09 de julho de 2026
Articulistas

Solidariedade no câncer

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

No idioma alemão existe a palavra "schadenfreude" para traduzir um certo sentimento de satisfação que invade as pessoas diante da notícia do infortúnio alheio. "Antes ele do que eu" - raciocinam. Ou então consideram a desgraça que atingiu o outro como um castigo merecido por ter fumado, bebido, contrariado interesses ou, até, por ter trabalhado demasiado. Schadenfreude deve ser um fenômeno da civilização Ocidental. Tanto é que os alemães criaram este vocábulo para sintetizar o desrespeito ao padecimento humano, na mão contrária do que deveria representar um traço cultural importante: a solidariedade na desgraça. Nós, brasileiros, costumamos chamar de "espírito de porco" esse humor negro diante do sofrimento. O lixo político-ideológico que tomou conta das redes sociais em regozijo à doença do ex-presidente Lula deve ser sintoma de uma sociedade doente. Desejar o aniquilamento físico de qualquer ser humano é uma vileza difícil de conceber. No vasto histórico das baixezas humanas, o uso político de uma doença é ainda mais indigno. Os efeitos eleitorais podem ser até contrários aos desejados pelos adversários. A revista inglesa The Economist observa que "as poucas palavras que o ex-presidente proferir serão difíceis de ignorar".

O sociólogo Pascal Bruckner, em seu "Ensaio sobre o dever da felicidade" dá a causa dessa felicidade com a infelicidade do semelhante. Segundo o autor é produto de um estágio civilizatório para o qual a tristeza e a dor, a doença e a decadência, a velhice e a morte são vistas como aberrações que não estavam no programa. Essas aberrações são proscritas por uma sociedade de euforia perpétua, onde, o que a contraria é ironizada. O que reforça a idéia dessa excrescência encontrar guarida no Ocidente é que os americanos também têm o verbete "haters" (odiento) para identificar aqueles que extravasam raiva e indignação excessivas na internet, sob a capa do anonimato e com comentários raivosos. Os psicólogos sociais chamam de "desindividuação" o fenômeno psicológico estudado desde o fim do século 19. O ódio on-line, do século 21 estaria associado à desestruturação familiar. O ciberbullyng também é utilizado para a instrumentalização dos meios eletrônicos com a finalidade de atingir pessoas.

Depois dessa tentativa acadêmica de demonstrar que isso não é coisa só de brasileiro, vamos ao cerne das críticas relacionadas com o fato de Lula ter ido se tratar num centro médico de referência, enquanto cancerosos sem dinheiro aguardam na fila do SUS, 76 dias (em média) para fazer uma quimioterapia e 113 dias para as sessões de radioterapia. Esta dura realidade Lula já conhecia de outros azares. Em 1971 o metalúrgico perdeu a mulher e o filho por falta de atendimento adequado, em um parto malsucedido em hospital público. Seus irmãos também tiveram câncer. É verdade: Lula-presidente afirmou um dia que "a saúde está a um passo da perfeição no Brasil". Mas não é o momento de cobrá-lo e negar a ele o direito de se tratar onde quiser, já que tem as condições econômicas para arcar com os custos. Será que Fernando Henrique Cardoso também iria recorrer ao SUS? O que os jornalistas do meu tempo chamavam de "insidiosa doença" e o povo de C.A. para a doença que não ousa dizer o seu nome, hoje pode ser tratada no Sistema Único de Saúde em condições muito próximas dos hospitais famosos. O Hospital Amaral Carvalho, de Jaú, recebe os maiores elogios dos pacientes. A fila é o problema a ser resolvido. Em Bauru, o Instituto de Oncologia do dr. Antunes, com aparelho de última geração em radioterapia aguarda credenciamento do SUS. A adversidade também produz lições positivas. A presidente Dilma Rousseff foi tratada do seu câncer linfático no Hospital Sírio-Libanês. Seu primeiro ato depois que assumiu o poder foi o de colocar na rede pública o mesmo remédio com que ela foi tratada, o Rituximab. Certamente terá o bom senso de melhorar, primeiro, a saúde pública do seu país antes de contribuir com o capilé para a vaquinha do miserê grego. Somente assim ajudará na cura do câncer ético dos nossos internautas. Os mineiros, pelo menos no câncer são solidários, como dizia Otto Lara Rezende. O frasista declarava-se um viciado em não fumar, para se distinguir dos amigos tabagistas. Rubem Braga era mais condescendente: "quem quiser que se fume". Vargas Llosa dizia ser impossível não sentir uma certa solidariedade cívica com os fumantes, tratados como cidadãos de segunda classe. Os que tragaram nicotina e alcatrão durante anos e tomaram os seus "golos" e agora pagam o preço do prazer efêmero, merecem respeito, pelo menos.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC