Jaú - O dia foi de muita faxina para os inúmeros prejudicados pela chuva que atingiu a cidade de Jaú (47 quilômetros de Bauru) na madrugada de segunda para terça-feira e na manhã do feriado. Os moradores das imediações do rio Jaú disseran que não suportam mais tanto descaso da prefeitura e vão pedir para o Ministério Público (MP) tomar providências.
“São duas enchentes em 30 dias. Nem começou a época das chuvas e estamos assim. Imagine o que será no verão que se aproxima?”, questiona o morador José Luiz Piragine, da quadra três da rua General Galvão. Segundo ele, a água barrenta invadiu sua moradia e dos vizinhos na manhã do feriado e obrigou seus pais, dois idosos, um de 90 e outro de 84, a se refugiarem no quarto, no andar de cima do imóvel.
A água começou a subir rapidamente e a invadir os imóveis, informou Piragine, por volta das 10h. “Nós perdemos tudo o que estava na parte de baixo da casa. Móveis, utensílios e objetos. A água chegou a cerca de dois metros de altura. No mês passado, ocorreu o mesmo e nós recorremos ao Ministério Público, uma vez que a prefeitura não toma providência.Pedimos uma audiência com o prefeito e até hoje ela não foi agendada.”
Os filhos de Maria Aparecida Pires de Campos, 79 anos, não deixaram a mãe retornar para casa para não sofrer com os estragos da chuva. Ela mora na rua General Galvão, a 50 metros do rio Jaú. “Nós vamos tirar minha mãe daqui. Estamos tentando salvar algumas coisas e vamos levá-la para um apartamento. Isso aqui não dá mais. Ela estava só no momento da chuva e se refugiou no vizinho. Eles ficaram no andar de cima e foram retirados pelos bombeiros,” explicou o filho Alexandre Pires de Campos Castro.
De acordo com ele, cinco pessoas, entre irmãos e parentes, tiveram que adquirir botas, luvas e produtos de limpeza para colocarem um pouco de ordem na casa da idosa. “Se minha mãe visse como ficou, nem sei o que seria dela. Aqui a água do rio sobe rápido e ela praticamente perdeu tudo.”
Comércio
Os dois restaurantes que também ocupam a quadra três da rua General Galvão tiveram muitos prejuízos. O mais próximo do rio, Restaurante do Alemão, perdeu cadeiras e mesas, que foram levadas pela água barrenta que transbordou do rio. As geladeiras, depósito, forno e demais equipamentos da cozinha foram tomados pela lama.
“Nem imagino de quanto será o prejuízo. Os fornos, geladeira, depósito e todas as carnes armazenadas tiveram que ser descartadas, fora a sujeira. A energia foi desligada e nem sei quando poderei retornar com as atividades comerciais. Estamos fazendo a limpeza e depois vamos ver se os equipamentos funcionam.”
Ele explica que adquiriu há 10 meses o estabelecimento, que tem mais de seis anos. “Em 10 meses é a segunda vez que sofremos com a enchente e o verão nem começou. Eu sirvo de 200 a 250 almoços/dia. Já perdi dois dias.”
A água invadiu o restaurante com força total. “Arrebentou a porta de vidro. Eu não tenho nem como fechar o estabelecimento. Eu vejo o prefeito falar que vai fazer, mas nunca faz. Nós é que estamos arcando com os prejuízos da falta de atenção da administração local.”
Trânsito
A maior enchente do rio Jaú dos últimos 30 anos influenciou no trânsito da cidade. Várias ruas foram interditadas para a limpeza e toneladas e toneladas de lama estavam sendo retiradas pela prefeitura. A CPFL tentava restabelecer a energia elétrica em locais onde houve queda de árvores.
Tragédia anunciada
O vereador Fernando Frederico de Almeida Júnior (PV) definiu a situação como uma “tragédia anunciada”, já que a prefeitura já tinha vivenciado uma situação semelhante de enchente no ano passado. Na tarde de ontem, ele protocolou requerimento indagando soluções para a falta de galerias pluviais em 23 bairros, por exemplo.
“Essas obras são sempre deixadas por último. Por isso eu protocolei um requerimento hoje (ontem) na Câmara para a próxima segunda-feira indagando justamente isso. Relato o estrago, ou melhor, a tragédia que aconteceu aqui em Jaú, e lembro que existe uma ação civil pública do Ministério Público que cobra a instalação de galerias pluviais em 23 bairros”, disse.
O vereador critica que uma das principais causas dos alagamentos é a impermeabilização do solo e a ineficácia do sistema de drenagem urbano. “A ação obrigou a prefeitura a instalar essas galerias e inclusive deu prazo de seis meses para eles informarem de que forma iriam começar isso”, acrescentou.
Desabrigados
Segundo Rafael Urbano, do Departamento Municipal de Assistência Social, três casas desabaram e 25 pessoas estão desabrigadas. Somente uma delas estava ocupando o Ginásio de Esportes Dr. Flávio de Mello, ontem.
“Muitos foram para casa de amigos ou parentes. Aqui no ginásio estamos recebendo doações, porque muitos moradores perderam tudo. Estamos recebendo alimentos, roupas, enxoval de cama, mesa e banho, móveis e eletrodomésticos.” Ele calcula que em cinco dias alguns moradores poderão retornar para suas casas. “Algumas estão sujas. Foram invadidas pela lama e as equipes da prefeitura estão ajudando na limpeza e remoção de lixo. Aqui no ginásio de esportes, as pessoas vão receber alimentação, local para banho e todo o apoio que necessitarem.”
Jucileide Ferreira dos Santos, 23 anos, dois filhos, está abrigada desde ontem no ginásio de esportes. Ela morava na Vila Ivan. “As duas casas vizinhas desabaram e a minha trincou inteira. A Defesa Civil pediu para que sairmos porque a nossa casa pode desabar também.”
A família não tem para onde ir, veio do Paraná e morava nessa casa que era um imóvel abandonado. “Não sei o que fazer. Não tenho para onde ir. Meu filho de quatro anos, que já entende, ficou muito assustado.”
Amaral Carvalho recebe doações para as vítimas Jaú
Jaú - A Fundação Amaral Carvalho (FAC) realiza entre seus colaboradores e a população a arrecadação de doações em benefício das vítimas da enchente que atingiu bairros da área urbana de Jaú no último fim de semana.
Materiais de higiene pessoal, alimentos não perecíveis, produtos de limpeza, roupas, cobertores, móveis e eletrodomésticos podem ser entregues nas dependências da FAC: a população pode ajudar entregando as doações na portaria do estacionamento da fundação e os colaboradores, no setor de Almoxarifado. Todos os materiais serão recebidos na FAC até as 15h do dia 25 de novembro e encaminhados às autoridades municipais. Na cidade, o posto oficial de coletas é o Ginásio Flavio de Mello, à Avenida Doutor Quinzinho, s/n, Jardim Jorge Atalla.