08 de julho de 2026
Nacional

Na véspera da ocupação, o clima é tenso na favela


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Rio - Apesar do aparente clima de tranquilidade, moradores da Rocinha, na zona sul do Rio, relataram que era tenso o clima no interior da favela a poucas horas do início da operação policial para ocupação da comunidade - programada para a madrugada de hoje.

Habitantes da favela temem que integrantes da quadrilha antes chefiada por Antônio Bonfim Lopes, o Nem, preso na noite de quarta-feira quando tentava fugir da região escondido no porta-malas de um carro, resolvam resistir. Há relatos de que muitos traficantes ainda estavam escondidos na comunidade, principalmente em barracos nas cercanias da rua Dois, próximos à mata no entorno da favela. Também há apreensão com relação à ação policial e a eventuais abusos de autoridade em invasões a residências.

Policiais do Batalhão de Choque ocuparam ontem as principais vias de acesso da Rocinha e também do Vidigal, favela vizinha que será ocupada simultaneamente pelas forças de segurança. Viaturas da PM também foram posicionadas em ruas e avenidas de muita movimentação no Leblon, Gávea e São Conrado, bairros valorizados, vizinhos às favelas.

De acordo com moradores - que, por segurança, não se identificaram - , as “bocas de fumo” da Rocinha continuaram a funcionar durante a madrugada de sexta para sábado. A circulação de traficantes armados nesses locais, no entanto, praticamente cessou nos últimos dias, segundo essas fontes.

Embora Nem e seus principais aliados já tenham sido presos, muitos moradores ainda evitavam conversar com jornalistas. O vigia noturno que se identificou como Luciano, 27 anos, circulava com o filho de dois anos pela comunidade, na manhã de ontem. Ele disse que, como trabalha à noite, pretendia levar a mulher e o filho para a casa de parentes, também na comunidade, para que a família permanecesse junta durante a operação.

Já o operário aposentado Bernardo, 67 anos, morador na Rocinha desde 1968, disse que não pretendia alterar sua rotina. Nascido no Rio Grande do Sul, ele veio para o Rio e participou da construção do Túnel Dois Irmãos, cujas galerias desembocam ao lado da comunidade. “Um colega que ajudou a construir esse túnel comigo morreu no início da semana. Tinha a minha idade. Amanhã (hoje), vou visitar sua família. Operação nenhuma vai me deixar em casa. Só não saio se chover muito”, disse, bem-humorado.

Durante o dia, o comércio popular da Rocinha funcionou normalmente na via marginal da autoestrada Lagoa-Barra, onde desembocam vários acessos da Rocinha, e na Via Ápia, uma das principais ruas da comunidade. Na avenida Niemeyer, um dos acessos do Vidigal e sede de pelo menos cinco motéis, o movimento de casais, na manhã de ontem, parecia não ter sido alterado.

A Polícia Militar, com o apoio da Companhia de Engenharia de Tráfego da Prefeitura (CET-Rio) e da Guarda Municipal, fecharia, a partir das 2h30 de hoje, as principais vias de acesso à Rocinha e ao Vidigal: Autoestrada Lagoa-Barra (nos dois sentidos), avenida Niemeyer, Estrada do Joá, rua Marquês de São Vicente e estrada das Canoas.

A operação tem ainda participação da Polícia Rodoviária Federal, que vai montar bloqueios nas principais saídas do Rio, a fim de impedir a fuga de traficantes. O Corpo de Bombeiros montará um hospital de campanha com seis leitos na quadra da escola de samba Acadêmicos da Rocinha, em frente ao morro.

 

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Preço de imóveis em São Conrado deve subir até 40%

Rio - Depois de pelo menos duas décadas de incertezas e de uma gradual desvalorização dos imóveis, o bairro de São Conrado vê o iminente apaziguamento da Rocinha com grande expectativa. Corretores e moradores estimam que os valores de apartamentos e casas sejam elevados em até 40%. Mas isso só deve acontecer em seis meses, se a situação estabilizar.

Não será como aconteceu em Botafogo, nas proximidades do Morro Dona Marta (o primeiro a receber uma UPP, há três anos), acredita Pedro Carsalade, presidente da Associação Brasileira das Administradoras de Imóveis (Abadi). “Em Botafogo, a valorização (em alguns casos de 100%) foi rápida. Mas o Dona Marta é muito menor (tem um décimo da população da Rocinha) e há o batalhão da PM quase em frente.”

Os proprietários do entorno da favela sofrem com a dificuldade de comercializar e alugar seus imóveis, o que aumenta quando se registram episódios sangrentos, como as guerras entre traficantes de 2004, 2006 e 2008, ou impactantes por sua ousadia - em 2010, o bando de Nem, em fuga, invadiu o Hotel Intercontinental, o que espantou os hóspedes por um bom tempo.

Calcula-se que a desvalorização no bairro gire em torno de 30% - o que vale para apartamentos em condomínios com piscina, quadras de tênis e playground, erguidos nas décadas de 1970/80, época de pré-tiroteios, assim como para mansões de mil m² cravadas no meio da área verde remanescente.

Um apartamento de 200 m² que na Gávea, Jardim Botânico ou Leblon varia entre R$ 2,5 milhões e R$ 4 milhões; no Village São Conrado, de frente para o morro, “não chega a R$ 1 milhão”, diz o corretor Jarbas Coutinho, da Gávea Rio Imóveis, com experiência de 30 anos na região. “Em São Conrado, sempre se teve medo de bala perdida. Perdi um negócio no meio quando invadiram o hotel. Vai demorar para criar confiança.”