10 de julho de 2026
Bairros

Nos lugares mais improváveis reinam pequenos shangri-lás

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 7 min

Pedaço do paraíso

 

Chácara Paraíso. A placa pendurada em um dos portões da chácara localizada no Jardim Tangarás anuncia, logo na entrada, como é o lugar onde vive Aline Garcia, 20 anos, e sua família.

Quem passa pelo lado de fora do estabelecimento certamente pode pensar que o nome é apenas mais um clichê, desses que fazem muito mais sentido para a família proprietária do local que para o resto dos visitantes. Mas esse não é o caso da Chácara Paraíso. Na verdade, não existe adjetivo que se encaixe melhor na descrição do local que paraíso.

Ao longo de toda a propriedade é possível encontrar árvores, sombra e flores, inclusive uma grande variedade de orquídeas, em abundância. Anões de jardim, bancos e redes também estão por toda parte. Além disso, a chácara abriga hortas, nascentes, lagos com peixes e animais como araras, tucanos, pica-paus, pavões, papagaios e calopsitas.

“Somos fiel depositário do Zoológico. Parte dos animais apreendidos vem para cá”, justifica ela, incluindo na lista da bichara os tradicionais cães de guarda e o pequeno Lutti, um filhote da raça maltês.

Conhecendo a Chácara Paraíso, fica sem sentido perguntar à Aline os motivos que levam ela e sua família a optar por viver em uma chácara urbana.

“Para falar a verdade, não sei o que é morar em outro lugar. Estou aqui desde que nasci e me sinto uma privilegiada. Claro que, mesmo estando na cidade, o Jardim Tangarás é um pouco distante do Centro, mas é um preço baixo que pagamos pela qualidade de vida que temos aqui”, avalia.

Mas até chegar a ser o paraíso que é atualmente, a chácara teve de passar por muitas transformações. Ela foi comprada pelo avô de Aline, levado pelo desejo de viver no campo.

“Quando me casei, no terreno, existia apenas a casa e algumas plantações. Ficamos aqui por gosto e, com o tempo, fomos transformando o local no que é hoje. Na época escolar, foi necessário muita programação. Não podíamos sair daqui toda hora para comprar um lápis ou uma folha de sulfite. Não compensava. Agora, não me mudo daqui por nada”, afirma Mara Zuin Garcia, mãe de Aline.

 

Recanto do sossego

 

 

Os quatro cachorros que latem insistentemente para o lado de dentro do portão da Chácara das Rosas, localizada na Vila Giunta, são o principal aviso de que os proprietários do local, Yukihar Nakandakari, 73 anos, e sua irmã, não querem ser perturbados, preferem o sossego.

O tempo de trabalhar de sol a sol e atender diariamente a dezenas de clientes que batiam ao portão para comprar as flores produzidas na Chácara das Rosas já passou. A mudança está visível no interior da propriedade, que perdeu o aspecto de produtora de flores e frutos e tornou-se, simplesmente, um lugar típico do campo em meio à cidade grande.

A família mora no local há cerca de 60 anos. Vieram de Araçatuba para Bauru, onde trabalhavam na lavoura de algodão, trazidos pelo pai. Escolheram a Chácara das Rosas para viver porque queriam desfrutar dos benefícios e comodidades da cidade sem ter de abandonar o campo, uma grande paixão.

“Aqui morávamos meus oito irmãos, meus pais e eu. A terra e a quantidade de pessoas era suficiente para produzirmos qualquer coisa. Por muito tempo a chácara foi referência na produção de flores. O portão vivia cheio de gente interessada em comprá-las. Além disso, produzimos muitas frutas, fizemos muita feira”, lembra Yukihar.

Atualmente, ele e sua irmã se dedicam apenas a cuidar dos pés de jabuticaba, acerola e abacate que estão espalhados pela propriedade. E, para não desacelerar de vez o ritmo, fazem feira três vezes por semana. Os cachorros, pelo visto, gostaram da mudança. Sobrou mais espaço para eles brincarem.

 

Vida no campo

Laércio José Soares, 48 anos, e sua irmã Cibele Aparecida Soares, 50 anos, nasceram em Bauru. Viveram por muito tempo em um dos bairros mais tradicionais da cidade, o Jardim Bela Vista. Depois, mudaram-se para Piratininga e, quando precisaram voltar para Bauru, há 8 anos, decidiram procurar por um lugar bem diferente de todos os que haviam morado anteriormente: buscaram uma chácara urbana.

O lugar escolhido foi uma propriedade localizada próximo à Granja Santa Cecília, alguns metros após o término da avenida José Henrique Ferraz. Ali, descobriram o prazer da vida no campo.

“Não tem coisa melhor que viver aqui. Se eu tivesse de morar na cidade novamente, acho que não me adaptaria...”, cogita Cibele.

Como toda chácara que se preze, o local é guardado por muitos cachorros e conta com a sombra de uma frondosa mangueira. O sustento da família é tirado da terra. Mais especificamente de uma grande horta, que produz as verduras que diariamente são vendidas de porta em porta por Laércio e Cibele nos bairros adjacentes.

“A localização da chácara é muito importante para nós porque precisamos sair para vender as verduras. Ainda que atualmente nós temos dois carros para fazer o transporte. No começo, era tudo na carriola”, conta Laércio.

Além disso, a chácara tem chiqueiro e galinheiro, que também colaboram na renda da família.

“Já tem até porco encomendado para as festas de fim de ano”, adianta.

 

Infinito particular

 

Quem entra na chácara que Dorival Vieira, 53 anos, custa a acreditar que a poucos metros dali passa uma das avenidas mais movimentadas da cidade, a Comendador José da Silva Martha. Isso porque o lugar não tem, nem de longe, características pertinentes à cidade grande.

Em frente à casa construída com tijolos do tipo à vista, um grande quintal abriga raros exemplares de pau-brasil, copaíbas, ipês e uma variedade de orquídeas. Muitos deles, inclusive, já estavam lá antes de Dorival chegar e foram preservados. O portão da propriedade é baixo e a segurança é feita, é claro, pelos cachorros.

A opção por morar em uma chácara urbana tem tudo a ver com a personalidade de Dorival. Formado em psicologia, escritor, budista e amante da natureza, ele conta que não se imagina morando em lugar diferente.

“Aqui tenho a paz que preciso para trabalhar, refletir e criar. Além disso, o acesso ao comércio, hoje indispensável, é fácil. Com o benefício de que ele não invade meu espaço”, ressalta.

Entre as atividades que dão prazer a Dorival está o cultivo das plantas e a longa caminhada que faz pela mata preservada localizada ao redor de sua chácara, onde é possível encontrar de pés de pequi a cachorros do mato. Mata que, inclusive, causava grande preocupação ao psicólogo no momento em que a reportagem o encontrou.

“Estou parado olhando para o estrago que fizeram aqui”, explicou, mostrando um caminho aberto na mata por uma máquina. “Fiquei sabendo que querem construir um condomínio por aqui e estão passando a máquina em tudo. Não pode. Essa área é preservada. Até parte do meu alambrado levaram!”, reclamava, indignado.

 

Agricultores urbanos

 

Mais que um espaço para descanso, um sonho de infância ou uma tradição familiar. A chácara urbana de Silmara Simonagio e seu marido Marcos Augusto Gomyde, localizada no Jardim Imperial, alguns metros acima da avenida José Vicente Aiello, é, acima de tudo, o local de onde sai o sustento da família.

Produtores de verduras hidropônicas, o casal escolheu a chácara justamente por sua localização no perímetro urbano da cidade, que facilita a distribuição diária da produção. Com o tempo, se adaptaram a tranquilidade da vida no campo.

Mas nem sempre sonharam com essa rotina. Pelo contário, queriam mesmo é morar na praia.

“A vontade de morar na praia era tanta que de um dia para o outro decidimos nos mudar para Juqueí, onde mora meu cunhado. Para conseguirmos nos manter, montamos uma horta de verduras hidropônicas, já que, por conta das características da terra, a região é bastante carente de folhagens”, conta Marcos.

Mas, com o tempo, a dificuldade em conseguir financiamento agrícola fez com que o casal retornasse, de mala e toda estrutura de hidroponia, para Bauru. Foi quando passaram a morar na chácara.

“Por conta da segurança, até cogitamos comprar um apartamento e deixar a chácara apenas para a hidroponia, mas cheguei à conclusão que não me adaptaria. Hoje estamos habituados. A vida por aqui é trabalhosa, mas é muito boa”, justifica Silmara, enquanto ri do fato de uma galinha ter subido em cima de um dos vasos de plantas dispostos na varanda e, ao descer, derrubado-o, causando a maior sujeira.

“É o dia inteiro assim. Os cachorros pisam na lama e pisam aqui dentro, as galinhas sobem nos vasos e derrubam tudo... Olha a cor desse cachorro!”, diverte-se.