09 de julho de 2026
Articulistas

A ditadura do espetáculo

Luís Paulos Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

O documentário "Swastika" revela boa parte do acervo particular de filmes de Hitler. São cenas que mostram a intimidade do ditador, com sua mulher, os amigos, a cúpula de dirigentes nazistas, quase sempre em seu chalé na montanha. Depois da guerra, convencionou-se tratar a personalidade de Hitler como monstruosa e doentia. É como se o mundo ocidental negasse que todos aqueles acontecimentos pertencessem ao reino das coisas humanas. Mas o filme mostra justamente a face humana de Hitler. Amigável, carinhoso com as mulheres e as crianças, fazendo até piadas sobre Goering. A Alemanha nazista era um acontecimento, não um país vivendo o cotidiano. Aquilo era um tipo de Oktoberfest constante. De 1933, quando Hitler assumiu, a 1939, quando começou a guerra, o povo alemão viveu uma euforia sem fim, um tipo de ópera, que terminou quando aproximadamente 55 milhões de pessoas haviam morrido atuando nela. Hitler foi o inventor dessa ópera e seu principal protagonista. Se analisarmos as condições da história da época, provavelmente deduziremos que, mesmo sem Hitler, haveria guerras nacionalistas e raciais, com grupos políticos de extrema direita reivindicando um poder populista para rechaçar o perigo do socialismo. Havia público, fanatismo e uma nova elite anti-comunista. Hitler, Mussolini, Franco, Salazar, Tojo.

O nazismo era o mais poderoso, mítico, épico, trágico e surreal desses sistemas de governo de extrema direita. Funcionava por ser imponente, imperioso e magistral. A arte nazista, a moda, as músicas, os uniformes dos militares desenhados para jamais amassarem eram uma tentativa de ser tão superior, tão humano, tão civilizado, tão representante único e legítimo da cultura greco-romana... que era até brega. O nazismo é o cúmulo do Alfa Mais, do livro Admirável Mundo Novo.

Aquele uniforme militar que Hitler usava era uma fantasia. Dava mais legitimidade à "obra". De vez em quando ele usava roupas civis, mas era como ver o Mick Jagger com uma roupa normal. Não era a mesma coisa e ele tinha consciência disso. Sabia que não podia ficar muito tempo sem o contato público, sem interagir com o povo. Do contrário, a situação esfriaria e acabaria a magia com a qual ele havia enfeitiçado os alemães.

Já o povo alemão estava pedindo para ser enfeitiçado. Eles queriam alguma coisa estrondosa. Queriam revanche da Primeira Guerra. Nisso, a Primeira Guerra foi pior que a Segunda. Pois na Primeira Guerra, a Europa inteira queria uma catarse. A população urbana e intelectualizada tinha estudado tanto desde o século XIX, que começou a achar o conforto, o progresso e a paz um saco. A filosofia da época estava cheia de mensagens de poder, de potência, de vitória. Então o pessoal acabou achando a vida enfadonha e sonhou com a aventura heróica da guerra. Mas eles não calcularam que uma guerra de potências europeias com todo aquele desenvolvimento dos últimos tempos acabaria em uma desgraça muito maior do que as guerras do passado. Era muita tecnologia.

No documentário do Geographic Channel sobre a Segunda Guerra Mundial, há uma cena em que Hitler desce de seu avião e cumprimenta algumas pessoas. Depois fica parado na pista com aquele uniforme militar e uma capa - quase um super herói mesmo. Ele havia acabado de dar a ordem para a mobilização que invadiria a União Soviética (4,5 milhões de pessoas foram deslocadas para a invasão). Penso que ele tomou essa decisão sozinho. Deve ter consultado um monte de gente, estudou possibilidades, mas decidiu sozinho, selando a sorte da Alemanha e a sua própria. Não foi uma ação arquitetada por um conselho de generais, por exemplo. Qualquer general diria:

"-Estamos no meio de uma guerra contra toda a Europa. Não é hora de invadir a União Soviética." Uma decisão dessas só pode ter sido tomada por alguém que não compreendia a importância de valores fundamentais, que não tinha uma noção convencional da realidade e que acreditava estar conduzindo uma obra de ficção. Se encenada, a epopeia nazista daria uma ópera perturbadora e trágica.


O autor, Luís Paulos Domingues, é professor de história e colaborador de Opinião