08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

À mestra, com carinho


| Tempo de leitura: 3 min

Um estranho e interessante movimento tem ocorrido aos sábados na antiga sala de balé da Associação Luso Brasileira desde meados deste ano. Como o soar dos primeiros acordes de uma sonata, aos poucos os antigos integrantes do Grupo Imagem vão chegando ao local onde tantas vezes desafiaram as leis da física em forma de rodopios, alongamentos e saltos.

A velha sala, agora com a pintura carcomida, ainda conserva a barra de exercícios e os espelhos, mas trocou o linóleo por um piso de uma espécie de madeirite, os pôsters de Barishinikov e la Fontein - que tantos nos inspiravam - foram substituídos por outros, de luta marcial. Mas isso não vem ao caso.

Instantes de pertencimento, este espaço guarda momentos muitos especiais para os bailarinos que foram alunos de Yola Guimarães. Mais do que perder tardes ensolaradas de sábado, tentando fazer com que o corpo, depois de quase 10 ou 20 anos sem dançar, volte à antiga forma, na realidade estamos compreendendo o sentido e a importância que as aulas, os diferentes professores, as coreografias, as viagens e as apresentações tiveram em nossas vidas.

Certamente, não se trata de buscar a sequência perfeita, levar o corpo ao limite ou então se manter nas pontas do pé por eternos segundos. Desafios que embalavam nossos objetivos quando éramos mais jovens e sonhávamos com um destaque nos festivais nacionais e, também, nos internacionais.

O que podemos compreender dessas tardes deliciosas talvez seja o entendimento de que a dança, orquestrada por uma mestra ímpar, pode ser não só o complemento de uma educação esmerada para a obtenção de musicalidade, boa postura e um gingado incrível, que nos permite dançar qualquer ritmo, mas que valores, tais como ética, companheirismo, amizade e perseverança, são extremamente significativos e, ao longo do tempo, sedimentam amizades sólidas. Valores esses que trazemos até hoje para nossa vida pessoal, para nossa família e também para nosso ambiente de trabalho.

Sim, dançamos novamente. Nossos corpos já não têm mais a mesma agilidade de quando tínhamos 15 ou 20 anos. Carregamos conosco o peso da nossa experiência de vida, forjada em desafios, relacionamentos, vida profissional, pais e filhos.

Quase todos têm mais de 40 anos, mas percebemos que ainda é possível nos alegrarmos com os primeiros acordes de uma singela música andina, nos divertirmos com um engraçadíssimo forró sertanejo ou então nos emocionarmos com a Glória ao Pai. O que não perdemos ao longo desses anos em que paramos de dançar foi a leveza dos movimentos, a harmonia das simetrias e a emoção de estarmos juntos no palco. Mais do que desafiar as leis da física, na verdade, buscamos em nossas mais recônditas memórias as sequências de dança que foram significativas, como se fosse possível, não só rememorar, mas também "redançar".

O repertório do programa Rever - apresentado no último sábado, dia 15 de outubro - , curto, porém bem escolhido, mostra a amplitude e o ecletismo do trabalho ensejado por Yola Guimarães, que cedo compreendeu a importância de trazer professores de São Paulo, dando-nos, não só a oportunidade de conviver com profissionais capacitados, mas também de ampliar os nossos horizontes. Com eles, aprendemos disciplina e tenacidade, aprimoramos o que já sabíamos e nos permitimos sonhar cada vez mais alto,

No apagar das luzes da Associação Luso Brasileira, percebemos que a dança, efêmera pela sua própria natureza, se eterniza na memória corporal dos bailarinos, em gestos recriados e em sólidos aprendizados. Obrigada, Yola, por estes ensinamentos.

Cláudia Leonor Guedes de Azevedo Oliveira, historiadora, integrante do Grupo Imagem - 1984-1986