08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

AFUNILANDO CONCEITOS


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Digamos que você é uma dessas pessoas para quem seu país, seu Estado, sua cidade e sua família não têm similares e tão-pouco admitem comparações. Não se assuste. Embora não esteja totalmente certo, você não está sozinho. Não sei se isso lhe serve de consolo, mas, o mundo está repleto de gente que adora cantar em prosa e verso a terra em que nasceu e a família que o aninhou desde os verdes anos.

Supondo que tenha nascido no Brasil, você, naturalmente, vai-se valer e orgulhar-se da herança que nossos antepassados nos legaram, do trabalho que plantaram e do sangue com que regaram este solo. Isso é o que podemos chamar de patriotismo, uma fonte de força para o estado e, como se pode perceber, um sentimento complexo, fundado sobre instintos primitivos e convicções puramente intelectuais. Nele se misturam, com o amor a você mesmo e à sua família, a afeição pelos seus compatriotas, certa aversão ao que vem de fora, o orgulho ligado ao sucesso da comunidade à qual nos sentimos pertencer e uma crença de que nossa nação representa uma tradição e um ideal importante para todos os povos. Deduz-se, portanto, que o amor à pátria e o amor aos pais, são, pois, virtudes da mesma natureza.

Isso é errado? Claro que o patriotismo, em si, nada tem de condenável, a não ser que seja exacerbado. Haveria algum mal em amar seu país, sua cultura, sua diversidade, sua gente que, por amor, tudo faria por um Brasil mais justo, melhor, menos desigual? O mesmo poderíamos dizer da cidade em que nascemos. "De uma cidade, não aproveitamos suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas" escreveu Ítalo Calvino. O sentimento de uma comunidade nacional, que é uma expansão da família, da tribo, da cidade continua a ser uma das maiores força da História e implica a adesão dos indivíduos e, necessariamente, não se opõe a uma consciência universal.

Há coisas, entretanto, sobre as quais é preciso refletir. É preciosa a advertência de Durkheim: há um certo número de conhecimentos que todos devemos possuir. Ninguém é obrigado a lançar-se na grande competição industrial; ninguém está obrigado a ser um grande artista; mas todo mundo está obrigado a sair da ignorância. Por isso, cada um deverá ter em mente que ver a sua terra ? seja seu país, seu estado ou sua cidade -- como predestinada, uma espécie de síntese de várias localidades com uma vocação destinada a não ser ultrapassada, é muito perigoso, quando não até ridículo.

Mario Vargas Llosa afirma que não há nenhum valor converter um acidente banal, que é lugar de nascimento de alguém, em privilégio. Meu país, meu estado, minha cidade de nascimento não são valores absolutos. O homem é acidentalmente nacional. Ele pode mudar de nacionalidade, não, porém, de humanidade. Daí, querer que ele seja exclusivamente cívico é conspurcar sua natureza. De Hovre dizia que "um amor que não admite nada superior à Pátria, desampara o homem e acaba por desamparar a Pátria." Por isso, Chesterton afirmou que o patriotismo degenera em vício quando transformado em virtude suprema.

O preconceito de julgar-se melhor cria um campo de guerra entre países, como foi o caso, por exemplo, da Alemanha nazista com base na superioridade da suposta raça ariana. É oportuno salientar que o mesmo que ocorre entre países pode ocorrer também entre estados e cidades. Numa remota reportagem da revista Manchete, no longínquo 1956, uma exaltatória do estado paulista, não deixou, entretanto, de ser irônica: "A grandiosidade do artificial, o fumo das chaminés e o peso opressor dos arranha-céus esmagam o paulistano cotidianamente".

Animosidades desse tipo tendem a fragmentar e enfraquecer os elos de um patriotismo sadio que só dignifica e enobrece. Por isso, parecem de bom tom e de uma acuidade mais fidalga as palavras de Maria Celestina T. M. Torres, que em História dos bairros de São Paulo escreveu: "Brasília é um desdobramento das ideias lançadas no Parque Ibirapuera." Embora para muitos, isso possa parecer um exagero, visto que a relação de Niemeyer com Juscelino era anterior, o que interessa aqui é o bom tom das palavras escolhidas pela autora.

A acentuação do caráter patriótico é legítima e necessária a uma formação harmoniosa da personalidade. Um indivíduo não se desenvolveria culturalmente se não recebesse as influências formativas do patriotismo e da tradição. Porém, o país não avançaria nem aumentaria seu poder se não permitisse a cada indivíduo humanizar-se. Sugestiva é a frase do compositor Pablo Casals (1876-1973): "O amor pelo seu país é algo esplêndido. Mas por que o amor tem de terminar na fronteira?"

Maria da Glória De Rosa