11 de julho de 2026
Articulistas

Direção defensiva - a arte de ficar vivo

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Foram 40.610 mortos, 3.016 mais que em 2010; 111 pessoas morreram por dia, 8% mais que no ano anterior; 146 mil internações hospitalares, 15% mais. Esses são os dados do balanço dos acidentes de trânsito no Brasil em estradas, ruas e avenidas, em 2010, apresentado no 18º Congresso Brasileiro de Transporte e Trânsito, realizado no Rio de Janeiro, no mês de outubro. Não vamos dizer que os números são assustadores porque, infelizmente, parece que nos acostumamos com essa desgraça. Além do noticiário diário, quando há feriados prolongados já ficamos calculando quantos morrerão. Também fica difícil dizer que são números preocupantes, porque o comportamento de grande parte dos motoristas não corresponde à atitude de quem dirige preocupado em evitar acidente. Imprudência, alcoolismo, desrespeito às regras de trânsito, imperícia e falta de educação transformam a máquina feita para facilitar a vida em arma fatal.

Educação, fiscalização e punição, nesta ordem, são as medidas apropriadas para combater essa calamidade. Falemos da educação. Na década de 1970 o Senai foi autorizado a traduzir e adaptar um programa americano de treinamento de motoristas profissionais e amadores, intitulado Direção Defensiva. Dividido em 8 módulos, cada um ilustrado por um filme apropriado, o curso discute conceitos, atitudes e procedimentos que levam o motorista a dirigir com segurança para si e para os outros. Muitas empresas, como a CESP e CPFL, valeram-se dele para treinar seus motoristas e funcionários autorizados a dirigir veículos da firma. Hoje a Direção Defensiva foi incorporada pelo Denatran no exame de motoristas e renovação da carta de habilitação.

Para motivar a assimilação dos procedimentos de direção com segurança, o curso discute alguns conceitos que incentivam atitudes favoráveis a dirigir veículos sem provocar acidentes. Partindo da análise de estatísticas de acidentes de trânsito, com as suas conseqüências em mortes, invalidez permanente, despesas hospitalares, prejuízos ao trabalho etc. conclui-se pela necessidade de pessoas que saibam dirigir melhor. Daí tira-se o conceito: "Direção perfeita ou dirigir com perfeição significa que você realiza cada viagem sem acidentes; sem infrações de trânsito; sem abuso do veículo; sem atrasos de horário e sem faltar com a cortesia devida." Viagem aqui tanto é aquela de pegar estrada como a de levar o filho à escola.

Os acidentes, em sua maioria são evitáveis, basta que alguém faça alguma coisa nesse sentido. O conceito é: "Acidente evitável é aquele em que você deixou de fazer tudo que razoavelmente poderia ter feito para evitá-lo." Muitos deixam de fazer o que razoavelmente poderiam fazer porque acham que estão com a razão. "Não importa saber quem é o culpado, mas sim quem poderia ter evitado o acidente." O que adianta estar certo e ser envolvido num acidente, com danos pessoais e materiais? Vale a pena morrer ou causar a morte de outras pessoas, inclusive da própria família, só porque está com a razão? O importante é você não se acidentar e nem causar acidente a outros. Conclusão: "Direção defensiva é dirigir de modo a evitar acidente, apesar das ações incorretas dos outros e das condições adversas."

A educação é o mais importante, mas não resolve tudo sozinha. É preciso fiscalizar e punir os que desrespeitam as normas do trânsito, criando riscos de acidentes e, principalmente, aqueles que provocam os acidentes. Estamos presenciando um aumento de acidentes por alcoolismo e de homicídios por discussão de pequenas batidas, como aconteceu recentemente em Botucatu. Faria bem a revisão do conceito de crime doloso, para melhor enquadramento desses criminosos, evitando a liberdade pelo simples pagamento da fiança.


O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetra