08 de julho de 2026
Polícia

Enterro de criança para D. Córregos

Vinícius Lousada
| Tempo de leitura: 4 min

“Pai, você me ajuda a lutar?”. Poucos ouviram essa frase, mas talvez ela tenha sido responsável por um dos momentos mais comoventes na despedida de Rafael Peres, de 11 anos, estuprado e morto anteontem na fazenda onde morava com a família. A frase foi dita por Rafaela, irmã gêmea do menino, instantes após o enterro, na tarde de ontem, no cemitério de Dois Córregos. O último adeus a Rafael levou cerca de 300 pessoas ao Velório Municipal na cidade.

O sentimento era de indignação e inconformismo diante do crime brutal contra o garoto descrito por parentes e amigos como ‘um anjo de Deus’ em terra. Muitos moradores de Dois Córregos também foram ao enterro, sensibilizados com a dor da família e chocados com o ocorrido no município com menos de 30 mil habitantes.

Rafael vivia com o pai, a mãe e mais quatro irmãos na Fazenda Limoeiro, onde foi assassinado por José Márcio da Silva que, como a família do menino, trabalhava no local. Poucos parentes conseguiam falar sobre o caso diante da comoção na despedida do menino. A prima dele, Elisabeth Nicolette, conta que se tratava de um garoto comum, muito alegre e brincalhão. “O Rafa adorava tudo o que era da fazenda. Gostava de pescar, de caçar. A gente acredita, inclusive, que o monstro que fez aquilo com ele usou isso para atraí-lo”, disse ao JC.

Elisabeth afirma que Rafael era muito apegado ao pai Pedro Paulo, à mãe Maria de Fátima e aos irmãos mais velhos Plínio, Paulo Eduardo e Ricardo. “Nossa família era muito unida. Mas a ligação mais especial dele era com a irmã gêmea, Rafaela. No último ano, os dois ficariam em salas separadas na escola, mas não conseguiram. A diretora precisou mudar”, lembra.

No momento em que o caixão de Rafael seria fechado, ainda no velório, a irmã gêmea beijou sua mão e pediu para que Deus lhe acompanhasse. Na sequência, o desespero da mãe emocionou a todos. “Eu nunca mais vou ver você, meu filho?”, gritou Maria de Fátima antes de passar mal e ser acudida pelo marido e pai do menino.

 

“Ele não olhava no rosto de ninguém”

A trabalhadora rural Rosineia Cristina de Oliveira prestou serviços no local do crime por seis meses e conviveu com José Márcio. Ela afirma que ele era extremamente quieto e calado, não conversava com as pessoas nem gostava de brincadeiras. “Aquele homem não olhava no rosto de ninguém, mas também não havia qualquer desconfiança em relação a ele para esse tipo de coisa”, contou.

Roselene Maria da Silva, por sua vez, não conhecia a família da vítima nem do criminoso, mas foi ao enterro de Rafael, sensibilizada com a história. “Moro em Dois Córregos há 16 anos e nunca vi nada do tipo. Nessas horas a gente só pensa no filho da gente”, desabafou.

 


O crime


Rafael Peres, de 11 anos, foi violentado e, em seguida, enforcado, no início da tarde de anteontem, na fazenda onde morava, na zona rural de Dois Córregos (73 quilômetros de Bauru). O acusado, um jovem de 19 anos, que trabalhava como lavrador no local, foi preso em flagrante e confessou o crime.

José Márcio da Silva teria atraído o menino até um lugar ermo,  mas o acusado disse que o menino o teria chamado para um encontro amoroso. De acordo com ele, depois do ato, a criança teria ameaçado contar o que havia ocorrido para a mãe, o que o levou a matá-lo.

 

Acusado já havia sido detido antes por estupro

José Márcio da Silva, 19 anos, foi levado na madrugada de sábado para a Cadeia Pública de Barra Bonita, após confessar ter estuprado e matado Rafael. Natural de Pernambuco, ele já morou em Franca, onde foi acusado de estuprar uma mulher e, por isso, ficou detido na Fundação Casa por nove meses. Segundo apurou o JC, o homem admitiu que, antes de amarrar a bermuda de Rafael no pescoço do menino, o enforcou com as mãos durante 12 minutos.

O histórico de José Márcio com acusações por estupro motivou a família a se empenhar na busca por Rafael que estava desaparecido desde o meio-dia da data do crime. Um dos irmãos da vítima falou ao JC que já sabia do passado do assassino do menino. “Eu associei o sumiço dele às informações que tinha sobre o ‘vagabundo’ e o comportamento estranho dele naquele dia. Ele estava com o sapatão todo sujo de barro e veio falar comigo, o que não era habitual”, contou.

A partir disso, por volta das 15h, os irmãos e mãe de Rafael começaram a procurá-lo. Foi quando encontraram a cueca de Rafael, um de seus chinelos e sinal de uma trilha no meio do mato, no brejo onde o crime ocorreu. “Minha mãe encontrou o corpo. Ele estava muito machucado. Deu para perceber que ele lutou muito para que aquilo não acontecesse”, lembra.

Edileuza Souza Costa, que também trabalha na fazenda como ajudante de serviços gerais, conta que ouviu o grito da mãe de Rafael e foi até o local. “Vi uma das cenas mais tristes da minha vida. Ele estava nu, no colo da mãe, que chorava compulsivamente”, relatou, sem conter as lágrimas.