Roma - O primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, entregará o cargo ao presidente italiano, Giorgio Napolitano, logo após a votação da Lei de Finanças, elaborada com uma série de medidas de austeridade, incluindo propostas feitas pelos parceiros europeus da Itália, para que o país corte o déficit público e retome o crescimento. A lei deve ser votada dia 18.
A iminência de contágio da crise financeira europeia pela Itália fará nos próximos dias aquilo que anos de denúncias de corrupção, processos na Justiça e escândalos sexuais não conseguiram: derrubar Berlusconi.
A urgência da demissão já estava clara desde o fim da última semana, quando antes mesmo do fim da cúpula do G20 de Cannes a UE anunciou que o Fundo Monetário Internacional (FMI) passaria a supervisionar as finanças públicas italianas para assegurar a adoção das medidas de rigor no país. Então, a diretora-gerente da entidade, Christine Lagarde, afirmou que a Itália padecia de “falta de credibilidade” frente aos mercados financeiros. Na sexta-feira, Berlusconi chegou a receber um apelo de seu ministro de Finanças, Giulio Tremonti, que atribuiu à sua falta de apoio da opinião pública a instabilidade no país. “Certo ou errado, o problema da Itália é você”, teria dito o ministro.
Ontem, veio a gota d’água. Ao avaliar as contas públicas de 2010, o Parlamento italiano lançou uma advertência a Berlusconi: seu governo não tinha mais a maioria dos votos. Embora tenha conseguido aprovar as contas, sua base de sustentação no Legislativo foi reduzida, perdendo a maioria absoluta, que lhe garantia até aqui no poder. Por estratégia - que visava a agrupar todos os votos de contestação ao governo -, os deputados de oposição, liderados pelo Partido Democrático (PD), se abstiveram.
O resultado foi uma vitória com sabor de derrota para Berlusconi: 308 votos a favor - oito abaixo do nível mínimo de maioria absoluta -, contra 321 abstenções. Secretário-geral do PD, Pier Luigi Bersani, foi uma das vozes a pedir a cabeça do premiê. “Eu lhe peço que entregue sua demissão.”
A surpresa para a opinião pública europeia é que não apenas o PD e os tradicionais partidos de oposição passaram a pedir a saída de Il Cavaliere. No Parlamento, Umberto Bossi, líder do partido de extrema direita Liga Norte, o maior aliado do Partido da Liberdade, de Berlusconi, também convidou o premiê a sair. “Nós pedimos ao primeiro-ministro que renuncie.”
Em paralelo às pressões políticas, os investidores reagiram ao longo do dia com otimismo diante da possibilidade de queda do primeiro-ministro. Em Milão, o índice MIB chegou a subir a mais de 2% instantes antes da votação no Parlamento, reduzindo os ganhos a 0,74% após o resultado, que até então mantinha o premiê na chefia do governo. Oscilações semelhantes também se reproduziram em Londres, Frankfurt, Paris e até em Nova York.