Reconhecido como um dos artistas mais criativos do País, Vik Muniz parece não ter limites quando o assunto é linguagem. Depois de explorar a fotografia, a pintura e o desenho e construir, a partir deles, uma carreira sólida tanto aqui quanto no exterior, ele adota a literatura infantil como mais um de seus projetos.
Em "Melchior", Muniz, de 49 anos, conta a história de um menino que queria ser o melhor em tudo - na escola, na dança, no pingue-pongue e no futebol. Inspirado em sua relação com o filho Gaspar e na própria infância, a obra traz ilustrações da cantora e compositora Adriana Calcanhotto.
"Quando Gaspar tinha seis anos (hoje ele tem 21), achava que tinha de ser o melhor em tudo para obter minha aprovação como pai", diz o autor. "Apesar de entender essa postura - eu mesmo passei por isso -, não quis que meu filho achasse que eu só o amaria se ele fosse o melhor", completa. Pensando nisso, Muniz começou a escrever uma história que mostrasse que mais importante que ser um campeão em tudo, era ter amigos e ser feliz.
"Hoje em dia, as crianças aprendem a competir desde cedo e isso, às vezes, as torna egoístas e distantes dos valores morais que realmente importam", opina Muniz.
O artista e escritor lembra o quão difícil foi aceitar suas limitações na época escolar. "Eu era um zero à esquerda nos esportes e costumavam caçoar de mim. Para não apanhar dos outros meninos, ficava amigo do mais forte", conta. "Demorei para entender que cada pessoa tem pontos fracos e fortes e que não é preciso ser perfeito para ficar de bem consigo mesmo", lembra.
Para passar essa mensagem, a literatura do artista utiliza um dos elementos da fábula - o de usar a narrativa para transmitir um ensinamento moral. Na história, Melchior encontra um gênio dentro de uma bolinha de pingue-pongue, que realiza seu desejo de ser o melhor em tudo. Quando, porém, o menino passa a fazer gols como Pelé e a dançar como Fred Astaire, percebe que as crianças não conseguem mais jogar, dançar e nem brincar com ele.
Acompanhando a história estão as ilustrações de Adriana Calcanhotto, que já havia ilustrado um poema de Vinicius de Moraes, em 2003, e lançado, em 2004, um CD para crianças, o Adriana Partimpim. "Adoro trabalhar para os pequenos, seja fazendo música, seja desenhando", diz.
A cantora conta também que se inspirou no próprio Vik Muniz e em outros garotos inquietos para criar o Melchior. "Tive liberdade total. Quando entreguei os desenhos, o Vik Muniz disse que imaginava o personagem exatamente como eu o desenhei", completa.
De fato, a intenção do artista foi criar um personagem que fosse espelho não só de sua narrativa, como da história do seu filho e a de qualquer criança que leia e se identifique. Nesse sentido, a escolha de Adriana em traçar um Melchior sem muita expressão definida - não tem boca e nariz, por exemplo - faz com que ele possa se transformar, de acordo com a imaginação de quem ler.
Perguntado se não teme receber críticas pelo trabalho, por se arriscar numa área diferente da que costuma atuar, Vik Muniz é taxativo. "Desde quando eu só posso ser fotógrafo? Existem várias maneiras de se expressar", diz ele. A ideia do autor é, inclusive, publicar outras histórias infantis que tem na gaveta, sem, no entanto, abandonar seus outros trabalhos.
E conta um episódio: "Meu trabalho como fotógrafo tem sido mostrado nas escolas. Outro dia, uma menininha de cerca de oito anos se aproximou e perguntou: ?Ei, você é o Vik Muniz?? Quando disse sim, ela falou: ?Nossa, eu acompanho seu trabalho há anos?. E eu ri, feliz da vida".
"Melchior, o mais melhor"
Autor: Vik Muniz
Ilustração: Adriana Calcanhotto
Editora Cobogó
Preço sugerido: R$ 38,00