Era apenas o seu segundo dia de trabalho. O pouco tempo de serviço, porém, foi suficiente para que um ajudante de serralheiro fosse vítima de uma tragédia ontem no Jardim Olímpico. O homem, identificado apenas por Lindomar, foi encontrado morto com ferimentos de queimaduras, o que levanta a suspeita de que tenha levado um choque elétrico. A ironia é que a construção palco da morte foi a Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) Geisel-Redentor, cuja função, quando for inaugurada em 2014, será a de salvar vidas.
O caso ocorreu ontem por volta das 15h na quadra 10 da rua Antônio Manoel da Costa. No local, a vítima, que aparentava ter cerca de 40 anos, exercia o serviço desde anteontem. Como não havia sequer levado os documentos para a contratação, ele não foi identificado. Os funcionários do local sabiam somente seu primeiro nome: Lindomar.
O corpo foi encontrado por dois funcionários que estavam na laje ao lado de onde a vítima trabalhava. Segundo eles, nenhum barulho ou grito foi ouvido. Quando eles chegaram, o homem, que estaria arrumando algumas linhas, já estava caído e sem vida.
Pelo que a reportagem apurou, mesmo usando equipamentos de segurança como capacete e óculos de segurança, ele tinha queimaduras pelas mãos e um corte na cabeça. A principal hipótese é de que tenha levado um choque no local, uma vez que estava perto de alguns fios elétricos e de algumas máquinas. Porém, sabe-se também que ele também tinha problemas de saúde (leia mais abaixo).
A Polícia Militar (PM) esteve no local. A Polícia Científica também foi até a obra e realizou a perícia técnica. Os peritos, entretanto, disseram não poder afirmar a causa da morte, que será revelada somente em laudo posterior do Instituto Médico Legal (IML).
Até o fechamento desta edição, a vítima ainda não havia sido identificada. Como ele trabalhava há apenas dois dias na obra, ninguém sabia de detalhes de sua vida, nem mesmo o local onde morava.
"Hoje, ele disse que ia almoçar com sua família. Ele foi caminhando, por isso, achamos que ele morava aqui nas proximidades", conta o serralheiro Carlos Gonçalves dos Santos, 62 anos, que encontrou o corpo de Lindomar.
Ele relembra ainda que a vítima parecia passar por grandes dificuldades financeiras. "O Lindomar me disse que não tinha o que comer. Então, ontem (anteontem), eu emprestei R$ 20,00 a ele", completa.
Enquanto a Polícia Científica não chegava, havia a suspeita de que um volume no bolso da vítima fosse a carteira com os documentos. Porém, os policiais constataram que se tratava de dois maços de cigarro.
A construtora responsável pela UPA Geisel-Redentor é a Rio Obras, empresa de Mirassol. O responsável pela construtora, Cléber Rodrigo Mariano, 23 anos, afirmou que vai se empenhar em descobrir a identidade da vítima. Ele disse que já havia solicitado durante os dois dias de trabalho que Lindomar trouxesse seus documentos.
Questionado se não seria necessário obter os documentos antes que o funcionário começasse a trabalhar, o responsável pela construtora argumenta que essa é uma "prática comum em obras". "Colocamos o anúncio e ele (Lindomar) veio dizendo que precisava muito trabalhar. Como havia vaga, deixamos ele trabalhando para que trouxesse os documentos posteriormente". Por mais de quatro horas, o corpo ficou no local à espera do serviço funerário. O caso será investigado pela Polícia Civil.
?Vítima era epiléptica?, conta colega de trabalho
Como ficou pouquíssimo tempo em contato com os companheiros de trabalho, pouco se sabia sobre a vítima, que se identificou apenas como Lindomar. Porém, segundo os operários, ele acabou confessando que tinha problemas com o álcool e que também sofria de epilepsia.
"Ele disse que tinha ficado internado por beber demais. Também disse que sofria ataques epilépticos", conta o ajudante de pedreiro Júlio César Dias Azevedo, 33 anos.
Nos dois dias de trabalho, porém, os companheiros afirmam que Lindomar parecia estar saudável. "Ele veio são nos dois dias. Dava para perceber", completa.