08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Sobre pardais


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Havia em Pederneiras, muitos anos atrás, um grupo de jovens que ficou conhecido, naquela época, como Turma dos Pardais. Essa turma animava bailes do CRC, especialmente o tradicional Baile Caipira e o Carnaval, fazia torcida organizada em eventos esportivos, participava de manifestações populares e acontecimentos sociais, sempre alegre e ruidosa, bem ao feitio de um ajuntamento de pardais. Daí o apelido.

Acontece que, há alguns anos, começaram a frequentar o meu quintal vários pardais, chilreantes e irreverentes como costumam ser os dessa espécie e que, sem a menor cerimônia, foram tomando conta do pedaço. Provavelmente ficaram sabendo, de alguma forma, que eu pertencera à Turma dos Pardais e por isso consideraram-se em família. Pode ser.

Embora não desfrutem de muito prestígio junto aos admiradores de pássaros porque não são aves canoras e nem possuem ricas plumagens, esses pequeninos seres com o nome científico de passer domesticus se adaptam bem a áreas urbanizadas e à convivência humana. Desconheço a expectativa de vida desses bichinhos, mas pelo tempo em que aqui estão, já devem ter passado por várias gerações, fazendo seus ninhos em vasos de samambaia e fendas no telhado da edícula, onde se reproduzem. Mas o interessante é que o grupo nunca aumenta. Não sei o que acontece com os mais velhos porque simplesmente desaparecem de cena. Vai ver que têm um lugar próprio para morrer, como os elefantes, cujos corpos nunca são encontrados, segundo dizem.

Meu cão, um labrador já um pouco idoso, convive bem com eles, permitindo que bebam água em sua tigela e se alimentem das sobras de suas refeições e das sobras da casa. Eles sabem direitinho o horário das refeições e o pequeno batalhão permanece de plantão, na espreita, esperando o momento da comida. Em diversas partes do dia, saem em revoada procurando, para devorar, os insetos alados que possuem os nutrientes apropriados e necessários para repor energias gastas e também, para acumular uma fina camada de gordura corporal para enfrentar o período de frio. Eu não sabia disso, mas os espertalhões bem que sabem.

E não se limitam somente ao quintal. Às vezes, um deles entra pela cozinha e pela copa para verificar se há farelos ou migalhas e se houver, não sei como, avisa os demais que comparecem céleres. Ousadamente, também voejam pelos demais cômodos da casa, como se fossem inspetores de qualidade querendo constatar se está tudo em ordem. Eu gosto deles. Considero-os da minha turma. Eles alegram o amanhecer e o final da tarde até o anoitecer. Há também um casal de rolinhas, muito discreto, que de vez em quando comunica que o "fogo apagô" arrulhando seus sons característicos. Ultimamente apareceu no território um par de maritacas, também barulhento, que se aboleta no alto de uma antena ou no galho de uma dracena. Dão "cusparadas" do tamanho de uma moeda antiga de 400 reis. Dizem que elas se casam para sempre e se uma delas morre a outra, viúva, permanece sozinha para sempre, exemplo de fidelidade.

Ah, apareceu também um solitário bentevi, a princípio tristonho, mas agora já mais alegrinho, com seu peito amarelo e faixa branca na cabeça, avisando que está sempre de olho em tudo. E todos vivem pacificamente, em harmoniosa comunidade. Na verdade, pardais, cão, rolinhas, maritacas e bentevi, não querem outra vida. E eu também não. Um abraço ao prezado Munir Zalaf, outro amigo de pardais.


Fernando Minguili, membro da Associação dos Jornalistas Aposentados do Estado de São Paulo