08 de julho de 2026
Ciências

Na busca do rejuvenescer


| Tempo de leitura: 3 min

Todas as células tem programação para morrer. Tal como o carro e computador, nossas células têm um programa para a morte; basta apertarmos um botão e pronto. No computador ou carro falamos que deu pane ou travou. Na célula a morte natural chama-se apoptose, para os dramáticos representa um "suicídio celular", para os organizados a "morte celular programada". No painel de controle das células temos 25 mil botões ou genes, um deles se chama p53: acionar ou "apertar este botão" desencadeia este processo de eliminação.

Nosso sábio projetista corporal estabeleceu algumas regras para acionar o p53 no braço curto do cromossomo 17. Dos nossos 10 trilhões de células proliferantes, as defeituosas são todos os dias induzidas a morrer pela apoptose ou "controle de qualidade". Se permanecessem defeituosas e atípicas, ganhariam vida própria e formariam as neoplasias malignas ou câncer. Por esta função o p53 é conhecido como gene supressor de tumor. Mas este gene não é tão radical: antes de induzir a morte da célula defeituosa, tenta ajudar no reparo do DNA modificado, mas quando não tiver jeito, induz a apoptose! Mais da metade das neoplasias malignas, o p53 falhou pois estava defeituoso: devemos torcer para que nosso p53 funcione bem todos os dias!

As células defeituosas, estranhas ou contaminadas são eliminadas pela apoptose: o p53 foi homenageado como o "guardião do genoma humano" e deveria receber uma estátua em cada praça! Mas nem tudo é perfeito; com o tempo nossas células ficam em menor número por causa da apoptose, acumulando-se perdas a cada dia! Se colocarmos um maracujá na fruteira e deixá-lo alguns dias, veremos que vai enrugando, ressecando-se, ficando cada vez menor e irregular. Na apoptose as células se comportam de forma parecida, até soltarem pequenos fragmentos que desaparecem no meio das demais células que os engolem. Apoptose no grego significa perder as folhas ou pétalas. A célula solta fragmentos como árvores soltam folhas.

O papilomavírus ou HPV é muito esperto, pois entra nos núcleos das células epiteliais da pele e mucosas, inibe o funcionamento do p53 e sem apoptose induz proliferação com formação de verrugas e neoplasias. Quando bronzeados, as células descamam pois entram em apoptose: os raios solares as deixaram defeituosas. Algumas drogas podem induzir ou inibir a apoptose. Alguns cremes franceses trazem no rótulo: este produto controla o p53!


Rejuvenescimento


Tudo tem o lado bom e ruim ao mesmo tempo. Quando as células ficam muito velhas e não entram em apoptose, ficam quietas ou senescentes e distribuídas no meio das células mais ativas. Elas representam 10 a 15% das células de uma pessoa idosa e podem atrapalhar o funcionamento dos tecidos e órgãos. Na revista Nature, pesquisadores da Mayo Clinic liderados por James Kirkland, relataram que quando eliminavam as células senescentes em camundongos, levando-as à apoptose por ativação da enzima caspase 8 via droga específica, havia um rejuvenescimento, um choque de revigor. As cataratas e a perda de massa muscular foram postergadas; as doenças da velhice regrediram. As células adiposas da pele continuaram tumefatas.
Na França, Jean Marc Lemaitre e associados na Universidade de Montpellier colheram células senescentes de idosos com idade entre 74 e 101 anos, como publicaram na revista Genes & Development. Em culturas, conseguiram estimulá-las a voltar à juventude, tal como fossem células embrionárias e deram origem a novas células e tecidos pelos estímulos de mediadores ou substâncias, sem qualquer sinal de envelhecimento. Na linguagem dos computadores, "resetaram" ou reiniciaram as células.

Em algumas clínicas médicas, de forma controvertida, aplica-se a prescrição de hormônios e outros produtos para aliviar a fadiga, desconforto e outros sinais do envelhecimento. Talvez interfiram nas células senescentes, mas para alguns estudiosos, estes produtos levam a sobrecarga dos rins e fígado e maior risco de aparecimento de câncer, embora haja redução de 34% no risco de morte!

Se parados, envelhecemos rapidamente pois sobram células senescentes. Se estressarmos, a apoptose pode falhar e gerar doenças. E tentar controlar os processos com hormônios e medicamentos pode ter efeitos colaterais. Este tal equilíbrio é mesmo uma arte ou a arte estaria na nossa fragilidade por excelência? A busca pela juventude continua!