10 de julho de 2026
Bairros

Abandonadas, caixas d?água são inimigas da saúde em Bauru

Neto del Hoyo
| Tempo de leitura: 6 min

A escassez de água própria para o consumo humano vem tomando proporções cada vez maiores e reacendendo a discussão sobre novas formas para sua captação, armazenamento e aproveitamento. Neste contexto, os reservatórios conhecidos como caixas d’água são elementos vitais em qualquer edificação. São elas as alternativas encontradas para atender à demanda em casos de interrupção do fornecimento de água pela rede.

O grande problema é que, se não estiverem dentro das normas e não forem bem conservados, podem ser insuficientes e ainda se tornar inimigos da saúde pública ou contribuir com problemas estruturais nas residências. A Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru (Assenag) estima que existam pelo menos 100 mil caixas d’água sujas na cidade  (leia mais ao lado).

Na semana passada, em entrevista ao JC, o presidente do Departamento de Água e Esgoto (DAE) de Bauru, André Andreoli, disse que o problema da reservação se agrava devido a uma cultura disseminada no município em que muitos imóveis não possuem caixa d’água adequadas.

“Não existe qualquer obrigação de fornecimento ininterrupto de água. As residências e empresas precisam armazenar a água que chega”, afirmou.

As inadequações constatadas nos reservatórios vão desde a falta de manutenção e limpeza, passam pela capacidade insuficiente e vão até mesmo a ausência deles.

Segundo a Defesa Civil de Bauru, enquanto as regiões periféricas da cidade sofrem com a conservação das caixas d’água, em alguns bairros mais antigos da cidade pode-se constatar que não existe local próprio para armazenamento nas residências.

“Existem casos que não foram construídas caixas d’água ou então algumas casas têm pequenos reservatórios que não adiantam muita coisa”, afirma o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito.

Para atender a necessidade, esses reservatórios devem obedecer determinações em relação ao tamanho, localização e peso conforme a edificação. A orientação do DAE, que segue definição da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), é de que as caixas d’água nos imóveis tenham a proporção mínima de 500 litros por dormitório.

“Vamos ter no futuro o Rio Batalha bastante baixo, e notamos que em alguns bairros a captação de água ficará comprometida. As pessoas precisam ter consciência que muitas coisas podem afetar o rompimento do abastecimento, e as caixas d’água têm que estar preparadas para suportar isso. O próprio nome já diz, se é um reservatório é porque existe a possibilidade de precisar utilizá-lo.”

De acordo com o capítulo IV, artigo 144 da Lei Municipal nº 2.371 de 18 de agosto de 1982, que estabelece normas para edificações em Bauru, “toda edificação deverá possuir reservatório de água, com capacidade mínima igual ou superior ao consumo diário estimado, acrescida do volume exigido para combate a incêndio, conforme normas do Corpo de Bombeiros”.

Porém, assim como ressaltou o presidente do DAE ao justificar os problemas de abastecimento da cidade, boa parte das residências não atende às determinações da Lei.

Há quatro anos inquilino de uma residência no Jardim Carolina, o tesoureiro João Aparecido Torquato conta que chegou a passar por alguns problemas devido à capacidade insuficiente de apenas uma caixa d’água em sua casa.

“Só existe um reservatório de aproximadamente 500 litros. Este só atende aos dois banheiros, então, quando falta água, ficamos sem poder usar as torneiras da pia da cozinha e tanque”, observa.

A Defesa Civil ainda ressalta que algumas casas não são projetadas para suportar o peso das caixas d’água e acabam apresentando rachaduras.  “A estrutura tem que ser feita para suportar o peso e, como a caixa enche e esvazia, tem que suportar também o processo de fadiga na construção. As pessoas não tomam conhecimento, mas às vezes o problemas está, literalmente, em cima da cabeça”, diz Álvaro de Brito.

 

Assenag diz que Bauru tem pelo menos 100 mil reservatórios sujos

De acordo com estimativas da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru (Assenag) a cidade possui aproximadamente 150 mil edificações. “Podemos afirmar, com certeza, que mais de 100 mil caixas d’água estão sujas em Bauru”, cita o arquiteto Emerson Crivelli, presidente da associação.

Dentro dessa estimativa estão problemas diversos que acabam fazendo desses reservatórios grandes aliados na proliferação de transmissores de doenças que colocam a saúde pública em alerta, como o mosquito transmissor da dengue.

Ele ainda explica que “em alguns países mais evoluídos”, não existem reservatórios e apenas a água das ruas é utilizada. “As caixas d’água acabam sendo uma necessidade e não benefício”, diz.

De acordo com a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), a limpeza das caixas d’água deve acontecer a cada seis meses, ou seja, pelo menos duas vezes ao ano. A realidade, porém, é muito distante disso.

Proprietário de uma empresa de serviços de limpeza e dedetização há mais de 10 anos no mercado, Edison Moroni conta que os pedidos de higienização e manutenção de caixas d’água residenciais representam muito pouco no montante de serviços prestados por sua equipe de funcionários.

“Fazemos de 15 a 20 limpezas em caixas d’água por mês, sendo que apenas 10% dessas são em residências. A maioria dos pedidos é de imóveis comerciais, que temem a fiscalização da Vigilância Sanitária”.

Ainda segundo o empresário, na maioria dos casos esses atendimentos são acionados com urgência. “As pessoas buscam atendimento quando percebem, por exemplo, sair sujeira e terra das torneiras, ou um mau cheiro e gosto ruim na água. Afora isso. são os poucos clientes que fazem limpeza periódica”, diz.

A dificuldade de acesso aos reservatórios também é um grande problema enfrentado pelas equipes de manutenção. “As pessoas não planejam como colocar as caixas d’água. Em alguns atendimentos, temos que destelhar a casa e até mesmo mexer no madeiramento para conseguir abrir a tampa das reservas”.

O custo médio da limpeza, de acordo com Moroni, é de R$ 50,00 ou R$ 60,00 por cada caixa de pequeno porte, ou seja, de 500 litros ou mil litros. “A questão custo benefício compensa”.

 

Má conservação é grande ‘aliada’ da dengue

O desrespeito à determinação de limpeza periódica das caixas d’água a cada seis meses faz com que os reservatórios sejam aliados na proliferação de mosquitos como o transmissor da dengue.

É tentando diminuir esse índice que o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) e a Secretaria Municipal de Saúde devem repetir, neste mês, as ações de prevenção e combate à dengue que incluem oferecer tampas a reservatórios em residências de famílias de baixa renda.

“A caixa d’água é uma das campeãs no ranking de criadouros do mosquito da dengue. Além disso, existem outras questões sanitárias e doenças, como verminoses e cólera, que podem ser evitadas com a manutenção e limpeza desses reservatórios”, alerta Roldão Antonio Puci Neto, auxiliar em Saúde do CCZ.

Ele explica que o trabalho de prevenção conta ainda com as denúncias da população, caso se deparem com possíveis criadouros.

“Há um ano, uma moradora de um prédio ligou reclamando que do seu chuveiro caíam larvas. Fomos constatar e vimos que o problema era com a caixa d’água do prédio. Por isso, é importante que sejam feitas denúncias. Acredito que as caixas se configurem, em Bauru, como o terceiro maior criadouro do mosquito transmissor da dengue”.