09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Carta a Machado de Assis


| Tempo de leitura: 3 min

"Caríssimo e augusto sr. Machado de Assis.
Não sei exatamente se o senhor encontra-se no mesmo estado de seu finado personagem Brás Cubas, porém, gostaria de obter algumas respostas - talvez vindas do além.

Primeiro, gostaria de dizer-lhe que é difícil expressar-me por meio dessa carta, uma vez que estamos no ano de 2011 e boa parte do seu vocabulário fora substituído por gírias e neologismos. Porém, creio que aí no "além morte", podes encontrar um tradutor a altura (A senhorita Amy Winehouse que partiu recentemente será uma ótima tradutora, já que, no lugar onde o senhor se encontra, só há, provavelmente, uma língua). 

 Voltando ao assunto principal, digo-lhe com muito orgulho que sua obra ainda é bem valorizada nos dias de hoje.  A maioria delas é fonte de estudo para jovens e adultos que desejam ingressar na vida universitária e fonte de lazer para amantes da literatura. O senhor criou o recorde de pessoa de vocabulário mais amplo totalizando 10.000 verbetes em suas obras e ainda teve como homenagem, seu nome relacionado a prêmios e etc. A Academia Brasileira de Letras que o senhor fundou continua de pé, firme e forte, porém não temos muitas notícias sobre a atividade da mesma.

Talvez por causa da globalização os escritores brasileiros da atualidade estão cada vez mais apagados, ou tem caído no esquecimento dos leitores, que também estão desaparecendo. (OBS: não pergunte para Amy o que é a globalização. Esse é um assunto melhor explicado por seus conterrâneos)
Todavia, o motivo pelo qual escrevo-lhe é outro. Trata-se de sua obra prima "Dom Casmurro". O possível adultério da personagem Capitu já foi até levado a  julgamento por alunos de Direto em faculdades. Então pergunto-lhe: Capitu era adultera? Já li o romance duas vezes e as evidencias são claras: os encontros com Escobar, a cena do velório do finado amigo... Porém, seria mesmo impossível uma redenção de Capitolina? Teria ela tido coragem de trair Bentinho, que fora seu amor de infância? Qual era a real intenção do agregado José dias ao enviar Bentinho ao seminário? Seria ele um provável pedófilo que tinha ciúmes do jovem casal Bentinho e Capitu? Afinal, fora ele quem descrevera Capitu como cigana oblíqua e dissimulada.

O que tens a me dizer a respeito de seus personagens? Eles te lembram alguém que realmente viveu sobre essa terra? De onde tiravas inspiração? É certo que ocultando essas respostas o senhor aumentou as razões para que pessoas como eu lessem o livro. Contudo, esse suspense me aflige. Sou muito curiosa.
Sendo fã de romances policiais como os de seus colegas Arthur Conan Doyle e Agatha Cristie, envolver-me nesse tipo de leitura é algo raro. Algo em suas obras me cativou de tal modo que o senhor é ainda o único autor do estilo realista ao qual consigo entender. 
Espero que um dia eu receba a resposta a essas perguntas, ou decida usá-las no meu futuro. Talvez esse meu amor pelas letras signifique algum tipo de vocação. Se for assim, darei meu melhor para me assemelhar ao senhor: meu herói das letras.

Todas as vezes que penso em escrever, lembro-me de quão árdua essa caminhada pode se tornar; então me lembro do célebre Joaquim Maria Machado de Assis, que se mostrou capaz quando ninguém mais acreditava. Aliás, faltam 27 dias para seu 103º aniversário de morte, ou seja, em breve teremos notícias da Academia de Letras. Ah! Creio que me esqueci de comentar! Sim, sou uma menina. E sim, sou eu quem está a escrever através de uma máquina chamada computador. Desejo-lhe um bom descanso e Feliz ?Morteversário?. De sua fã e pupila, Hayley LeFebvre."

Beatriz Jacinto Alves Pereira - aluna do segundo ano do Ensino Médio do Sesi Pederneiras