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Douglas Reis |
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No velório de Cristian, ontem, familiares foram amparados por amigos do adolescente |
O mistério sobre a morte do adolescente Cristian Daniel Goulart dos Santos, 16 anos, que foi internado na última quarta-feira e faleceu por volta das 11h do dia seguinte na Unidade de Terapia Intensiva (UTI-Hope) do Hospital de Base (HB), está próximo de ser esclarecido pela Polícia Civil. A hipótese que a investigação acredita ser confirmada nos próximos dias é de que um amigo de 17 anos - cuja identidade será preservada - e que trabalhava na fábrica de doces teria, por brincadeira, empurrado Cristian.
Conforme divulgado ontem pelo JC, a versão de pessoas que estavam na fábrica é de que o garoto bateu a cabeça acidentalmente em uma chapa utilizada na preparação dos doces, sofrendo o trauma que possivelmente teria originado sua morte. A situação caracterizaria homicídio culposo, ou seja, quando não há intenção de matar.
De acordo com o delegado titular do 2º Distrito Policial (DP), Silberto Sevilha Martins, que acompanha o caso, depoimentos tomados ontem reforçam a tese de que a morte do jovem tenha ocorrido após uma brincadeira que teria terminado em tragédia, conforme acreditam familiares e amigos da vítima (leia mais abaixo).
“Ainda não temos o inquérito concluído, mas a Polícia Civil trabalha na linha de que houve no local uma fatalidade, onde uma brincadeira entre amigos que trabalhavam juntos na fábrica acabou tirando a vida de um dos jovens”.
Tragédia
O delegado confirmou que ouviu ontem o dono da fábrica de doces, que funciona nos fundos de uma residência na quadra 4 da rua Joaquim Marciano, no Jardim TV, e o segundo adolescente que brincava com Cristian quando este, acidentalmente, teria escorregado e batendo a cabeça na quina de uma das chapas da fábrica.
“Tanto os proprietários quanto o garoto e sua família estão muito abalados e assustados”. Informações obtidas pelo JC dão conta de que a esposa do proprietário da fábrica teria, inclusive, sofrido um acidente de carro na quarta-feira, quando tentou fazer uma conversão na pista para retornar à cidade o mais rápido possível após ter recebido a notícia do acidente.
“Foi um choque para todos, sendo que, inclusive, os dois eram amigos e estavam apenas brincando. Tudo indica isso”, conta Martins. “Aguardamos também os laudos da autópsia do IML (Instituto Médico Legal) que vai confirmar a causa da morte do garoto”.
Nesta segunda-feira, o jovem envolvido no incidente e o dono da fábrica devem prestar depoimento no 2º DP. “Após recolhermos as versões, vamos confrontá-las com os laudos para então podermos comprovar a linha que seguimos, que é, infelizmente, de uma tragédia”.
Se os laudos apontarem a fatalidade, a Vara da Infância e Juventude deve se posicionar para assumir o caso. “Nosso trabalho é de investigar e esclarecer o que aconteceu. Evidentemente temos um quadro que não será alterado, pois nossa investigação não vai trazer de volta a vida do menino. Por isso, nesse primeiro momento vamos respeitar o luto da família e de amigos”, explica Martins.
Família em choque
Na manhã de ontem, a informação era de que a Delegacia Seccional procurava saber por que não havia sido feito registro policial relacionado à morte do jovem. Uma tia do menino, Maria do Carmo Messias dos Santos, afirmou que a família estava em choque e que procuraria a polícia depois do sepultamento.
“A gente quer que seja esclarecido, mas não estamos aqui para julgar ninguém. Meu irmão não está em condições de fazer esse boletim (de ocorrência). Ele não está bem. E qual pai ficaria bem? Ele só queria o filho dele de volta”, contou.
“Agora vai ser feito o boletim, porque precisa. Teve uma morte, então temos que fazer. Não só por ele que tinha sonhos, mas pelos outros jovens, porque aconteceu com ele, mas podia ser com outro. Não queremos culpar ninguém só que seja esclarecido o fato”, afirmou.
Laudos do hospital
Além dos depoimentos a Polícia Civil aguarda a conclusão de alguns laudos para dar procedimento no inquérito. “Não apenas a autópsia do IML no corpo da vítima, mas também uma reconstrução da cena do crime, que deve ser feita na segunda-feira, são fundamentais. Como disse, são esses laudos que vão comprovar a tese que trabalhamos”, diz o delegado do 2º Distrito Policial (DP), Silberto Sevilha Martins.
Outro procedimento que deve ser adotado pela investigação é recolher o histórico do atendimento de Cristian Daniel Goulart dos Santos.
“Houve um acidente e não houve comunicação nem com a Polícia Militar e nem com a Polícia Civil. A vítima foi socorrida por terceiros, e não houve interferência da PM no socorro, por isso necessitamos de boletins de entrada do quadro do garoto no hospital. O que recebemos é apenas o boletim de óbito”, explica Martins.
Segundo o delegado, quando não há informações suficientes para formalizar uma queda acidental, podendo haver indícios de briga ou espancamento, ou mesmo quando a suposta queda tenha ocorrido - como no caso - no local de trabalho, existe a necessidade de comunicação à autoridade policial por parte da unidade que atende a vítima, o que não foi feito.
O Hospital de Base, por sua vez, não se posicionou. A reportagem do JC procurou a diretoria que informou apenas que não iria se pronunciar e que o boletim de óbito já estaria em posse da família da vítima.
Após o acidente, na quarta-feira, Cristian foi levado pelo proprietário da fabrica à Unidade Básica de Saúde do Jardim Godoy. Depois, uma unidade do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) levou o adolescente para o Hospital de Base.
O pai do garoto revelou à reportagem do JC na quinta-feira que, durante o trajeto, a equipe do Samu conseguiu fazer a manobra para ressuscitar Cristian. Porém, de acordo com o pai, o garoto permaneceu em coma até falecer, no final da manhã de quinta-feira.
Folga nos finais de semana
Trabalhar na pequena fábrica de doces, além de proporcionar a realização do sonho de Cristian de comprar um carro quando atingisse a maioridade, de acordo com seu pai Marcílio Messias dos Santos, representava uma opção mais adequada aos gostos comuns de jovens na faixa de idade do menino.
Ele havia pedido a vaga na fábrica de doces como opção para um emprego que tinha em um supermercado próximo ao bairro, que exigia trabalho aos finais de semana.
“Ele falou para o dono da fábrica que não queria trabalhar lá (no supermercado), porque enquanto os meninos estão se divertiam no final de semana, ele trabalhava”, contou um rapaz que também trabalha na fábrica.
O sepultamento de Cristian ocorreu por volta das 10h30 de ontem, no cemitério do Redentor. Uma caravana acompanhou o cortejo, que contou inclusive com um ônibus fretado para o transporte de amigos e familiares, que deram o adeus ao jovem.
Familiares acreditam em acidente
Sentimentos de tristeza e desolação tomaram conta de familiares e amigos do jovem Cristian Daniel Goulart dos Santos.
Na manhã de ontem, durante o velório no Centro Velatório Terra Branca, entre os amigos e companheiros de trabalho na fábrica, embora as informações ainda fossem desencontradas, a maioria acreditava em fatalidade. Nenhum dos ouvidos quis se identificar.
Uma mulher que trabalhava na fábrica no momento do acidente descreveu como teria sido a cena. “Houve uma discussão entre os dois meninos e um empurrou o outro. Só que essas brincadeiras eles sempre faziam e sempre foi chamada a atenção. Um empurrou o outro e o menino (Cristian) se desequilibrou, caiu e bateu a cabeça, mas não foi espancado”, contou.
Brincadeiras semelhantes entre os jovens que trabalham na empresa, com provocações e empurrões, seriam comuns durante o expediente, de acordo com depoimentos ouvidos pela reportagem, mas sempre dentro de um clima de descontração entre os adolescentes. “Nunca teve agressão de empurrar, bater e chute, nunca teve. O local era comum, como todos”, contou a mesma funcionária.
A hipótese de acidente depois de uma brincadeira entre amigos foi confirmada por uma professora de Cristian que esteve no velório. O jovem cursava a primeira série do ensino médio na escola estadual Professora Carolina Lopes de Almeida, no Jardim Godoy. Segundo a professora, que deu aula ao garoto no dia anterior, o outro jovem envolvido no acidente, que estuda na mesma escola de Cristian, e teria empurrado o colega de trabalho esta desolado com o ocorrido.
Além de um acidente, as outras duas hipóteses para a causa da morte do adolescente seriam uma agressão durante uma briga e uma queda acidental. Um funcionário chegou a dizer que depois do empurrão, Cristian teria escorregado no piso sujo de óleo, mas a hipótese investigada pela Polícia é de que o chão estivesse com açúcar.