Frei Bartolomeu de Las Casas confirmou o que cronistas de Cristóvão Colombo haviam escrito: "Gente dócil e gentil". Os povos indígenas das Américas não eram agressivos, pelo contrário, muito hospitaleiros: acreditavam na convivência pacífica e na chegada de deuses. As consequências, já sabemos. Centenas de povos dizimados, línguas desaparecidas, culturas perdidas para sempre. O mundo empobreceu: não temos mais acesso a importantes conhecimentos astronômicos, sabe-se, dominados por, dentre outros, Maias, Astecas, Incas. Teríamos muito a aprender da Geometria, Sistemas de Numeração, Conservação dos Alimentos, Fitoterapia, Agricultura, manipulação de metais... Coletando, selecionando e cultivando sementes e mudas, as mulheres inventaram a agricultura. Sabe-se que, parte de povos da Europa foi salva da extinção, graças às batatas que Incas cultivaram e deixaram de herança para os que quase os dizimaram. Cerca de três mil tipos de batata, dentre as quais, a erroneamente conhecida como batata inglesa, foram (e ainda são) cultivadas pelos povos indígenas. A eles devemos os conhecimentos do cultivo do milho, mandioca, cará, feijão, arroz ... além de inúmeras plantas medicinais. Deles aprendemos o conceito de Sumak Kausay, o bem viver, presentes na Constituição da Bolívia e do Equador. Estamos aprendendo como sobreviver neste planeta, que devastamos, e como evitar que ele entre em colapso. Entretanto, ainda continuamos herdeiros do ímpeto assassino e destruidor dos colonizadores. Do CIMI (Conselho Indigenista Missionário) veio a seguinte denúncia:
Estávamos rezando, de repente chegaram dois caminhões cheios de homens, chegaram atirando, ordenaram parar queimar barracas e roupas e amarrar todos índios. Saímos correndo, em direção diferente. A 300 metros do local vimos as barracas queimando e muito choro. Faroletes e lanternas estão focando pra lá e cá, as crianças e idosos não conseguiram correr. Os meus olhos enlagrimando (sic) escrevi este fato. Quase não temos mais chance de sobreviver neste Brasil.
Esta é parte do relato de uma das vítimas da comunidade Pyelito Kue do Povo Guarani- Kaiwoá, em Iguatemi (MS), ocorridos nos dias 23 de agosto e 05 de setembro deste ano de 2011. No chão restaram munição calibre 12 antitumulto, as chamadas "balas de borracha", provavelmente usadas por milícias armadas. Seguranças de fazendeiros, que querem tomar os territórios indígenas, continuam ameaçando os índios. Segundo o CIMI, "o ataque a Pyelito Kue soma-se a outras situações análogas ocorridas, nos últimos anos, com as comunidades Apykai, Kurusu Ambá, Passo Piraju, Mbaracay, Ypoi, Guaiviry, Cachoeirinha, Buriti, Nhanderú Marangatu, Taquara, Carumbé, Itayka?aguyrusu, Yvykatu, Jaguapiré, GuiráKambi?y, entre outras. Nos últimos oito anos, mais de 250 indígenas foram assassinados no Mato Grosso do Sul." Até quando a ganância continuará solta para dizimar essa "gente dócil e gentil"?
A autora, Iolanda Toshie Ide, é colaboradora de Opinião