08 de julho de 2026
Bairros

DNA bauruense é levado a milhas e milhas de distância

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 10 min

De Bauru para a Espanha

 

Em 1990, o bauruense João Carlos Rodrigues Bighetti, 49 anos, estava cansado de ver paisagens e monumentos históricos pela televisão. Queria sentir o mundo de perto, com direito a neve, frio, cheiros e sensações.

 

Incentivado pela companhia do sobrinho José Ricardo, escolheu viver por um período na Europa. Na mala, coragem, alguns pertences pessoais, a saudade da família e as raízes bauruenses, cortadas e carinhosamente guardadas como bagagem.

 

 “Conhecemos a Espanha, a França, a Holanda, a Itália, a Alemanha e a Dinamarca. Ao fim do tour, escrevemos em um papel qual cidade cada um achava que reunia as melhores características para abrigar dois aventureiros. Madrid, na Espanha, foi decisão unânime”, lembra.

 

Nos primeiros anos, os dois viveram a fase de adaptação. Além da dificuldade em conseguir a documentação necessária para permanência na Espanha, tiveram de se virar com o espanhol, e assimilar, o máximo possível, a cultura do novo país.

 

Em 1992, João Carlos apaixonou-se por Sônia Amalia Saturnino Ampuero, uma espanhola natural da cidade de Talavera de la Reina, província de Toledo. Voltou com ela para o Brasil, em 1995, onde moraram até 2003.

 

“Quando fui para a Espanha, não imaginava que fosse ficar por lá. Era uma aventura. Retornei para o Brasil em 1995 e a Sônia veio comigo. Em 1999, eu e ela fundamos uma empresa em São Paulo, a Aztlan. Em 2000, nasceu a Alexia, minha primeira filha com a Sônia. Voltamos para a Espanha em 2003. Em 2004, nasceu a Alicia, minha filha mais nova”, conta.

 

Em 2006, Aline, filha de João Carlos do casamento anterior, se juntou à família na Espanha para estudar enfermagem.

 

Atualmente, graças à tecnologia, João Carlos comanda a empresa instalada em São Paulo de seu escritório na Espanha e, quando quer matar a saudade do filho mais velho, que mora em São Paulo, e da família, que vive em Bauru, pega um avião e enfrenta algumas horas de voo. Quem comemora a ponte aérea é Sônia, que vem com o marido sempre que pode.

 

“A Espanha é o país de coração do João Carlos e o Brasil é meu país de coração. Gosto muito da energia dos brasileiros... pra não falar na feijoada, na couve manteiga, no samba, no MPB, no churrasquinho aos domingos...”, enumerou, Sônia, animada, por e-mail, sem conseguir esconder a empolgação por ter desembarque marcado no Brasil para dia 5 de dezembro.

 

 

De Bauru para a terra do Tio Sam

 

“Nada foi programado. Vim para os Estados Unidos (EUA) para estudar e trabalhar na casa de uma família americana e acabei ficando”. É com esse tom de simplicidade que a jovem Ana Stephania do Valle Tehrani, 24 anos, explica o fato de atualmente morar na cidade de Edmond, em Oklahoma, nos EUA.

 

Ela é uma entre os 217 bauruenses que deixaram a cidade sanduíche e se aventuraram por terras norte-americanas em busca de novas oportunidades nos estudos e na vida profissional.

 

“Tudo começou quando completei 18 anos e ganhei de minha madrinha a chance de fazer o intercâmbio de Au Pair, que consiste em morar fora do país por um ano e ficar na casa de uma família americana para trabalhar como babá e estudar”, explica.

 

Chicago, no estado de Illinois, foi o primeiro endereço de Ana Stephania na terra do Tio Sam. Ela morou lá por alguns meses e, em seguida, se mudou para Las Vegas junto com a família a qual estava vinculada. Neste meio tempo, conheceu seu marido, natural do estado de Oklahoma, e começaram a namorar. Ana Stephania não sabia, mas a partir daí os EUA seria seu endereço oficial por muito mais tempo que o programado.

 

“As coisas foram acontecendo. Meu programa de Au Pair acabou e me mudei para Oklahoma. Comecei a estudar na University of Central Oklahoma, na cidade de Edmond. Estou aqui há 6 anos. O tempo passa muito rápido”, avalia ela, que se forma em três semanas e tem seu casamento religioso marcado para o dia 3 de dezembro.

 

De Bauru, sente saudade das coisas simples, como passear pelo Calçadão da Batista de Carvalho e pela avenida Getúlio Vargas, de ir ao Zoológico e à feira, de dançar forró de domingo à noite, de comer trufa, entre outras coisas. Para não falar na saudade da mãe, a professora de dança Scheila de Fátima do Valle, que ficou em Bauru com o coração apertado.

 

E para quem pensa em traçar o mesmo caminho, Ana Stephania dá o recado: “A cultura americana é muito diferente. Quem pensa em vir morar por uns tempos nos EUA, vá fundo! É uma bela experiência. Aqui a gente aprende, acima de tudo, a valorizar a cultura do nosso País. Engana-se quem pensa que por aqui tudo é perfeito”.

 

Mas, calma, Ana Stephania. Em menos de uma semana sua mãe estará por aí para te fazer uma visita. Quem sabe ela não te leva umas trufas para você matar a saudade?

 

 

De Bauru para a terra dos cangurus

 

Graziela Lyra Simonetti, 35 anos, é uma entre os 17 bauruenses que moram na Austrália. Procurada pela reportagem do JC nos Bairros, para contar sobre sua rotina na terra dos cangurus e falar sobre Bauru, Graziela parou para fazer as contas e se assustou. “Vim para a Austrália em 1999. Faz mais de 12 anos... Nossa, como o tempo passa”.

 

E passa mesmo. Muita coisa aconteceu entre o dia que ela decidiu deixar Bauru para estudar inglês por quatro meses em Sidney e o momento em que parou para responder as perguntas da entrevista, enviadas por e-mail.

 

“Eu fazia faculdade de Turismo em São Paulo e tranquei por quatro meses, que era o tempo que eu ficaria na Austrália. Acontece que, três meses depois de chegar aqui, conheci meu marido. Apaixonada por ele e pela cidade, decidi terminar meus estudos aqui”, lembra.

 

Graziela pegou o visto permanente para permanecer no país em 2003 e se tornou cidadã australiana em 2007. Neste mesmo ano, ela e o marido Subby, natural da Índia, se casamos na terra natal dele.

“Foi um casamento indiano, com todos os rituais típicos, tudo muito intenso. Foram três dias de festa”, conta.

Em 2010, veio o primeiro fruto da relação do casal, a pequena Rafaela, e se antes Graziela não pensava em morar na Austrália, hoje reconhece que não vê possibilidades em voltar para o Brasil.

 

“Eu e meu marido temos bons empregos por aqui. Além disso, estou muito acostumada e penso que a Rafaela terá mais oportunidades por aqui. A Austrália é um Brasil que deu certo. Aqui temos uma grande mistura de culturas e as pessoas vivem em harmonia”, explica ela.

 

De Bauru, Graziela sente falta da família e dos amigos e saudade do cafezinho servido nos supermercados, da coxinha vendida nos bares e dos pães de queijo quentinhos, recém-saídos do forno.

 

“Sinto falta de achar essas delícias pelas ruas daqui. A saudade da família é amenizada com a tecnologia e, sempre que posso, visito o Brasil. A Rafaela tem 1 ano e seis meses e já foi duas vezes para Bauru e duas vezes para a Índia, ver a família do meu marido”, conta.

 

 

De Bauru para a o frio da Rússia

 

Quem vê as fotos de Natália Gonçalves Gimenes, tiradas em pleno outono russo, pode imaginar que a bauruense está no país, conhecido pelo frio de -30ºC do típico do inverno, para trabalhar como modelo, certo? Errado. Natália está na Rússia desde fevereiro deste ano para estudar medicina.

 

“Foi o preço que tive de pagar por um sonho. Mas o ensino correspondeu às minhas expectativas e, no fim, esse período de distância da família terá sua recompensa. Estou finalizando meu primeiro ano de curso e sinto que terei um ótimo embasamento teórico quando for médica”, avalia.

 

Ela decidiu viver por seis anos na Rússia após descobrir por um programa de televisão que o país oferecia cursos para estrangeiros. Decidiu arriscar. Foi morar em Kursk, em um prédio de nove andares, onde só moram estudantes. Nos poucos meses que está por lá, Natália já sabe apontar muito bem as diferenças entre Kursk e a cidade onde nasceu.

 

“As construções por aqui são bastante antigas, assim como a cidade, que completou 979 anos em setembro. No verão, faz calor de quase 40ºC, no inverno, frio de -30ºC. Mas não é somente as temperaturas que são frias, as pessoas também. Não existe aquele calor humano que os bauruenses têm”, detalha.

 

Em contrapartida, Natália está vivendo grandes experiências e tem a oportunidade de conhecer diversos países e fazer carreira internacional. Até o idioma russo ela já arranha.

 

“O Brasil me faz uma falta tremenda. Sei que tenho uma carreira promissora por aqui, mas, ao mesmo tempo, quero estar ao lado da minha família e isso me motiva a voltar para o Brasil. Mas cada coisa acontece ao seu tempo. Ai, que saudade!”, desabafa ela, que retorna a Bauru na primeira semana de dezembro, para visitar a família.

 

 

De Bauru para o país do sol nascente 

 

De Bauru, para Tóquio. Há 16 anos, esse foi o caminho percorrido por Kazue Matsushyita, 41 anos, quando decidiu que deixaria a Cidade Coração de São Paulo para aproveitar uma bolsa de estudos de um ano oferecida pela Universidade de Fukushima. Neste período, Kazue conheceu o Japão dos sonhos, da alta tecnologia e de um povo cortês e atencioso. Resultado: se apaixonou pelo país dos pais.

 

“Como eu já falava japonês, pois aprendi com meus pais, não tive muitas dificuldades. No começo, eu falava muitas palavras antigas e praticamente desconhecidas pelos jovens. Por isso, acabei pagando alguns micos, mas, no geral, foi um ano de sonhos”, lembra.

 

Com o término da bolsa, regressou a Bauru. Ficou aqui por um tempo e voltou novamente para o Japão após receber um convite para trabalhar como tradutora e intérprete em uma empresa coligada da Mitsubishi Motors. Quando começou a trabalhar, conheceu o sistema rígido das empresas japonesas, a forte hierarquia e o difícil relacionamento pessoal.

 

Quando tinha tudo para desistir, foi contratada para comandar um grupo de 200 brasileiros , neste meio tempo, conheceu o marido, um japonês natural de Tóquio. Casou-se, teve um filho, e adiou por tempo indeterminado sua volta ao Brasil.

 

“Meu filho está em idade escolar e nem ele nem meu marido falam português. Além disso, temos laços e compromissos aqui. Não é fácil largar tudo e voltar para Bauru. Mas acreditamos que o Brasil caminha a passos largos para um futuro bom. Quem sabe um dia não volto com minha família...” cogita ela.

 

 

De Bauru para a Irlanda

 

A vontade de mudar de ares e viver novas experiências fez com que o bauruense Hugo Toffanelo deixasse a casa onde morava, na vila Dutra, para ganhar as ruas de Dublin, na Irlanda.

 

“Um dia acordei com o telefone tocando e, ao invés de atender normalmente, falei o nome da assessoria bancária onde eu trabalhava. Nesse momento, percebi que estava na hora de encarar algumas mudanças”, explica.

 

E já que a ideia era mudar de ares, nada melhor que um país como a Irlanda e uma cidade como Dublin.

 

“Foi uma mudança bem chocante: é muita informação ao mesmo tempo, sem contar que meu inglês, naquela época, era horrível. Quanto à adaptação, mesmo morando há 3 anos aqui, ainda não superei a barreira gastronômica. De tempos em tempos tenho crises de não ter vontade de comer nada”, conta Hugo, que teve de aprender a comer uma mistura de um tipo de feijão branco com leve sabor adocicado, com ovos, bacon, salsicha de porco e carne de porco com gordura, que lembra o chouriço, no café da manhã.

 

Entre os pontos positivos de morar em Dublin, Hugo aponta a educação dos irlandeses, a famosa ‘pint’, um tipo de copo bem grande, com cerca de 500 ml, de cerveja, e a possibilidade de visitar países como a Espanha, Itália, Alemanha, Inglaterra, Bélgica e França.

 

“Aqui trabalho e estudo. Quando sobra um tempo, conheço outros lugares”, explica ele, que respondeu as perguntas enviadas por e-mail correndo, pois tinha de arrumar as malas para uma viagem que fará pelo Egito e Grécia neste fim de semana.

 

Com tanta coisa para fazer, Hugo nunca mais voltou para Bauru desde que partiu com destino à Irlanda. É que a passagem para o Brasil custa o mesmo que rodar pela Europa por 15 dias.

 

“Mas eu quero voltar, sim. Não sei se para Bauru, mas para o Brasil. Sou filho único de pais separados e não pretendo deixa-los. E nada no mundo é tão maravilhoso quanto sua cidade, sua família e seus amigos”, afirma.