Odete Oliveira dos Santos gerou 11 filhos, 10 dos quais vivos e, destes, a metade, isso mesmo, cinco, apresentaram fissura. Alojada em um salão da igreja presbiteriana, que abrigou as primeiras famílias desde a primeira Missão, ela aguardava com esperança as novas intervenções na filha Reik Lubia, no adolescente Glostarro Oliveira e no jovem Flayner Oliveira.
"Eles fizeram uma cirurgia pequeninhos e em um demorou um pouco para conseguir, foi com três anos. Muita coisa melhora na vida deles. No falar. Eles tinham vergonha de estar no meio das pessoas e isso não tem preço. Eu venho de Anori, pelo rio Solimões. A gente planta roça, tucumã, manga, caju, banana, feijão, milho por lá. Os filhos estão todos na escola e estão indo bem. Eu espero que fique perfeito e não tem como pagar o que o doutor está fazendo aqui com os filhos dessa gente", conta Odete.
Para as mães, como ela, que encontram muita dificuldade em lidar com a situação, ela pede que superem. "O doutor pediu que eu falasse com as mães que ficam com seus filhos nas casas para que também tragam eles para operar. Tem muita gente com receio e eu tinha também, porque a gente não conhece isso. Nem sabia que podia operar isso. Agora vendo os meus filhos e a mudança que isso faz, eu espero que essas mães também tragam os seus filhos nas próximas vezes", orienta Odete.
Pergunte ao doutor Assunção a razão de se engajar na empreitada e a resposta é: "Nós cobramos do brasileiro morador da Amazônia que ele proteja a floresta e espero que essa imensa biodiversidade realmente esteja protegida ao longo da história. Decidi dar minha contribuição como cirurgião e daí surgiu a Missão Fala Sorriso", sintetiza.
Superação e planos
Julimar Silva ficou o tempo todo ao lado de Celestino Nascimento no pós-cirurgia, de quem é cunhado. Bastou contar um pouco do plano de vida do cunhado para entender a relação entre os dois.
"Ele estava muito animado porque agora vai poder conversar com os colegas de maneira muito mais fácil. Ele era muito tímido, fechado e falar vai fazer muito pra ele. Ele disse que agora vai fazer seminário, quer terminar a faculdade de Administração para usar a voz que nunca pode usar, porque não conseguia ser entendido. Só falta mais uma cirurgia para ele completar o sonho dele de usar a fala para poder trabalhar. Ele sempre disse que ia trabalhar usando a fala, quer das palestras, ensinar", menciona Julimar que foi de Manaus a Careiro para acompanhar Celestino.
Julimar pediu que não o deixasse sozinho na sala durante o pós-operatório. "Eu estou impressionado, não quero fizer aqui sozinho não. Conversa aqui comigo. Mas vai ficar tudo bom, se Deus quiser. Ele vai ter sua vida toda mudada agora", cita, enquanto Celestino ainda dormia.
Curiosidades e informações gerais
? O uso de bicicleta é muito comum entre os moradores e o relevo de planície é um convite a pedalar. Não há ciclofaixas por lá, mas as motos rodam em velocidade reduzida nas ruas, se comparada a "correria" dos paulistas.
? As casas usam a telha de fibra com cimento, mais barata, embora mais quente. A telha de barro quase não existe em Careiro.
? O esgoto residencial depende de valas sépticas. Também há canalização de esgoto das casas para o rio. Um plano de manejo para o tratamento de esgoto está sendo elaborado. O desafio é o custo do programa de tratamento, com distâncias de dezenas de quilômetros entre as comunidades ribeirinhas, todas cercadas pela mata.
? O governo de Careiro implantou o programa "Água para todos", com a perfuração de poços nas residências. A água de superfície é abundante, mas a instalação de redes e do sistema de captação teria custo elevado.
? A oferta de energia elétrica em Careiro é realizada por geradores. Quando há problema ou é preciso manutenção em um gerador é necessário redistribuir o sistema, com uma parte da cidade ficando no escuro por umas três horas.
? É muito comum famílias com mais de 10 filhos na região de Careiro. Não foi difícil encontrar nas comunidades ribeirinhas mães que geraram mais de 15 filhos, muitos por parteiras.
? A pesca comercial do tucunaré está proibida por dois anos e o Primeiro Acordo de Pesca, com regras de restrição e para o manejo (época do defeso), foi assinado em agosto passado. Pelo acordo, o turismo tem de contratar piloteiros locais para a pesca nos períodos permitidos.
? O governo local está, em parcerias, realizando cursos de capacitação para os ribeirinhos, como o de piloteiro e para camareiras. Como contrapartida, as famílias caboclas estão sendo convidadas a ajudar na fiscalização espontânea do cumprimento do Acordo de Pesca e a denunciar infratores à fiscalização de Careiro.
? Na formatura da primeira turma de camareira para atuar em hotéis de selva, no mês passado, as ribeirinhas cobraram curso de inglês para atender o turismo internacional. O Cetam, coordenado por Pedro Pereira, vai ampliar os programas, com vagas para guias de turismo em 2012. É o órgão do Estado para a formação profissionalizante, oferecendo no percurso dos rios a formação em técnico de enfermagem, agente comunitário de saúde, técnico em computadores e agente florestal.
? Para chegar à formatura do grupo de camareiras foi preciso rodar 82 quilômetros pela BR 319, mais 18 quilômetros em percurso de terra, cortando a floresta por um ramal, e percorrer 25 minutos de barco até um hotel selva.
? São 18 hotéis selva já cadastrados, com infraestrutura adequada para as condições de mata. Vários deles dispõem de gerador de energia. Todos oferecem passeios, trilhas, observação de bichos e pesca.
?A produção de mel da abelha jandaíra está sendo disseminada em Careiro, que conta com grupo de apicultores. Na pesca, o governo local encontra resistência dos ribeirinhos em se organizar em cooperativa.
? A feira de Careiro é disputadíssima ainda antes de amanhecer, talvez por ser uma vez por semana (quarta-feira) e pela grande procura por frutas que não são típicas da região, como o morango.
? Durante a semana em Careiro, a sede da prefeitura fica aberta ao público até às 12 horas. A assessoria do atual prefeito trabalha para reeducar o caboclo. O careirense foi "acostumado" por gestões anteriores a pedir, da passagem para transporte ao dinheiro para o remédio.
? O pau-rosa e o linalol: A matéria-prima do perfume preferido de Marilyn Monroe, o Chanel nº 5, tem origem no pau-rosa, árvore encontrada desde o sul do México até a Floresta Amazônica. A essência que tanto cativava a atriz é o linalol, substância que responde pelas notas florais dos perfumes da alta perfumaria, podendo funcionar também como fixador. Até pouco tempo atrás, a única fonte de linalol era o óleo de pau-rosa, árvore ameaçada de extinção em decorrência da extração do linalol. O manjericão está sendo utilizado como substituto do linalol, para "alegria" das árvores de pau-rosa.