08 de julho de 2026
Geral

Sobe renda salarial das mulheres

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

As mulheres ainda estão longe de alcançar o mesmo patamar salarial dos homens, mas, aos poucos, vem conseguindo diminuir a diferença de renda em relação a eles. Segundo dados do Censo 2010, divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as trabalhadoras bauruenses já ganham, atualmente, dois terços (67,4%) do salário dos profissionais do sexo masculino. Há uma década, esta proporção era de pouco mais da metade (56,6%).

Em números absolutos, sem considerar a inflação, a renda média das mulheres economicamente ativas acima de 10 anos de idade aumentou de R$ 672,45 para R$ 1.208,55, enquanto o dos homens majorou de R$ 1.188,03 para R$ 1.793,16. Considerando os dois sexos, o salário médio do bauruense cresceu de R$ 977,73 para R$ 1.518,64.

Na avaliação do economista Wagner Ismanhoto, a aceleração da economia na última década teve um papel importante neste fenômeno. Com o aumento da oferta de emprego, as mulheres passaram a ocupar mais postos de trabalho, incluindo os cargos de gerência, e se consolidaram como uma importante força de trabalho.

“E elas vêm comprovando sua competência, inclusive, em áreas até então ocupadas essencialmente por homens. Independentemente de ser homem ou mulher, hoje o mercado busca o profissional competente e, por esse motivo, acredito que seja uma questão de tempo até a mulher conseguir igualar seu salário”, analisa.

Esta também é a opinião de Cristiane Kalli, 35 anos, gerente de uma loja de roupas de grife instalada na cidade. Em sua avaliação, pessoas que desempenham a mesma função que ela, sejam homens ou mulheres, recebem a mesma remuneração hoje em dia.

“As mulheres estão muito dispostas para o trabalho, então merecem ganhar bem. Muitas das que conheço são de famílias simples e estão batalhando, fazendo faculdade - mesmo já numa idade mais avançada - para melhorar o padrão de vida”, destaca.

Há 10 anos, Cristiane trabalhava como vendedora na loja e, embora prefira não revelar o quanto ganha, afirma que atualmente recebe um salário bem maior do que a média das trabalhadoras bauruenses. “Nesses 10 anos, meu salário mais do que dobrou, sem contar a comissão em algumas vendas que ainda faço. Com esse dinheiro, consigo manter minha filha em escola particular e morar em casa própria. Não tenho do que reclamar”, diz.

 

Mudanças

Além do aquecimento da economia, o maior acesso ao ensino superior e à prorrogação do prazo para ter o primeiro filho também influenciaram a redução da diferença de salários entre homens e mulheres, conforme avaliação da professora doutora Lídia Maria Vianna Possas, especialista em estudos relativos à história da mulher. “Até mesmo em cursos de graduação antes exclusivamente masculinos ou aqueles ligados à contemporaneidade, como os de tecnologia, gestão e moda, a presença das mulheres é muito significativa”, aponta ela, elencando o Poder Judiciário como um dos redutos remanescentes dos homens. “As juízas ainda são minoria”, reclama.

Mas, além de aperfeiçoar-se, muitas mulheres estão optando por centrar esforços na ascensão profissional em vez de constituir família, deixando de corresponder aos padrões que atendiam às expectativas da sociedade. Foi uma forma que encontraram para disputar, de igual para igual, os mesmos cargos e salários conquistados pelos homens. 

É o caso da gestora de recursos humanos Renata Caputo, 33 anos, que não tem filhos e é formada em psicologia. Há exatamente 10 anos, começou sua vida profissional como estagiária em uma empresa de consultoria e, depois de obter diploma e fazer MBA (uma espécie de pós-graduação em administração de empresas), conseguiu triplicar seu salário.

“Hoje, tenho casa, carro e condições de viajar nas férias. Posso dizer que tenho uma vida confortável, mas nada tranquila, porque trabalho muito para conseguir cumprir meu objetivo, que é evoluir ainda mais”, afirma.

Para Lídia Possas, o perfil de Renata é cada vez mais presente entre as mulheres, como parte de uma mudança não apenas econômica e social, mas também comportamental e de valores. “A mulher ocidental já não se coloca mais em uma posição de subalternidade. Mas o processo até alcançar a equidade junto aos homens é longo e continuará encontrando muitas resistências em diversas instâncias. Ainda há muito a ser conquistado”, pondera.

 

Média salarial maior

O salário dos trabalhadores bauruenses com mais de 10 anos de idade é de R$ 1.518,64, média superior aos níveis registrados no Estado e no Brasil. Segundo dados do Censo 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os profissionais em São Paulo recebem, em média, R$ 1.516, 43. No Brasil, o valor pago à população economicamente ativa é de R$ 1.202,05.

 

Negros continuam ganhando menos

De acordo com as informações divulgadas ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população afrodescendente continua ganhando menos do que a caucasiana, a indígena e a asiática em Bauru. Os trabalhadores negros, em média, ganham quase metade (55%) do salário dos brancos - uma média de R$ 951,32. Já os asiáticos permanecem como os mais bem remunerados, com renda média de R$ 1.983,55.

A discrepância salarial se torna ainda mais evidente entre homens asiáticos e mulheres negras, que ganham R$ 789,43 mensais, valor três vezes menor do que o recebido por eles. Já na comparação com profissionais brancos do sexo masculino, as trabalhadoras afrodescendentes recebem salário duas vezes e meia menor.