A peregrinação em busca do tratamento realizado pela missão Fala Sorriso atinge localidades distantes. Rita de Cássia percorreu três dias de barco de Inhamundá, no baixo Amazonas, até Manaus, para levar o filho no programa voluntário.
"De Manaus pegamos a voadeira para atravessar o rio Negro e mais uma hora e meia de estrada. É longe, mas nada que não compense ver meu filho parar de sofrer. Na escola as coleguinhas caçoavam muito dele e ele sofria muito com isso e eu também. As coleguinhas não brincavam com ele e com a cirurgia que já fez já consegue brincar com os outros, falar com os outros. Eu soube das cirurgias por um rapaz que tentou fazer em Manaus mas não conseguiu. Acabou esse programa (Cecom) por lá. Muita gente veio para fazer, mas tem muita gente precisando ainda", conta Rita.
Aos cinco meses, Samia Rachel chegou ao hospital em Careiro com a mãe Soraia Dutra e o pai Willian Navegante apreensivos. Avaliação realizada, primeira cirurgia agendada: "A Samia nasceu com fissura labial só de um lado. Quando ela tiver um ano, na quinta missão em março do próximo ano, faremos o palato (céu da boca). Até a fase de adolescência ela terá quatro cirurgias. Depois do lábio, agora, e do palato, em seguida, entre sete e 12 anos, ela terá de fazer o enxerto ósseo, além da rinoplastia aos 14 anos. Deixamos por último o retoque nos lábios, neste caso visando à perfeição, o melhor resultado possível para ajustes nessa cicatrizes que retraem e cujo movimento não pode ser previsto no tempo exato. Considerando o retoque final, serão cinco cirurgias nela", descreve o médico Antonio Assunção.
A sequência de intervenções cirúrgicas em Samia serve de exemplificação para compreender todas as etapas do tratamento lábio palatino ao longo do crescimento dos pacientes, desde os primeiros meses até o final da adolescência.
O desejo do idealizador da Missão Fala Sorriso, o médico Antonio Assunção, é o de que Careiro se transforme em um centro de referência nesse tipo de tratamento no Amazonas, com o poder público local absorvendo no programa atendimentos complementares, como o acompanhamento de fonoaudiologia e o suporte psicológico, necessários para a recuperação anatômica, fisiológica, estética e emocional desses pacientes.
Manoel, pescador, e a história de vida
Manoel Santos da Silva, 40 anos, agricultor, pescador e caçador, de Anamã (AM), mora literalmente isolado na floresta, há 12 horas de barco de Careiro. Em uma história de superação, pessoal e em família, ele foi acolhido pela companheira, Luisete Basto Cunha, depois de sofrer um derrame.
A história de amor de Manoel vai além da fissura da face que atingiu um de seus dois netos. "Eu sofri um derrame e fui acolhido pela minha esposa, que já tinha três filhos e era viúva e deixou a casa dos pais para cuidar de mim. Trabalho da pesca, da plantação e da caça, sou de uma família de baixa renda, com eu, minha mulher e agora os oito filhos. Ela tem três filhos do primeiro casamento e três comigo e nós criamos dois netos. O Edenilson que precisa da cirurgia é um dos netos", descreve.
O neto, que não é de sangue, vem de um dos três filhos do primeiro casamento de sua companheira Luisete. Mas para Manoel isso não tem a menor importância. "Ela me acolheu muito doente. O pai dela não queria e ela saiu comigo procurando ajuda. Um amigo meu me acudiu e lá, um mês depois, eu consegui me levantar. Da doença eu me conheci e eu e mais ela passamos a nos gostar. Fomos morar juntos em Anamã. Três meses eu trabalho com agricultura e o resto do ano é pescaria, para comer e para vender. Ai pesca todo dia e põe no gelo e passa para o atravessador que leva os peixes para Manaus", descreve.
Segundo o pescador, o atravessador paga R$ 8,00 o quilo do tambaqui. Em um bom restaurante de Manaus, um exemplar de quatro quilos é servido a R$ 80,00 na mesa. "Chegamos a pegar 2.000 unidades em um dia bom. Eu planto roça, milho e feijão para comer. Umas duas ou três vezes por ano eu caço paca, tatu, veado, porco do mato, com espingarda. Caçamos em três pessoas e o mais comum é caçar tatu e paca. Ave tem bastante manguari e o mutum. Não tem febre amarelam, sou vacinado, as oito crianças vivem pescando, brincando no mato, nadando. Agora eu espero que com o sacrifício para chegar aqui que o Edenilson faça uma boa cirurgia. É neto como se fosse filho meu", afirma Manoel.
Sobre os bichos, como o jacaré, a cobra e a onça, ele sentencia: "Se o bicho estiver quieto e você não mexer ele não faz nada quando passa por ele, a não ser que esteja faminto. A onça vem todo ano e passa em Anamã, pega um ou dois cachorros e volta pro mato. Mas é só isso e a gente vive normal com ela. Aqui no interior também não tem derrubada de árvore como em outros estados da Amazônia e o peixe só que agora tem acordo de pesca e tem de respeitar o defeso (época de proibição) para não faltar o peixe depois", finaliza Manoel.
Todos os filhos estudam e a prefeitura realiza o transporte, fluvial a maior parte, ou por terra nos trechos menores. "Eu tenho todos os documentos, tenho título de eleitor e já voto há oito anos. Tem uma bolsa família para nós e assim a gente vive. Uma paca vendemos por R$ 20,00 e do peixe eu quero agora fazer um viveiro. O que me falta é um dinheirinho para gastar com isso. Mas vai melhorar muito se eu fizer", complementa Manoel.