Exatamente porque desobedeceu a lei, um criminoso acabou sendo beneficiado por ela, em Bauru. Numa história um tanto quanto contraditória, um homem obteve a liberdade após ser recapturado dias depois de fugir algemado de dentro de uma viatura da Polícia Militar (PM). Por não ter sido preso em flagrante e pelo fato do crime praticado ser um furto, ele terá direito a responder ao processo longe da prisão, sem nem mesmo precisar pagar fiança, conforme o previsto pelo Código Penal.
A sorte de Paulo César de Medeiros Silva, 28 anos, foi traçada pelo descuido de um policial militar no dia 30 de outubro passado. Horas antes, já à noite, ele havia furtado uma residência no Jardim Bela Vista, mas foi contido pelo proprietário do imóvel e por populares quando tentava fugir.
Algemado pela PM, Silva foi levado no banco traseiro de uma viatura até o Plantão Permanente da Polícia Civil, onde seria apresentado ao delegado plantonista. Enquanto aguardava em frente à unidade, o criminoso – num ato de contorcionismo - teria conseguido fazer com que suas mãos algemadas para trás de seu corpo viessem para a frente. Ao perceber a distração do policial militar incumbido de vigiá-lo, abriu o vidro da janela do carro, pulou e fugiu.
De acordo com o tenente Rafael Nunes Vaz de Oliveira, da Base Comunitária Norte da PM, o responsável por cuidar do preso não teria presenciado toda a ação. Informados de que o homem teria seguido em direção à linha férrea, os policiais teriam feito buscas nas imediações, mas não obtiveram êxito.
Na tarde de ontem, 17 dias depois da fuga, receberam uma denúncia anônima com informações sobre o paradeiro de Silva. Ele foi localizado na Favela São Manoel junto a um grupo de amigos. “Inicialmente, ele se identificou com um nome falso. Pressionado, chegou a tentar fugir, mas dessa vez não conseguiu escapar”, comenta o tenente Vaz.
O oficial destaca que um procedimento de investigação interna foi instaurado pela PM para apurar a responsabilidade dos policiais envolvidos no caso. “Esta apuração ainda está em andamento para avaliar se a fuga foi resultado de erro ou não. Mas ainda não há previsão para que seja concluída”, resume.
Silva possuía antecedentes criminais por furto mas, segundo a delegada Cássia Regina Ziranda Cancian, do 2.º Distrito Policial de Bauru, teve de ser liberado pela inexistência do flagrante. “É o que consta na lei e eu não posso fazer nada. Ele confessou o crime e foi indiciado, mas responderá em liberdade”, frisa.