09 de julho de 2026
Turismo

Glaciar Pia: grandiosidade que pede silêncio


| Tempo de leitura: 8 min

Para alcançar nosso primeiro glaciar, o Pia, navegamos pelo canal mais estreito de toda viagem. O canal Gabriela soma apenas 120 metros de um paredão de montanhas ao outro, o que faz o navio balançar um pouco mais que em qualquer outro trecho da viagem. Mas nada que provoque enjoo ou tombos.

As águas ficam mais calmas quando alcançamos o fiorde que dá nome ao glaciar. Tão calmas e lisas que refletem as montanhas como se fossem um espelho. E logo o paredão de gelo surge entre as árvores.

Em mais um desembarque impressionantemente seguro e bem organizado, chegamos de bote em frente ao Pia, uma enormidade de gelo de quase 80 metros de altura.

Conseguimos ficar razoavelmente perto da geleira. Uma cena grandiosa. Primeiro a praia se enche do som das exclamações em vários idiomas. Em seguida, o silêncio começa a tomar conta da atmosfera: é hora de meditar, apenas olhar, pensar, olhar de novo, refletir. Alguém sugere alguns minutos de completo silêncio - e isso faz todo o sentido. Silêncio que é quebrado pelo estrondo repentino de parte da massa gelada que se desprende do bloco. Pedaços brancos caem sobre a água, para depois boiarem até a beira da praia.

Do alto de um morro, a cinco minutos de caminhada, uma visão panorâmica do glaciar emoldurada pelo verde das árvores. Ao fundo, outro ângulo da Cordilheira Darwin. Imagem que vai demorar para sair da lembrança.

____________________

Réplica de cabana mostra costumes do povo que
habitou a Baía Wulaia


Em 23 de janeiro de 1832, o capitão Robert Fitz Roy atracou o Beagle, embarcação que conduzia, na calma Baía Wulaia, onde o jovem Darwin teve contato com os nativos da etnia yámana. Um povo canoeiro e nômade, que vivia sem roupas mesmo nas adversas condições climáticas locais, marcadas por frio, neve e chuva.

Os costumes extremamente rupestres daqueles nativos surpreenderam o naturalista. "A distância entre eles e nós, civilizados, é maior do que a de um animal doméstico e outro selvagem", escreveu na ocasião.

Hoje não existem mais índios na região, mas uma réplica em tamanho real das cabanas dos yámanas está lá para ajudar o visitante a entender um pouco de seu modo de vida. Também é possível encontrar, quando a maré está baixa, pequenos diques de pedras usados por esse povo para capturar centollas - espécie de crustáceo típico de lá, muito usado na gastronomia.

Há a opção de fazer uma caminhada leve pela praia ou subir por uma trilha de cerca de uma hora, mais pesada. De cima, uma vista linda do desenho formado pelas porções de terra, mar e montanhas da Ilha Hoste, mais distante. No caminho, uma vegetação homogênea (na Patagônia, há apenas uma espécie de árvore, a notofagus) e árvores tombadas. Culpa da ação dos ventos e do solo que conta com uma camada fina de terra. E também de um animal que se tornou praga: o castor.

Os ninhos dos castores são bonitos de se ver, mas o estrago que estes roedores fazem tem se tornado um problema. O castor não é natural da região e constrói diques para se proteger de um predador que não existe por lá. "É necessário uma ação do governo porque eles provocam uma verdadeira destruição", explica o chefe da expedição, Mauricio Alvarez.

____________________

Visita a Cabo de Hornos depende de condição climática ideal


O destino mais lendário da viagem, o Cabo de Hornos, porção de terra mais próxima à Antártida, pede uma preparação detalhada na noite anterior. A palestra informa os requisitos de segurança para sair do bote. E o recado final chega a assustar (ou desanimar): só desembarcaremos se a condição climática for ideal.

A cada dez expedições, três não conseguem o aval do clima para o desembarque. E mais: quando isso é possível, todo cuidado é pouco com o mar que bate nesta ilha formada por altas rochas. "Temos a previsão do tempo, mas de uma hora para outra tudo muda. É muito variável, a parte mais complicada em termos de navegação", explica o segundo piloto, o chileno Luis Muñoz, de 44 anos.

A 954 quilômetros do continente de gelo, Hornos tem uma considerável ficha corrida de vítimas. Estima-se em 500 o número de naufrágios desde 1616, quando a rota foi descoberta. Tudo por culpa de ventos impiedosos, tempestades e mudanças bruscas do tempo. Conta-se que, em 1905, o veleiro Susana passou 94 dias navegando ao sabor dos ventos.

Darwin também não foi poupado. Em seu famoso diário, relata a experiência vivida em 1830. "A tarde estava tranquila e nos deixou gozar o grandioso espetáculo que oferecem as ilhas vizinhas. Mas parece que o Cabo de Hornos exige que paguemos seus tributos e nos enviou uma espantosa tempestade que nos soprou precisamente na cara. Fomos obrigados a ganhar alto mar." Ao contrário do que viveu o naturalista, a natureza foi nossa parceira: desembarcamos com uma calmaria que surpreendeu até a tripulação. Isso nas duas vezes em que visitamos a ilha (sim, duas, algo raríssimo de acontecer). Com o pé em terra, subimos 160 degraus até a parte plana do rochedo.

Não há muito que conhecer em Hornos. Há um farol, onde são vendidos souvenirs. A vegetação é úmida e rasteira, sem nenhuma árvore. No ponto mais alto, um monumento inaugurado em 1992: um albatroz, que, diz a lenda, leva a alma dos navegantes mortos.

Mas o que vale mesmo é o simbolismo de estar em um lugar onde poucos já chegaram. É hora de reflexão, de olhar na direção do polo sul e de sentir que o fim do mundo está em algum lugar por ali.

Apesar do isolamento, o Cabo de Hornos sempre abriga uma família. O oficial da marinha Miguel Apaplasa, de 33 anos, sua mulher Katerine, de 26, e o filho Matias, de 8, eram os guardiães do lugar - as famílias ficam 12 meses e depois são substituídas. Comida e água chegam de barco uma vez por semana.

____________________

Pinguins dominam pequena ilha próxima de Punta Arenas


Antes da última parada da expedição pelas águas da Patagônia, na Ilha Magdalena, uma orientação fundamental: quando estiver caminhando, dê a preferência aos pinguins. A pequena ilha, a poucos quilômetros de Punta Arenas, é hábitat e local escolhido para reprodução de cerca 140 mil pinguins de Magalhães.

A ilha abriga gaivotas das espécies dominicana e austral, pombos antárticos e outras espécies de pássaros de peito gordo e asas longas - mas os protagonistas são mesmo os pinguins. Com a tradicional barriga branca, esta espécie tem como principal característica duas linhas negras no peito. Os machos chegam primeiro, as fêmeas os encontram em seguida. Casais monogâmicos ficam em ninhos formados em buracos na terra.

Pinguins são mesmo desastrados e desengonçados. Andam aos tropeços, caem na terra e depois pulam na água, onde nadam com desenvoltura. "Tenho vontade é de abraçar, são muito lindos", deslumbra-se a estudante chilena Rocío Rodriguez, de 21 anos, que viajava com o tio. A frase se repete durante as caminhadas pela ilha.

São tantos animais que às vezes é preciso correr deles, que têm bicos potentes. Alguns posam para as fotos como modelos, outros protagonizam cenas românticas, com beijinhos e abraços. É de amolecer o coração até dos mais durões.

Antes de deixarmos a ilha para voltar ao Stella Australis, uma cena inesquecível se desenrola diante dos nossos olhos. Um elefante marinho conseguiu capturar um pequeno pinguim e se instalou na água, a poucos metros da praia. Enquanto pássaros sobrevoavam o banquete, dezenas de pinguins apenas olhavam, assustados e imóveis.

____________________

Com foco na expedição,
festas no cruzeiro não
passam da meia-noite


Uma taça de champanhe recepciona os passageiros do Stella Australis, acompanhada das boas vindas do capitão Oscar Sheward. "Sintam-se em casa", ele diz. E todo este cuidado, o tratamento atencioso e os esforços legítimos para que todos fiquem realmente à vontade se repetirão ao longo de toda a viagem.

Novo em folha, o navio está em seu primeiro ano de expedições. As cabines têm dimensões agradáveis e, sua melhor característica, janelas enormes. A temperatura interna é controlada pelo próprio hóspede. Se há algo a lamentar, talvez seja a ausência de um frigobar individual.

Há cabines para casais ou com duas camas separadas. E existe ainda um modelo de suíte um pouco maior, onde é possível estender mais uma cama para quem viaja com filhos.

Com uma decoração que mistura madeira, aço polido e couro, o aspecto é de conforto e luxo. Em cada um dos quatro pisos há uma sala onde você pode relaxar. Isso quando não está em curso nenhuma das interessantes palestras e sessões de vídeos sobre pássaros, flores e pinguins, bastante frequentes na programação da embarcação. Há, ainda, aulas de nó de marinheiro e sobre vinhos chilenos.

Café da manhã, almoço e jantar são servidos no único restaurante do navio. O menu caprichado lista suculentos salmões, centollas e um inesquecível tataki de atum (um tipo de preparo que sela a carne). Tudo acompanhado de bons vinhos chilenos e argentinos. Vale atenção especial quanto aos horários: são fixos e não há opção de lanches fora desta agenda.

O cruzeiro pela Patagônia não guarda muitas semelhanças com viagens feitas em grandes transatlânticos por destinos litorâneos pelo planeta. A preocupação é de que seja uma expedição e, apesar de o bar ficar aberto durante todo o dia, não há festas que avancem além de meia-noite. O que não impede que você fique pela área comum, desde que não perca a hora dos compromissos nas primeiras horas do dia seguinte. Tudo devidamente anunciado por um alto falante dentro do seu quarto.

A maioria das atividades, inclusive a concentração para os desembarques, ocorre no bar, no último piso. No balcão, o barman prepara drinques. O mais pedido é, claro, o pisco sour. Também é possível experimentar a boa cerveja Austral, de Punta Arenas. E fique tranquilo. O balanço do navio é ameno e os corredores têm barras de apoio nas paredes.