09 de julho de 2026
Articulistas

Muito além da saúva

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A história do pensamento social brasileiro é marcada por tentativas de encontrar a raiz, a partir da qual todos os nossos problemas se tornariam inteligíveis. Houve tempo em que a saúva foi candidata ao posto. Saint-Hilaire, um dos mais importantes naturalistas que percorreu o Brasil nos anos 1810 e 1820, declarou que "ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil". Duzentos anos depois, nem uma coisa nem outra aconteceu. Meu amigo Waldomiro Rett continua na sua luta quase diária e espontânea para controlar as formigas que infestam nossas escolas e praças públicas. A saúva ainda teve o seu instante de glória no século passado, quando Macunaíma, "O heroi sem caráter", formulou seu catastrófico diagnóstico: "Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são!" Mário de Andrade brincava com a frase do viajante francês e fazia crítica ao chamado higienismo, característico do pensamento médico e de alguns setores conservadores do período. O atraso do Brasil era consequência das doenças endêmicas, vermes, "amarelão" e outras que tornavam o brasileiro indolente, passivo e resistente à modernização. O escritor Monteiro Lobato defendia que era preciso acabar com a "velha praga", o "piolho da terra", o "funesto parasita", o Jeca-Tatu. Vida e literatura seguem unidas neste país, em franca camaradagem. O "piolho planaltino" hoje é muito mais voraz. Os cálculos da corrupção são assombrosos. Um órgão público, a Advocacia Geral da União, admite que no período Lula tivessem sido afanados R$ 69,7 bilhões. É impossível divulgar dados precisos, mas a Fiesp estima a coleção de escândalos em R$ 70 bilhões por ano. Há quem considere que os desvios e a malversações torrem 10% do PIB (soma de todas as riquezas produzidas pela nação) ou algo em torno de R$ 180 bilhões de dólares por ano. Como um Super Jeca, a classe política e a alta burocracia corrupta, muito além dos recursos públicos destroem o nosso amanhã. Ou o hoje. Falta dinheiro para a educação, a saúde, a segurança. O governo se recusa a votar a proposta de emenda à Constituição que o obriga a implantar ensino integral de 100% nas escolas. Uma das desculpas é que programas como o Segundo Tempo, palco das subtrações recém-comprovadas, cumpriria a função de ocupar o estudante no período em que está não está na sala de aula. Se fosse tocado em todo lugar por gente íntegra e competente, ainda assim, o projeto não substituiria a Educação Integral, que deve ir além do esporte, com reforço nas matérias música, dança,literatura e outras expressões culturais. Ocorrem falsificações confessas na quantidade de atendidos.

Os males do Brasil são, além da saúva, as ONGs que servem de fachada para o desvio de recursos para o caixa de campanha de partidos; os aditivos contratuais que triplicam o valor dos objetos licitados; as "consultorias" milhardárias proporcionados pelo tráfego de influência de membros do governo; os "recursos não contabilizados", também conhecidos como "mensalões", para garantir votos nos Parlamentos; e as "taxas de sucesso" contratadas por membros eminentes da burocracia com percentual sobre cada golpe bem sucedido aplicado no erário. Há outros modus operandi que a nossa ingenuidade nem consegue alcançar.

A presidente Dilma começou a semana inaugurando uma obra que resume a complacência do lulopetismo com o "malfeito" ? o novo nome da corrupção. Pagou R$ 1 bilhão pelos 3.500 metros da ponte sobre o Rio Negro, em Manaus. A maior ponte do mundo, na China, foi iniciada junto com a amazonense e feita a R$ 57 milhões cada quilômetro. A brasileira ficou 500% mais cara, R$ 300 milhões por quilômetro. Nenhuma explicação foi dada sobre a obra superfaturada que paira acima do rio e mergulhada no pântano dos aditivos. Dilma sabe que por trás dos recursos subtraídos há crianças sem merenda, escolas sem estrutura e um país dominado pelo tráfico. Inclusive, o de influência.

Seis mudanças de primeiro escalão em dez meses de governo têm dimensão de reforma ministerial. A vassoura que Dilma é obrigada a usar pode significar o fisiologismo em xeque. A sociedade parece ter acordado para os efeitos deletérios dessa maneira de manter o poder. A própria classe C que Lula promoveu para o andar do consumo começa a estranhar o acúmulo de casos idênticos, em que áreas aparelhadas da máquina pública cometem assaltos contra o Tesouro. Trocar seis por meia-dúzia vai acabar dando na vista. Não se consegue vitórias apenas com recuos ? alertava Churchill.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC