Quase todo mundo tem um ídolo. Se não chega a tanto, ao menos sempre há alguém que admiramos e, mesmo que involuntariamente, repetimos seus gestos por considerarmos tal modo de conduta ideal. Não importa o ramo, sempre há uma pessoa com um séquito de seguidores, alguns até mesmo influenciados no modo de vida.
Sem contar loucuras extremas cometidas por fãs alucinados, algumas pessoas fazem do cotidiano uma espécie de celebração ao ídolo, transformando até seus trabalhos numa forma de homenagear aquele personagem tido como modelo. Em Bauru e região, há exemplos de admiradores que transformaram suas rotinas com esses fins.
Eles não se confundem - ao menos é o que dizem - com a personalidade do famoso admirado. Apesar de uma parcela até mesmo se vestir de forma muito semelhante, garantem que a admiração vai até a página "dois", quando a personalidade própria entra em ação.
Um desses casos é o do músico Luiz Corrêa, que, "desde que se entende por gente", é diretamente influenciado por nada menos que o rei do rock, Elvis Presley. Maestro de formação, a graduação musical não ofusca o estilo rockabilly, com direito à característica costeleta, violão a tiracolo e roupas que remetem ao ídolo mundial, além, é claro, do tom de voz característico.
Porém, Luiz assegura que não se trata de um falsete para interpretar as músicas de Elvis. Mesmo sendo fã declarado do cantor, a voz é essa mesmo, diz, tanto para as canções de rock dos anos 50 e 60 do rei quanto para outras músicas, incluindo da cultura italiana, que habitualmente interpreta pelos bares e restaurantes de Bauru.
"Minha extensão vocal é idêntica à do Elvis", garante ele, recusando categoricamente os rótulos de crooner ou cover. "Faço minhas próprias releituras não apenas das músicas dele, mas de outros artistas", detalha.
Atualmente com repertório preenchido também por canções de músicos como Osvaldo Montenegro, Beto Guedes ou Guilherme Arantes, dos quais também se declara fã, Corrêa assume, entretanto, o carinho especial pelo rei do rock, a quem aprendeu a admirar ainda nas tardes quando Elvis protagonizava boa parte dos filmes exibidos na televisão. "Comecei a admirar vendo os filmes dele na sessão da tarde. Na época da faculdade, como a voz é muito semelhante, eu era chamado assim, e assimilei", atribui.
Música incidental
Assim como Elvis, ou melhor, Luiz Correa, outros músicos adotam a obra de ídolos como forma de trabalho.
No caso da banda Generator, que faz covers - com eles o termo é admitido sem embaraços - da banda de rock alternativo norte-americana liderada pelo ex-baterista (e hoje vocalista) do Nirvana, Dave Grohl, entretanto, o modelo a ser copiado nas baladas bauruenses e da região surgiu espontaneamente, durante os ensaios. "Chegamos ao Foo Fighters naturalmente. Era para tocarmos músicas de todas as bandas, mas encontramos a melhor sonoridade desta forma", justifica o baterista Leandro Lamonica Bertoli.
Professor de música, ele reforça o orçamento com a banda - também formada por Vinícius Bianco (guitarra e vocal), Tiago Rodrigues (baixo) e Fabrício Varella (guitarra) ? que, conforme o tempo passou, também ganhou adereços que remetem ao grupo capitaneado pelo ex-Nirvana. "Os instrumentos são parecidos e nós também tentamos fazer com que o visual se assemelhe", diz.
Caminhos inversos
O que você faria se viajasse durante horas para encontrar um ídolo enquanto o próprio fazia o mesmo caminho, mas na direção contrária? Foi o que aconteceu com o estudante Vítor Fracaroli Lima. Morador de Pederneiras, ele viajou recentemente até o Canadá, país natal da cantora Avril Lavigne.
A fim de percorrer alguns locais que fizeram parte das origens da loirinha, que na mesma data fazia sua segunda turnê pelo Brasil, apesar da frustração de não ir ao show, o rapaz diz ter se contentado em visitar o país da cantora, homenageada por ele no atualizado e organizado site www.avrilmidia.com, onde ele publica tudo sobre a artista também chamada, entre os fãs, de Princesa do Pop-Punk.
Proprietário de uma respeitável coleção de pôsteres, CDs e tudo mais que se refere a Avril, ele se recorda com emoção do show que ela fez em São Paulo, em 2005. "O show estava marcado para as 8h da noite e ela entrou quinze minutos mais cedo. É uma grande emoção pensar que se está no mesmo local, respirando o mesmo ar."
Funcionalidade justifica a idolatria
A idolatria é muito comum vinda de adolescentes - quem não se impressionou (ou riu) da recente histeria coletiva juvenil com os shows do astro teen Justin Bieber no País, ou não viu a loucura de fãs, não necessariamente de futebol, em torno do craque Neymar?
Essa característica, entre quem tem menos de vinte anos, segundo a psicóloga coginitiva Mauricéia Quinhoneiro, é absolutamente normal.
O problema, observa, é quando a idolatria, com esses ares de amor exagerado ou no formato "fotocópia", quando até a personalidade do astro é assimilada pelo fã, é encenada por fãs já na fase adulta. "Os adolescentes, que buscam uma representação fora da família, tendem a esse tipo de exagero. No entanto, a maturidade chega e traz o senso de si mesmo", analisa a psicóloga, do Centro de Terapia Cognitiva (CTC), de Bauru.
Isso não quer dizer que os "nossos" Elvis, Foo Fighters ou fã-nático por Avril Lavigne sejam problemáticos. Longe disso.
De acordo com a psicóloga, eles se enquadram, justamente, na característica que garante aos marmanjos o direito de admirar ídolos e até mesmo copiá-los. "A funcionalidade justifica o comportamento entre os adultos", acentua a psicóloga.
No caso dos três personagens da matéria, a funcionalidade observada pela terapeuta se aplica aos trabalhos, seja nas cantorias de Luiz Corrêa, baladas agitadas pela banda Generator ou no site diariamente atualizado por Vítor. Todos encontraram uma forma de trabalhar relacionada a artistas que admiram. Esse tipo de idolatria, assegura a psicóloga, não tem nada de anormal.
Patologia, de acordo com ela, é quando o indivíduo, já com seus vinte e tantos anos, incorpora traços de celebridades, seja na roupa ou até comportamento, sem esse amparo da funcionalidade, ao "clonar" uma personalidade, como se representasse permanentemente um papel. "Nesse caso, a pessoa sofre de uma carência muito grande, uma falta de referência e vazio. É alguém que precisa de ajuda", sentencia.
Contudo, ser fã não é pecado e é saudável, dentro dos limites, observa a psicóloga. "Você admirar, querer entender mais sobre não é problema. Desde que seja mantida a identidade própria, é algo saudável", aprova.