Apesar de acordado, ainda me encontrava na cama. Triste porque a saudade me despertou. O telefone tocou. Levantei-me para atender. Na pressa nem calcei os chinelos. Um amigo, como se fosse um profeta, ao ouvir e sentir a minha voz, perguntou: "Você está triste?", e completou com palavras confortadoras, dizendo que Deus fica triste quando um dos seus filhos se entristece. Conversamos. Agradeci. Despedimo-nos. Prometi ligar mais tarde. Permaneci sem os chinelos. Descalço, fui fazer o meu café. Árabe. Forte com pouco açúcar. Enquanto a água fervia, e como faço em todas as manhãs, esfarelo pão pelo quintal para os meus pardais que às vezes entram pela casa toda. Preciso abrir portas e janelas para que encontrem saídas. São muitos que ficam me esperando lá fora. Já nos conhecemos. Amigos. Foi quando percebi que estava sem os chinelos, sentindo o chão entrando em mim pelos meus pés descalços. O calor me chegando de baixo pra cima até meu cérebro, fazendo escalas por todo o meu corpo. Morno. Acariciante. Como se a terra me dizendo: "Somos um do outro, nos pertencemos através dos séculos passados e vindouros..." Estremeci. Senti-me como se ela me falasse, quisesse conversar comigo. Calei-me. Que direito tinha eu para falar com a mãe que a tudo consente?
Que aprisionada nos meus vasos me dá flores e enfeita o meu mundo com o verde da esperança que é sempre viva em mim? A caminhar com meus pés descalços, me experimento em contato com a natureza como se fosse um dos meus pardais. A terra, entrando pelos meus poros, seu cheiro invadindo meu ser, suas cores pincelando telas na minha imaginação... Ah, terra, mãe de tudo e de todos! Que dá o trigo sem esperar recompensas, e nos acolhe abrindo as portas para eternidade. Obrigado, meu querido amigo Luiz Carlos Pasquarelo, por me telefonar e me tirar da cama para eu caminhar descalço pela vida...
Munir Zalaf - presidente da Academia Bauruense de Letras