09 de julho de 2026
Auto Mercado

Dr. Automóvel: A tecnologia da destruição

Consultoria: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 3 min

A grande sacada da tecnologia automotiva em termos de segurança para os passageiros é a previsibilidade dos danos decorrentes do acidente. As carrocerias modernas são projetadas para se deformarem em caso de uma batida, seja ela lateral, frontal, traseira ou capotamento, sem prejudicar os passageiros dentro do habitáculo. Isto causa aquele enrugamento do capô, da tampa traseira ou das portas que absorve a energia do impacto e impede que a massa externa entre dentro do veículo afetando os passageiros.

Isto tudo ocorre devido a longos estudos de engenharia de deformabilidade aplicada diretamente ao projeto dos componentes. É como se quiséssemos dobrar uma folha de papel em um determinado ponto, apenas segurando pelas bordas. Dificilmente conseguiríamos fazer com que a dobra aconteça exatamente onde pretendemos, pois a folha de papel é flexível. Mas se fizermos um leve vinco no papel onde queremos a dobra, ao forçar o papel ele se dobrará exatamente onde queremos. É com este conceito (muito mais complicado na prática, é óbvio) que os engenheiros conseguem prever o deslocamento e a deformação de um componente da carroceria em caso de uma colisão.

Em uma batida frontal contra um obstáculo qualquer, seja ele um barranco, um guardrail, outro carro ou uma pessoa, a lei da conservação da energia descrita pela Física nos diz que a energia total será a mesma, mas que ela poderá ser transformada em outras formas de energia diferentes da original. Por exemplo: um barranco tem uma inércia muito grande, portanto energia potencial. Um carro tem movimento, então tem energia cinética. Em uma colisão entre eles, o barranco absorverá uma pequena parcela da energia do impacto e o carro a maior parte, que causará a deformação da batida. Outra parcela da energia da colisão será dissipada pelo barulho da batida, que nada mais é que energia sonora. Isto vale sempre e comprova que o mais fraco, ou seja, quem absorve mais energia, sempre leva a pior. Por isso é que se fazem os guardrails de forma a absorverem a energia maior de um impacto, se torcendo e se deformando, pois assim o carro que nele bater sofrerá menos. No caso de um atropelamento, quem é o mais leve? Se for uma pessoa, esta certamente sofrerá mais e danificará menos o automóvel. Se for um cavalo certamente este sofrerá bastante, mas ocasionará sérios danos ao carro. Com estes conceitos na cabeça, os engenheiros dimensionam os componentes da carroceria (chapas, estruturas e suportes) de forma que se desloquem em caso de acidentes de forma previsível, a fim de absorver toda a energia do impacto antes de atingir os passageiros. Este estudo não é apenas teórico, tem uma parte experimental muito delicada e sofisticada, com análises precisas dos resultados experimentais para tirar conclusões de projeto. Antigamente se faziam apenas os chamados "crash test" ou testes de colisão, onde se avaliavam os resultados e faziam as tentativas de correção no desenho dos componentes afetados. Com isto, muitos carros eram sacrificados em demolições com perda total nestas avaliações, a um custo altíssimo. Hoje, com o uso intensivo de programas computacionais de simulação em 3D, podem-se avaliar seguramente as deformações de forma virtual, apenas comprovando fisicamente em um crash test final de homologação, reduzindo sensivelmente os custos.

As montadoras dispõem de centros de desenvolvimento de produto onde são feitos estes testes de colisão. Veículos de prova são testados contra diversos obstáculos e em diferentes ângulos de impacto. Os mais modernos dispõem de várias pistas, algumas móveis como a da Volvo na Suécia ou cobertas como a da Honda no Japão, onde podem ser simuladas batidas em qualquer posição e intensidade, até entre caminhões.

Nos campos de provas os veículos de teste são impulsionados por cabos de aço a uma velocidade bem determinada, para simular a batida. Obviamente não tem ninguém dirigindo o veículo e são colocados bonecos especiais, conhecidos como Dummies (ou tontos, como são chamados os coitadinhos...) e apelidados de Oscar, para os mais íntimos. Diversos sensores de impacto, pressão, aceleração, etc., são instalados neles e informam aos técnicos todos os esforços a que foram submetidos no acidente. Por comparação, é feita uma simulação do que ocorreria com um humano que estivesse em seu lugar. Bom pra nós, né?