Agudos – O Tribunal do Juri se reuniu em Agudos (13 quilômetros de Bauru) para julgar um crime bárbaro que chocou a população da cidade há mais de cinco anos na última sexta-feira. Na ocasião, a ajudante-geral Tatiane Pereira confessou ter colocado a filha recém-nascida dentro de vários sacos plásticos, que foram queimados dias depois numa fogueira feita por ela nos fundos de sua casa (leia mais abaixo). Após horas de julgamento, a mulher, hoje com 28 anos, foi condenada a 19 anos e 8 meses de prisão por homicídio duplamente qualificado e ocultação de cadáver.
A defesa de Tatiane queria que ela fosse julgada pelo crime de infanticídio, quando a mãe mata o próprio filho, durante o parto ou logo após ele, sob a influência do estado puerperal. A pena, nesses casos, varia de dois a seis anos de prisão. No entanto, os jurados entenderam que ela deveria ser julgada pelo crime de homicídio duplamente qualificado (cometido por motivo torpe e com emprego de meio cruel), crime cuja pena é maior, além da ocultação de cadáver.
Por maioria, o Tribunal do Juri decidiu que Tatiane deveria ser condenada a 19 anos e 8 meses de prisão pelo crime. Na opinião do promotor de Justiça João Henrique Ferreira, a pena foi “bem aplicada” e a Justiça foi feita em relação ao caso, que teve grande repercussão na época. O Jornal da Cidade não conseguiu localizar o advogado de defesa da acusada até o fechamento desta edição. No entanto, a reportagem foi informada de que ele deverá recorrer da sentença.
O crime
Após esconder a gravidez da família, amigos e vizinhos simulando estar com um mioma no útero, no dia 28 de abril de 2006, através de parto normal, Tatiane Pereira deu à luz uma menina no Hospital de Agudos. A criança chegou ao mundo pesando 3,250 quilos e foi batizada pela própria mãe como Vitória.
O marido, um operador de máquinas, na época com 28 anos, havia feito vasectomia há dois anos. Foi ele, inclusive, quem acionou uma ambulância para que a mulher, com fortes dores, fosse socorrida. Duas horas depois do parto, quando o rapaz ligou para ter notícias da esposa, foi informado sobre o nascimento do bebê.
No dia seguinte, ele tentou visitá-la, mas não pôde entrar por estar de bermuda. Antes de ter alta, no dia 30 de abril, Tatiane telefonou para o sogro para negar o parto e corrigir o suposto equívoco cometido pelo hospital. Depois de vestir a filha com roupas emprestadas pelo hospital, a mulher retornou para casa de ambulância.
Segundo apurado pelas investigações, ela entrou na residência, no Centro da cidade, pela porta dos fundos, amamentou a menina e, em seguida, colocou-a viva dentro de diversas sacolas plásticas, que foram penduradas num cômodo construído no quintal, distante do imóvel. Na ocasião, o marido e os dois filhos - de 7 e 5 anos - não estavam em casa.
Tatiane confessou à polícia que, dois dias depois, queimou os sacos plásticos numa fogueira acesa por ela no quintal da residência. O crime só veio à tona após uma vendedora autônoma ter questionado a acusada, que era sua cliente, sobre o bebê. Ela confirmou o fato, mas disse que a filha havia nascido com uma saúde muito frágil e estava prestes a morrer.
Desconfiada, a vendedora entrou em contato com o Conselho Tutelar do município, que obteve a confissão da mulher, na frente do seu marido, de que havia dado à luz a menina. Contudo, a ajudante-geral alegou que havia entregue a filha a um casal, por intermédio de uma mulher de Bauru.
A Polícia Civil foi acionada e localizou a suposta mulher, mas ela disse que não falava com a acusada há cerca de um ano. Após buscas na residência de Tatiane, os policiais localizaram no quintal dois ossos, provavelmente da coluna da recém-nascida. Com as provas, a mulher acabou confessando o crime.
O corpo de Vitória, parcialmente carbonizado - apenas o rosto e o tórax não foram queimados -, foi localizado no lixão de Agudos no dia 9 de maio. Tatiane foi presa em flagrante por ocultação de cadáver e infanticídio e levada à Cadeia Pública de Cabrália Paulista.