São Paulo - Das 20 cidades que levaram os maiores prêmios da história da Mega-Sena, metade fica em São Paulo. A sequência desse hipotético mapa da sorte - fornecido pela Caixa Econômica Federal à reportagem - traz Paraná (com três cidades) e Minas (com duas). Os outros Estados sortudos, todos com uma cidade vencedora, são Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Bahia, além do Distrito Federal.
Além de mudar a vida dos felizes ganhadores, essas fortunas também servem para levar fama às cidades dos vencedores, sobretudo quando são pequenas e quase desconhecidas. O maior prêmio individual da história da Mega-Sena, por exemplo, de R$ 119.142.144,27, sorteado há um ano, saiu em Fontoura Xavier, cidade gaúcha de 11 mil habitantes a 190 quilômetros de Porto Alegre.
“A gente ganha em número de apostadores, que aparecem querendo tentar a sorte no mesmo lugar”, conta Paulo Sérgio Pedroso, dono da Lotérica Boa Sorte, onde foi feita a aposta milionária. Graças ao aumento de apostadores em sua loja, ele conseguiu bater já em junho a meta de vendas anual da lotérica, estabelecida pela Caixa, que desde 1962 administra as loterias.
E os holofotes não pararam por aí. A confusão que se seguiu ao anúncio do megaprêmio deu quase tanta audiência a Fontoura Xavier quanto a personagem Griselda, que é interpretada por Lília Cabral na novela das 21h da Globo, “Fina Estampa”, e ganha na loteria. Já o sortudo de Fontoura Xavier foi acusado de fraudar o bilhete premiado.
Disseram que ele o havia trocado por outro de um concurso anterior e entregado o premiado a alguém de fora do bolão de 11 pessoas. Assim, só precisaria rachar o prêmio com uma pessoa. Resolvido o imbróglio, o ganhador sumiu sem deixar pistas. “Ele já era rico, dono do único frigorífico da região, e tinha políticos na família. Parece que foi morar em Porto Alegre”, especula Pedroso.
Já Griselda vai esfregar o prêmio na cara de sua rival rica, Tereza Cristina. “Se eu sumisse com a personagem principal, acabaria a novela”, diz Aguinaldo Silva, o autor da novela.
Tema recorrente
E não só ele aborda o tema em sua trama. No ar desde maio, “Vidas em Jogo”, da Record, conta a história de um grupo de amigos que fatura R$ 200 milhões no bolão. E a própria Globo repete a dose na novela “Aquele Beijo”, que estreou no dia 17 no horário das 19h e também tem um sortudo no enredo. Sebastião tem um sonho e decide apostar a sorte usando os números da data de nascimento de seu pai.
Fora da ficção, tem gente que descobriu no sonho alheio de ficar milionário um jeito de ganhar dinheiro. Luiz Henrique Ferrari é o autor do “Livro da Mega Sena”, em que orienta jogadores.
“Dou 19 opções de jogos, todos com as dezenas já combinadas. O apostador terá apenas o trabalho de copiar nos volantes da Mega-Sena e pagar na lotérica o jogo de sua preferência”, explica ele, que não é matemático nem estatístico, muito menos já ganhou na Mega Sena - o máximo que conseguiu foi uma quadra, em 2002.
Dor de cabeça
Se pretendia ficar rico com o livro, também não teve êxito. Vendeu, em 20 anos, 2 mil exemplares. Ele até pede ao repórter para não divulgar o telefone, porque o retorno é “só dor de cabeça, nada lucrativo”.
Segundo Luiz Henrique, ele até hoje paga (mais do que ganha) por ter enveredado pelo ramo da “estatística megassênica”. Alguém fez uma aposta em sua cidade - Terra Roxa, no Paraná, a 100 quilômetros de Cascavel - e ganhou. Foi o que bastou para muitos acreditarem que o ganhador só podia ser ele. “Mas a pessoa desapareceu e muita gente achou que eu estava escondendo o prêmio. Teve gente que até deixou de falar comigo e atravessa a rua quando está na mesma calçada”, lamenta.
Prêmio da virada atrai gente até de outras cidades
São Paulo - A principal atração turística da cidade paranaense de Fazenda Rio Grande, a 35 quilômetros de Curitiba, não vem de suas belezas naturais nem de seu patrimônio histórico. Vem da sorte. Desde o Réveillon, o município de 81 mil habitantes desfruta da fama de pé-quente: ali saiu um dos quatro ganhadores do maior prêmio já pago pela Mega-Sena na história - R$ 194.395.200,04.
“Meu patrão me ligou ainda à noite para contar. Foi a primeira vez em que um prêmio grande saiu aqui”, lembra Marcia Staunetchei Ramos, uma das seis funcionárias da Grande Lotérico, uma das três lotéricas da cidade. Antes, a maior “fortuna” paga ali tinha sido de R$ 60 mil, em um sorteio da Timemania. “Agora vem gente até de Curitiba apostar aqui”, conta a funcionária que, depois disso, também arrisca suas apostas.
Para a psicóloga Thaís Maluf, do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Escola Paulista de Medicina, o fenômeno que faz com que alguém procure determinada lotérica para apostar por achar que a sorte está ali é o mesmo que leva apostadores a buscar talismãs e objetos “da sorte”. “É normal em quem gosta de jogar acreditar em alguma superstição, em força maior”, explica a especialista. “Tive um cliente que ia para o bingo com um crucifixo e dizia que dava um pouco a Deus e um pouco ao diabo.”
Thaís ainda vê semelhança entre esse comportamento e o de portadores de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). “A pessoa que ganha o prêmio em determinada máquina ou lotérica se apega a elas de maneira religiosa, ritualística mesmo. Isso pode tranquilizá-la na hora da negociação com o próprio jogo.”
Outro comportamento típico do apostador frequente é prometer antecipadamente ser generoso com a eventual fortuna. “Tem gente que age como se estivesse negociando com Deus. E diz: ‘Se o Senhor me fizer ganhar, dou metade aos pobres e amigos”, diz o psicanalista André Barreto, que trabalha com compulsão e é, ele mesmo, um renitente apostador da Mega-Sena.