Rio - Sem disparar um único tiro, as forças de segurança do Estado do Rio, com o apoio da Polícia Federal, dos Fuzileiros Navais e de veículos blindados da Marinha, ocuparam as favelas da Rocinha e Vidigal entre o fim da madrugada e o início da manhã de ontem. As comunidades, as duas mais expressivas da zona sul carioca que ainda estavam sob domínio do tráfico armado, receberão a 19.ª Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) nos próximos meses. A pequena favela da Chácara do Céu, no Alto Leblon, também foi ocupada.
Ainda escuro, por volta das 4h10 da manhã, o silêncio do início de domingo foi quebrado pelo rumor das esteiras mecânicas dos carros de combate da Marinha. Os três primeiros saíram do Túnel Zuzu Angel e margearam a Rocinha até começar a subida pela Estrada da Gávea - onde traficantes haviam derramado barris de óleo com o intuito de atrapalhar o avanço dos veículos. Cinco minutos depois, entraram em ação os primeiros três dos sete helicópteros das polícias fluminenses usados na operação.
Impedidos de chegar à Rocinha por conta do fechamento ao tráfego das principais vias de acesso à comunidade, os moradores da favela que voltavam do turno noturno do trabalho ainda caminhavam pela Auto Estrada Lagoa-Barra e pela Via Ápia quando as primeiras unidades do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM tomaram posição na favela.
A operação, batizada de Choque de Paz, contou com a participação de cerca de 3 mil policiais e integrantes da Forças Armadas - segundo a Secretaria de Estado de Segurança. Rapidamente, toda a Rocinha foi ocupada. Sem nenhuma resistência. Não fosse a prisão de Igor Tomás da Silva, 29 anos, foragido do presídio Bangu 8 e que, por volta das 2h30, saiu carregado da comunidade alcoolizado e passando mal, toda a operação teria ocorrido sem nenhuma ocorrência.
Às 6h, o Bope já anunciava ter ocupado toda a favela. O sucesso da operação foi confirmado pelo chefe do Estado Maior da PM, coronel Alberto Pinheiro Neto, uma hora depois. Por volta das 11h, os helicópteros da polícia despejaram milhares de panfletos sobre a comunidade incentivando os moradores a denunciar a presença de traficantes, drogas e armas escondidas.
Antes do meio-dia, os moradores já ensaiavam retomar o ritmo normal da vida. Muitos desciam para acompanhar a movimentação da polícia e da imprensa, outros ignoravam e seguiam para os cultos religiosos. O comércio local começou a abrir. Mas o volume de lixo não recolhido acumulado pelas ruas era vexatório e a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) seguia fechada, apesar de ser “24 horas”.
Por volta das 12h50, soldados, inspetores, oficiais, coronéis, delegados estaduais e federais, além de centenas de pessoas acompanharam a rápida solenidade em que foram hasteadas as bandeiras do Brasil e do Estado do Rio de Janeiro, na localidade conhecida como “curva do S”, um dos pontos mais movimentados do morro. Exatamente oito horas e quarenta minutos após a chegada dos primeiros blindados à comunidade.
Desafio
Com a ocupação da Rocinha em apenas duas horas sem confrontos ou feridos, a cúpula da segurança do Rio tem o desafio de sustentar o plano de expansão das UPPs em meio às dificuldades para recrutar novos policiais. O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, admitiu dificuldades de efetivo, mas afirmou que a reprodução de UPPs segue “um passo sólido”.
Beltrame disse que os concursos para a contratação de novos policiais para atingir 40 UPPs está garantida, mas não informou em que prazo. Segundo ele, já há conversas no governo estadual para a ampliação do número de favelas desse plano.