A Polícia Civil, por meio da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), desmontou, em Bauru, um esquema de falsificação de financiamento de veículos que causou um prejuízo de aproximadamente R$ 5 milhões a bancos e financiadoras. Segundo a polícia, já foram bloqueados 58 automóveis financiados em nome de “laranjas”, porém, a estimativa é de que existam quase 100 vítimas. As investigações mostraram que os carros iam até para o crime organizado (leia mais abaixo).
O esquema consistia em usar cópias de documentos verdadeiros, com dados manipulados e falsos, para aprovação dos financiamentos. Até comprovantes de rendimento em branco foram localizados. Após obter o veículo financiado em nome de um “laranja”, as parcelas não eram pagas e a financiadora ficava com o prejuízo.
Os golpistas, que, segundo a polícia, eram representantes de bancos, corretores e proprietários de revendedoras de veículos seriam os responsáveis por obter as cópias dos documentos dos “laranjas”.
“O esquema envolvia desde a oferta do veículo, a montagem dos documentos e a aprovação do financiamento. O prejuízo é todo dos bancos, uma vez que as parcelas nunca seriam pagas”, explica o delegado Cledson Luiz do Nascimento, da DIG.
Em apenas uma revenda de automóveis em Bauru, localizada na avenida Castelo Branco, dos 46 contratos de financiamentos de veículos, somente três não eram falsificados. Por meio desses contratos, só nessa revendedora o banco PanAmericano teve um prejuízo de R$ 1 milhão.
Entretanto, as investigações apontam que o golpe é ainda mais abrangente. A estimativa é de que o esquema tenha causado prejuízo de mais de R$ 5 milhões a bancos e financiadoras.
Para entender melhor como os golpistas agiam, o delegado Cledson do Nascimento exemplifica com um caso no Jardim Redentor. No bairro, somente na rua São Patrício, seis contratos de financiamentos foram feitos com pessoas diferentes. Entretanto, em nenhum desses locais os carros foram encontrados.
O caso evidencia que muitas pessoas até de outros Estados (leia mais abaixo) podem estar com o nome comprometido sem que saibam. Segundo o delegado, já foram identificados 58 veículos bloqueados, porém, há suspeitas em cerca de outros 35 casos.
Investigados
Após o cumprimento de uma série de mandados de busca, quatro pessoas foram ouvidas ontem pela DIG e liberadas após prestar depoimento. De acordo com a polícia, na casa do corretor Alessandro Canto Pereira, localizada no Jardim América, foi apreendida grande quantidade de documentos que comprovam o esquema.
Ele seria o responsável pela apresentação das propostas de financiamento junto às instituições e, segundo o delegado, teria confessado o esquema.
Também foram ouvidos ontem outros investigados, como o revendedor Luiz Carlos Grandi Netti, proprietário da revenda Fort Car, localizada na avenida Castelo Branco, onde os 43 financiamentos falsificados foram localizados. Pelas investigações, Luiz é suspeito de conivência com o esquema, uma vez que, por conta do golpe, ele ampliava a venda de veículos.
Também foram ouvidos os sócios da então filial do PanAmericano Granncred Promotora de Crédito Ltda., Giovani Granna e Oswaldo Amâncio Filho. A empresa seria a responsável pelos pedidos de financiamento e, segundo o delegado, já foi descredenciada do PanAmericano.
O gerente da Granncred, Manoel Flávio Marine Teixeira, também é investigado por participação no esquema. Ontem, ele procurou a reportagem do JC dizendo que havia se apresentado na DIG e que, hoje pela manhã, iria prestar depoimento. O delegado Cledson, porém, afirma que somente seu advogado foi até à DIG ontem.
Além da participação da revendedora de Bauru, o esquema pode ter envolvido outras estabelecimentos, nesse caso, sem o conhecimento dos proprietários. Com isso, o golpe seria mais discreto, com número menor de financiamentos ilegais em cada revendedora.
Sexto investigado
Um outro homem foi conduzido por uma equipe da DIG, durante as buscas de ontem. Carlos Sebastião Cruz Oliveira estava na casa do corretor Alessandro Canto Pereira, no Jardim América.
A polícia identificou que Oliveira já havia sido preso, no ano passado, em Lençóis Paulista, acusado de estelionato. Na ocasião, o homem foi flagrado em uma concessionária tentando aplicar o mesmo golpe desmantelado ontem pela polícia de Bauru, com o uso de documentos falsos para obtenção de veículo financiado.
É difícil se prevenir, afirma delegado
Ao todo, mais de 90 financiamentos podem ter sido feitos em nome dos “laranjas’. Segundo a polícia, todos os contratos já identificados serão analisados. Carros financiados no esquema foram localizados em Marília, Londrina (Paraná) e São Carlos, e pessoas que tiveram o nome envolvido foram identificados nos estados do Piauí, Goiás, Mato Grosso e Paraná.
“Essas pessoas não possuem prejuízos financeiros. O problema é que, muitas delas sem saber, tiveram o nome inserido em serviços de proteção de crédito. Elas vão comprovar que não foram elas que fizeram o financiamento e não precisarão pagar”, explica o delegado Cledson do Nascimento, da DIG.
Entretanto, ele explica que é muito difícil a população se prevenir contra esse tipo de esquema, uma vez que revendedores e corretores são suspeitos de atuar no esquema. Em alguns casos apontados pela investigação, as informações foram obtidas por meio de documentos perdido ou furtados.
“Em caso de constatação de restrições indevidas, a orientação é para que as pessoas registrem um boletim de ocorrência e dêem ciência a órgãos de proteção ao crédito, como Serasa e SPC”, alerta o delegado.
Em outros casos, os dados são obtidos diretamente com fraudadores. Um morador de Duartina, por exemplo, nunca teve documentos perdidos ou furtados, mas tinha três financiamentos falsos em seu nome.
Segundo equipe da DIG, golpe abastecia até o crime organizado
Alguns dos veículos financiados de maneira fraudulenta, de acordo com o delegado da DIG Cledson do Nascimento, eram utilizadas até pelo crime organizado. Alguns automóveis eram destinados a desmanches, em troca de droga na Bolívia ou Paraguai, ou ainda em ações criminosas internas.
“Carros iam parar nas mãos de criminosos ligados ao crime organizado, como em roubos, por exemplo”, aponta. Foi exatamente em um desses crimes em abril que as investigações começaram. Na ocasião, criminosos abandonaram um veículo, depois de um roubo frustrado a uma residência em Bauru.
Para chegar aos autores do crime, os policiais rastrearam o proprietário do veículo, que morava em Lins. Entretanto, ele nunca havia feito qualquer financiamento.
Prosseguindo as investigações, a polícia descobriu que o automóvel havia sido vendido pela revendedora de Luiz Carlos Grandi Netti, ouvido ontem pela polícia.
A equipe da DIG conseguiu prender os autores da tentativa de roubo e descobriu que eram ligados ao crime organizado. Durante as investigações, apurou-se ainda que todos usavam carros financiados irregularmente. Com os bandidos foram apreendidos um Fiesta, um Meriva e um Gol.
Como grande parte era financiada pelo banco PanAmericano, a polícia requisitou documentos referentes aos contratos. Depois de uma sindicância interna, há dois meses, o banco entregou 58 contratos com irregularidades. Os processos foram apresentados e aprovados entre dezembro de 2010 a junho de 2011.