de 30 milhões de praticantes, é ele o responsável pela veneração de grandes ídolos do esporte nacional. E se o futebol no Brasil tem Pelé, Garrincha, Ronaldo e Romário, no polo aquático húngaro Áttila seria como o craque Sócrates. A semelhança se restringe nos 1,90m de altura e na alcunha como também é conhecido em sua Terra Natal: o diploma de odontologia o faz conhecido como "doutor Áttila".

Nascido em Budapeste, capital da Hungria, o medalhista olímpico começou no esporte ainda aos 7 anos, quando ingressou na natação. Só aos 14 foi convidado a integrar a equipe de polo aquático de um clube de sua cidade. Em 1971 e 1973 venceu o Campeonato Europeu de Juniores. Três anos depois do último título na Europa, Áttila foi convocado para integrar a equipe principal de seu país que disputaria as Olimpíadas de Montreal, no Canadá. "Tinha apenas 22 anos na época, era um dos mais jovens de toda delegação", lembra.

E logo na primeira Olimpíada, veio o primeiro ouro. "Era tudo muito estranho. O campeonato não previa decisão final e era disputado por seis equipes no sistema em que todos jogam contra todos. Me lembro que vencemos o penúltimo jogo e já havíamos conquistado o primeiro lugar. Na hora não entendi muita coisa, só percebi que algo muito mágico estava acontecendo quando vi meus companheiros se abraçando e chorando muito. Foi então que entendi o que significava aquele momento."

Sudàr ainda faturou o bronze, em 1980, nas Olimpíadas de Moscou, na Rússia, e foi bicampeão europeu e vice mundial nos anos 1970, todos com a seleção húngara, onde atuou entre 1974 e 1986, tendo realizado 230 jogos. "Defender a seleção de seu país é uma honra para qualquer um. E é isso que passei para meus três filhos (hoje com 6, 8 e 25 anos) e espero passar para os jovens atletas. Se há possibilidade, temos que lutar, trabalhar muito e treinar duro para conquistar."

Como forma de prestigiar e confirmar o nome de Áttila na história do esporte nacional ao lado de grandes estrelas como o craque Ferenc Puskás, que comandou a seleção húngara no vice-campeonato na Copa do Mundo de 1954, a federação local imortalizou o nome do medalhista e ícone do polo aquático na seleção dos melhores atletas do século XX (entre 1901 e 2000).

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O valor olímpico


Em meio à disputa dos Jogos Pan-Americanos do México e às vésperas de sediar uma Olimpíada, o polo aquático brasileiro é visto pelo medalhista como uma das forças a serem trabalhadas até os Jogos Rio-2016. "A vinda de Jogos Olímpicos sempre contribuem para a evolução de um país. Para o esporte (polo) brasileiro será muito importante que os Jogos aconteçam no Rio, pois, geralmente, as grandes competições acontecem apenas na Europa e as grandes equipes de elite poderão se concentrar agora em uma disputa de alto nível na América do Sul."

Para o campeão, as potências do polo não perderam seu lugar ao longo dos tempos e nem devem ser ameaçadas num futuro próximo, porém, ao Brasil resta o exemplo da Itália. "Na minha opinião, equipes como Sérvia, Croácia, Espanha e até mesmo a Hungria seguem na ponta. Mas a grande surpresa foi a Itália que, em dois anos, subiu do 6º para o 1º lugar no ranking mundial. Como digo, se é possível, temos que trabalhar muito para chegar lá."

Há mais de dez anos fora das disputas ? já que parou com pouco mais de 40 anos ? Áttila enxerga a evolução do esporte como um "culto exagerado" à forma física. "Hoje a questão física é muito importante. Vale mais o quanto você é alto, ou quantos quilos você pesa. Os atletas são muito mais altos e mais fortes do que no meu tempo. Existe, por exemplo, um aluno do projeto aqui de Bauru que, com 14 anos, tem o meu tamanho".

Questionado sobre como enxerga a modalidade pouco praticada e até mesmo conhecida no Brasil, Áttila demonstra otimismo. "Conheci o polo brasileiro há muito tempo, e cheguei a jogar com o Eric Borges (um dos melhores jogadores brasileiros) na Itália. Pude constatar uma coisa que só ouvia dizer: os brasileiros, de maneira geral, são bons jogadores e também têm muita disposição. E, em todos esses anos, a grande lição que aprendi é que corpo e mente tem a mesma importância, uma coisa é ligada a outra. Não adianta você nadar 4 mil quilômetros se não souber pensar e se concentrar. Tudo parte da mente, e por isso precisamos ter consciência de que trata-se de um jogo e que as grandes vitórias não são conquistadas apenas com a força do corpo, e sim, com a força da mente."