09 de julho de 2026
Geral

Contra miséria, muita sola de sapato

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Em um esforço para tornar a vida menos miserável, muitas pessoas em Bauru estão gastando sola de sapato. Elas andam por horas a fio carregando, inclusive, filhos pequenos no colo em busca de doações que possam amenizar a fome da família.

Assim é a rotina de Maria de Lourdes da Silva Pereira, 61 anos completados ontem. Pelo menos três vezes por semana, ela anda muito em busca de comida para sustentar seus seis netos biológicos ou adotivos. Ela mora na última casa da avenida Pinheiro Machado, no bairro Nova Esperança, ao lado da linha férrea, local que mais parece zona rural.

Ela aproveita enquanto os netos, três de 8 anos, um de 4, outro de 3 e a caçula de 2 anos, estão na escola para ir em busca do alimento. "Saio cedinho de casa e ando bastante. Não tenho dinheiro para ônibus. O único jeito é abusar das pernas", comenta.

Entre seus destinos estão a Casa da Sopa, na Vila Dutra, a Fundação Paiva, no Jardim Bela Vista, e a Creche Nova Esperança. Maria de Lourdes leva consigo três baldinhos que sempre voltam cheios de sopa. "As crianças comem sopa com pão quase todo dia", revela.

Pelo menos uma vez por mês, ela retorna para casa com uma cesta básica. É uma cesta pequena, mas tem arroz e feijão, que ajudam a reforçar a alimentação da família por alguns dias.

Maria de Lourdes não recebe aposentadoria, nem pensão ou qualquer incentivo federal. Ela diz ter solicitada há três anos a inclusão no Bolsa Cidadão, cujo benefício pode chegar a R$ 120,00 por mês, mas ainda não teve seu pedido aceito. Diante da indefinição, ela conta que pretende fazer o cadastro para requisitar a ajuda financeira do Bolsa Família. O valor pago pelo governo pode ser de grande ajuda.

A casa em que mora com os netos foi emprestada por um advogado amigo de um dos filhos dela - ela tem dois filhos biológicos e seis adotivos. A casa estava abandonada e servia de esconderijo para os bandidos. O local tem energia mas não tem água. A família tem de pegar no vizinho. Os filhos estão morando quase todos fora de Bauru, em outros Estados, e deixaram os filhos para a avó cuidar.


Vida dura

A miséria tem castigado também a jovem Graziela de Souza Caldas, 19 anos. Ela tem uma filha pequena e já espera outro filho. A jovem perdeu a mãe quando tinha 4 anos. Como o pai não tinha condições financeiras nem morais para ficar com a filha, ela foi levada para um abrigo. Aos 5 anos, foi adotada. Aos 18, foi morar com o pai. Um ano depois, casou, ficou grávida e foi abandonada pelo marido.

Graziela foi morar com a ex-cunhada. Engravidou novamente e teve de deixar a casa. Atualmente, está abrigada em um imóvel que corre o risco de desabar, no Jardim Prudência. O local tem dois cômodos - uma sala e um quarto. No quarto, dorme ela, a filha e quatro filhos da amiga que a acolheu, Michele Silva Almeida Garcia, 29 anos.

Para deixar a situação ainda mais caótica, tudo o que ela havia ganhado como roupas, berço, carrinho, etc, foram consumidos pelo fogo. Um incêndio supostamente provocado pelo superaquecimento de um carregador de celular deixou Graziela e a filha, novamente, só com a roupa do corpo.

Por causa do fogo, a janela do quarto não fecha mais e a porta da sala está sem os vidros, ou seja, o vento, a chuva e o frio entram sem nenhuma dificuldade. O imóvel também não tem água encanada nem energia.

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Sem conseguir manter os filhos na escola, mãe perde benefício social


Michele Garcia mora em uma casa ao lado de Graziela, em condições tão precárias como a da amiga. A diferença é que o imóvel tem energia e não foi afetado por um incêndio. Enquanto Graziela aguarda resposta da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) para seu pedido do Bolsa Família, Michele luta para recolocar dois de seus seis filhos na escola. Por causa do excesso de falta, ambos perderam a vaga na escola e a família perdeu o benefício. Ter todos os filhos matriculados é uma das exigências do governo federal para conceder a bolsa.

Enquanto não conseguem a ajuda do governo, elas peregrinam atrás de comida e leite para os filhos. A exemplo de Maria de Lourdes, Graziela e Michele andam muitos quilômetros todas as semanas para ter o que oferecer aos filhos. Sem carrinho de bebê, Graziela carrega a filha no colo o tempo todo. "O complicado é na hora de voltar para casa. Além da filha, tenho de trazer as coisas que a gente ganha." E é também na base da sola do sapato. A falta de recursos financeiros não permite "passeios" de ônibus.

A Casa da Sopa, na Vila Dutra, é uma das principais, senão a principal fonte de sustento também destas famílias. "Tem dias que nós temos apenas arroz e feijão para comer, mas pelo menos nunca falta", agradece Michele.