07 de julho de 2026
Ser

De volta para o passado


| Tempo de leitura: 4 min

Seduzido pelas músicas de Elvis Presley, The Beatles e Chuck Berry ainda na infância, o empresário Giuliano Garbi, de 36 anos, não hesitaria se pudesse, por um momento, ingressar numa máquina do tempo e voltar à década de 50. E assim o fez, à sua maneira.

Aos 18 anos, foi praticar dança de salão e tornou-se expert em rockabilly. À época, encontrou o estilo inconfundível que o acompanharia na vida adulta: topete frondoso, camisa ?de boliche? e calça dobrada até a canela. A viagem não teria volta.

Tal como Gil (Owen Wilson), personagem de "Meia-Noite em Paris" (2011), que vê a década de 40 como a melhor para se viver, Garbi e uma legião de fãs da estética de outrora têm encontrado maneiras de revisitar suas décadas passadas preferidas.

No filme de Woody Allen, Gil passeia por diversas décadas numa mistura fantástica. Mas, num tempo que não permite devaneios, o resgate se faz a partir das referências em moda, decoração e até entretenimento - que não cansam de reinventar a estética do passado.

Segundo Denise Pollini, professora de História da Moda da Escola São Paulo, nunca foi tão fácil resgatar o antigo. "Somos a geração mais bem informada. É fácil conhecer melhor o passado e saber trazê-lo associado ao nosso tempo", diz. Mas não é só um modismo. Fábio Righetto, professor de design de produtos da Faap, explica que, em momentos de crise, seja financeira, social ou emocional, é natural que a sociedade se volte ao passado.

"Alguns pensadores diziam que, quando o presente não atende mais, é preciso olhar o passado para ver o futuro. É uma nostalgia, algo como ?éramos felizes e não sabíamos?. Ainda que o sentimento brote em pessoas tão jovens", diz.

Giuliano Garbi, por exemplo, mandava fazer suas roupas. Hoje, traz peças sempre que sai de viagem e mantém na rotina o garimpo a brechós e lojas especializadas. Há sete anos, faltavam lugares onde se pudesse desfilar o estilo sem parecer exótico ou chamar demais a atenção. "Há alguns anos, só havia eventos fechados ou espaços muito alternativos. Eu queria algo mais familiar", diz.

Em 2004, pensando naqueles que, como ele, queriam ouvir rockabilly e sentir-se nos Anos Dourados, abriu com sócios o The Clock Rock Bar.

Se a fachada passa despercebida no cenário boêmio da zona oeste, atravessar a porta de entrada, porém, leva a um túnel do tempo que remete a 1950. Decoração vintage, funcionários a caráter, tudo isso embalado por, claro, som rockabilly. No cardápio, velharias como Vaca Preta (milk-shake de sorvete de creme com Coca-Cola) e Cuba Libre (à base de rum e Coca-Cola).

"Drinks mais anos 50, impossível", orgulha-se Garbi que, nos últimos quatro anos, viu seu público triplicar e ganhou concorrentes temáticos. "Antes, recebíamos 100 pessoas por dia de festa, de um perfil específico, de gente que respira esse estilo. A demanda aumentou e recebo pessoas cada vez mais diferentes, atraídas por esse universo", conta.

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Quero ser Dita Von Teese


Cabelos negros, batom vermelho, delineador bem marcado, óculos estilo gatinho são marcas registradas da paulistana Helô Piercer, de 23 anos. As referências de seu guarda-roupa e penteadeira vêm de divas (mortas) inspiradoras: Bettie Page (1923-2008) e Rita Hayworth (1918-1987).

Helô veste-se como uma pin-up, modelo de mulher sensual dos anos 50, que tem feito sucesso entre as meninas modernas. Até o piercing da moça, estrategicamente colocado perto da boca, faz a função de imitar a famosa pinta da eterna diva Marilyn Monroe (1926-1962). Helô tem um blog sobre o estilo pin-up de ser e se conecta, pela internet, com mais de 200 meninas com quem compartilha o gosto.

"É um conceito, não basta passar batom vermelho e usar delineador. Somos atraídas por uma estética que valoriza a feminilidade da mulher, tão banalizada hoje", explica a moça, que se diz sensual sem vulgaridade. "Até eu, que sou gordinha, consigo ser elegante e sensual", diz ela, que, em casa, segue a cartilha retrô.

A estética vintage, associada ao glamour da Hollywood de antigamente, também fisgou a ex-bailarina Karina Raquel, ou Fascinatrix, como é conhecida na noite. A inspiração para a performance burlesca de seus pocket shows, no entanto, foi contemporânea, e veio de mulheres performáticas e sedutoras, como Dita Von Teese, musa americana que se apresenta numa taça de champanhe, e Michelle L´ Amour. Essas, sim, que beberam, também elas, na sedução dos anos 50.

Em comum entre as três burlescas, lingeries e maquiagem vintage. "Homens e mulheres ficam fascinados", conta Karina, que se apresenta no Sonique Bar, na Bela Cintra, região central de São Paulo, e em eventos. No dia a dia, porém, é mais discreta que Fascinatrix. "Mas não dispenso corseletes e vestidos justos", diz.