09 de julho de 2026
Articulistas

Revolução, universidade e maconha

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

No início do filme Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni, um grupo de estudantes organiza uma greve na universidade, no sul da Califórnia, em 1969. Durante a reunião, decidem que impedirão qualquer um que ouse assistir aulas e que a popular maconha deveria ser evitada, pois seria uma droga anti-revolucionária. Eles tinham razão. Quem fuma um (como se diz na gíria) não revoluciona muita coisa. Poderá, no máximo, assistir à revolução ou escrever sobre ela. Mas não vai sair dando tiros por aí. Existe um paradoxo nesta questão da maconha. Os governos mais autoritários a enxergam como uma substância subversiva, mas ela é um ótimo instrumento de controle social. Os maconheiros revolucionários podem até ter ideias subversivas, mas dificilmente conseguem colocá-las em prática, pois perdem-se nos complicados cronogramas das tarefas individuais e coletivas do universo da subversão. E tudo vira uma grande viagem.  

A luta dos estudantes da USP contra a presença da polícia militar poderia fazer parte de um filme de Antonioni. Eles não estão reivindicando o direito de fumar maconha em paz. Isso eles também querem, mas o que fez um monte de gente ocupar o prédio da reitoria foi o ranço que o estudante universitário tem, ainda, com os militares. Durante a ditadura, parte dos brasileiros aprendeu a ver o militar como um inimigo. Muita gente ainda não consegue entendê-lo como um aliado, e sim como uma ameaça. Existe um trauma que foi alimentado através das gerações que passaram pelas universidades públicas. 

Hoje, uma parte muito pequena dos militares contribui para esse mau estar que os estudantes universitários têm com a farda, mas é difícil reverter isso diante das notícias sobre policiais bandidos e assassinos, que usam o poder de polícia para praticar crimes. Porém, uma sociedade evoluída (ou que quer ser evoluída) tem que acreditar na sua polícia. Punir os maus policiais e remunerar bem os bons já seria um grande avanço. Mas também é um clichê - todo mundo já disse isso e ninguém fez. 

Os universitários são muito mais importantes do que parecem. Há uma transformação em processo no mundo - está nas manchetes diárias sobre revoltas árabes, protestos na Europa, nos EUA, no Chile... Os estudantes são cruciais para que esse movimento floresça. Este ano, por exemplo, foram eles que derrubaram o governo socialista na Espanha, negando-se a votar por causa da má administração que a esquerda espanhola conduzia. Sem os estudantes, a direita venceu. 

Depois da Segunda Guerra Mundial, os europeus viveram a social democracia (ou pelo menos perseguiram esse ideal). Muitos experimentaram também o socialismo (em diferentes modelos: soviético, sueco, francês). Para evitar que as ideias do socialismo penetrassem nos Estados Unidos, os governantes americanos instituíram o capitalismo de bem estar social. Só não chamaram aquilo de social democracia porque o termo era visto como coisa do demônio lá.

De qualquer forma, mesmo com a ameaça da Guerra Fria, os anos 1950 e 1960 foram as décadas de maior desenvolvimento igualitário, quando as principais consequências do capitalismo (desigualdade, miséria, desemprego, injustiça social, sectarismo) praticamente desapareceram na Europa e nos EUA. Houve pleno emprego e garantias sociais substanciais. Nada disso existe hoje no primeiro mundo. O neoliberalismo acabou com o poder dos governos mais importantes e as grandes corporações engoliram os interesses dos povos, transformando-se nos grandes mandatários do planeta.

As manifestações que se espalharam pelo mundo neste ano são essencialmente engrossadas pelos estudantes universitários. Luta-se pela volta do bem estar social, seja ele como for. Esperemos que os estudantes da melhor universidade do Brasil tomem a frente neste momento de extrema importância. A maconha não deve prejudicar a atuação crítica, a transformação social e o pensamento intelectual - que são tarefas cotidianas em uma universidade. E, particularmente, acho que nem tem poder pra isso. 


O autor, Luís Paulo Domingues, é colaborador de Opinião