10 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Karina Pópolo Pinto Nogueira

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 10 min

Falante e espontânea, como uma descendente de italianos que se preze, Karina Pópolo Pinto Nogueira encontrou seu caminho profissional no gosto pela comunicação. Trabalhou na TV e no rádio e, hoje, é assessora de imprensa. Casada e mãe de um menino, ela ainda é conhecida na cidade como a "menininha" que cantava músicas italianas na Cantinha do Pópolo, seu pai. "Quando eu acordava, ele me dizia "buongiorno" e não bom dia... Ele ficava me ensinando a falar italiano e o cantar veio espontâneo. Até hoje as pessoas perguntam para minha mãe onde está aquela garotinha", lembra.

A desenvoltura da menina na infância conquistou não somente os bauruenses, mas também o comediante Chico Anysio, que a convidou para trabalhar em seu programa na Rede Globo. "Cheguei a assinar um contrato por um ano, mas não deu certo porque o programa acabou por causa de um desentendimento na emissora. Mas Deus sabe o que faz. Mais tarde, cerca de dez anos depois, como uma loucura (risos) reencontrei Chico Anysio em Bauru, dei carona para ele e o levei para jantar novamente com meu pai", conta.

Batalhadora, cheia de projetos e atualmente assessora de imprensa da Beneficência Portuguesa, Karina não descarta a possibilidade de trabalhar na TV, seu objetivo desde a infância. "Sempre gostei muito do vídeo. É algo que faz parte de mim e estou aberta a isso".

Casada e mãe de um menino, Karina Pópolo também fala, a seguir, sobre família e as alegrias e tristezas da vida.

Jornal da Cidade - Muitos lembram da Karina Pópolo como a menininha que cantava na cantina do pai. Quais são as suas lembranças dessa época?

Karina Pópolo Pinto Nogueira - São as melhores possíveis. Tive uma infância diferente da maioria das crianças por ter crescido dentro de um restaurante de comida italiana, sempre com muita música, movimento e alegria. Tudo o que acontece ou aconteceu na minha vida teve origem na minha infância e na maneira como eu fui criada por meu pai. Quando criança, os boêmios iam até a cantina e cantavam chorinhos e músicas imortais. É claro que eu gostava das canções infantis, mas quando alguém diz que uma música da Xuxa lembra sua infância, por exemplo, eu digo que os chorinhos e as músicas italianas é que me levam ao passado. Eu tinha 4 anos de idade quando cantei músicas italianas pela primeira vez.

JC - E é claro que foi seu pai quem a ensinou!

Karina - Sim (risos). Ele me ensinou muitas coisas. Quando eu acordava, ele me dizia "buongiorno" e não bom dia... Ele ficava me ensinando a falar italiano e minha mãe até ficava brava (risos). E o cantar veio espontâneo. Somos em quatro irmãos, e acho que meu pai tentou ensinar os quatro e só conseguiu na última tentativa (risos). Fiz um ano de aulas de piano, mas toco mesmo é de ouvido. Toco por hobby, por intuição, mas não tenho a técnica propriamente dita. Mas a história que me levou a cantar na cantina é bem interessante. Meu pai trabalhava em um banco e foi nas festas do trabalho dele que eu comecei a cantar. Mas ele sempre teve o sonho de montar uma cantina. Estudou e comprou um bar de surpresa. Como ele não tinha noção do funcionamento de um restaurante, colocou uma faixa, levou talheres, pratos... Tudo da minha casa. Você imagina o que aconteceu?

JC - Os utensílios não foram suficientes?

Karina - Exatamente. Porque ele levou o que tínhamos e o lugar ficou cheio de clientes. Porém, meu pai era um homem extremamente rápido e pensou em apresentar a filhinha que cantava músicas italianas. E começou a me colocar para cantar, inclusive com traje típico da Itália. Quando uma pessoa terminava de comer, eles já pegavam e lavavam os pratos para servir os outros. E assim foi. Até hoje as pessoas perguntam para minha mãe sobre a menininha que canta, sem perceber que os anos passaram e ela cresceu (risos).

JC - Chegou a pensar em se profissionalizar como cantora?

Karina - Na época em que eu cantava na cantina, os artistas que vinham a Bauru jantavam por lá. Em uma daquelas noites, o Chico Anysio foi um dos convidados e me viu cantando. Ele ficou encantado com aquela menininha e disse que me levaria para cantar no programa dele. Quando foi na segunda-feira, ele ligou e eu atendi o telefone. Até achei que fosse trote, imagine, eu tinha apenas 7 anos de idade. Chamei meu pai pensando ser um amigo da família e ele viu que realmente era o Chico. Fomos para o Rio de Janeiro e assinei um contrato de um ano com a Rede Globo para garantir a minha presença no programa do Anysio. Contudo, logo que assinamos, ele brigou com o Boni e o programa saiu do ar. Não sei o que teria acontecido, mas acho que não era para ser. Acredito muito na vontade de Deus para nossas vidas e sempre coloco minha vida em Suas mãos.

JC - Você nunca mais cantou?

Karina - Somente para meu filho. Mas eu quero, um dia, preparar uma noite na cantina, onde ainda ajudo minha mãe, para cantar e relembrar esse tempo. Mas não sei, meu pai faleceu há dois anos e não sei se suportaria a emoção. Ainda é muito forte. Mas tenho vontade de fazer uma noite italiana.


JC - O que fez com o dinheiro do contrato?

Karina - Então, não sei direito quanto ganhei, mas acho que podemos falar em algo em torno de R$ 20 mil. Não é tanto quanto as pessoas imaginam. Mas eu fui para os Estados Unidos com esse dinheiro com o intuito de conhecer a Disney, algo que não aconteceu porque eu decidi realizar o sonho do meu irmão Marcos. Meu pai pegou o dinheiro e me mandou com um amigo que estava levando a filha. E meu irmão, que é músico, disse que o sonho dele era ter uma guitarra Fender, algo raro por aqui na época. Em Atlanta, eu perguntei para o amigo do meu pai quanto custava uma guitarra dessa. Ele disse que, para comprar o instrumento, ele teria de usar todo o meu dinheiro, eu não poderia ir para a Disney e não poderia comprar mais nada, e meu pai ainda precisaria dar um pouco de dinheiro a ele. Topei. Fiquei um mês dentro de casa e eles foram para a Disney. Comprei apenas uma camiseta para mim, outra para minha irmã e um radinho para meu irmão mais velho. Optei por realizar o sonho do meu irmão, o que valeu a pena quando vi a emoção dele ao ver o presente. Eu devia ter uns 10 anos na época. Jamais me arrependi da escolha que fiz. Mas a história com o Chico não parou por aí.

JC - Você voltou a encontrá-lo?

Karina - Então. Anos depois, acho que mais de uma década, ele voltou a Bauru para um show. Eu não queria mais participar do programa ou algo assim, já estava grande e tudo. Mas eu queria saber se ele ainda se lembrava de mim e disse para o meu pai que o levaria para jantar na cantina na noite do show. Meu pai achou um absurdo, pois não acreditava que ele se lembraria de mim. Fui com minha amiga Fabíola até o hotel em que ele estava hospedado e disse que eu era uma amiga dele e que não sairia de lá sem falar com ele e que iria convidá-lo para jantar. A produção me disse que um jantar já estava sendo preparado e meu convite não serviria. Nisso entrou um cara arrogante dizendo que era o produtor do Chico e me tratou mal. Eu também alterei a voz e disse que era amiga do Chico e que ele se daria mal se não dissesse que eu estava esperando por ele. Uma loucura, mas eu não tinha nada a perder (risos). Arrisquei e, para a nossa surpresa, o "carão" que eu fiz minha amiga passar deu certo. O Chico me viu e perguntou se eu ainda subia na cadeira para cantar. Eu até tremia de emoção. Lembrou-se de mim, foi para o show no meu carro e foi jantar na cantina, também no meu carro. Quando voltei, meu pai gritou perguntando onde eu estava, porque sumi o dia todo. E quando viu o Chico Anysio, ele juntou o grito com um "bravo" bem alegre.

JC - E o que a levou para a faculdade de jornalismo?

Karina - Na verdade eu fiz o inverso. Eu sempre quis muito trabalhar na televisão e lutei por isso. Fui para São Paulo e trabalhei por um ano em um canal fechado, a TVA. Eu apresentava um programa sobre o tempo, onde também havia alguns jogos... Mas não aguentei viver em São Paulo porque acho a vida muito solitária por lá. Eu digo que fiz o inverso porque voltei para Bauru e fui estudar. Quando eu terminei o ensino médio, já queria trabalhar e, como sempre fui ligada às artes, fui para São Paulo. Quando voltei, trabalhei em rádio, mas minha voz não é lá essas coisas para isso (risos). Fiz faculdade e trabalhei por cerca de um ano e meio na Record, na produção. Como eu não estava no vídeo, que sempre foi meu objetivo, eu fui em busca de outros caminhos. Hoje sou assessora de imprensa e, entre outros trabalhos, estou na Beneficência Portuguesa.

JC - Tem projetos para a carreira na área de comunicação?

Karina - Tenho muita vontade de fazer um programa feminino ou apresentar um programa assim. Acredito, hoje, que o jornalista é desvalorizado e que as coisas precisam mudar. Quero voltar para a televisão, mas isso precisa valer a pena. Sempre gostei muito do vídeo. É algo que faz parte de mim e estou aberta a isso.

JC - Qual é o cheiro de suas lembranças?

Karina - Essa pergunta é muito difícil de ser respondida sem que meus olhos se encham de lágrimas. O cheiro do molho que meu pai fazia é o que mais marcou a minha vida e ainda é muito presente. Ele demora cerca de 15 horas para ficar pronto e minha casa ficava com o seu delicioso cheiro. Ele fazia na madrugada para a gente comer no domingo. Esse molho é um segredo que ele não contava para ninguém, exceto para minha mãe. Um dia desses, eu pedi para ela me ensinar, porque é uma coisa de família que eu quero ter comigo. Ela fez comigo os primeiros passos e deixou o restante por minha conta. Menina, no meio da madrugada aquele cheiro me deu uma tristeza e eu chorei a noite toda mexendo o molho e revendo o filme da nossa vida ao lodo do meu pai.

JC - Apesar de ser bastante jovem, já tem muitas histórias para contar. Qual foi o momento mais difícil de ser superado e o que trouxe mais alegria?

Karina - A morte de meu pai foi certamente o mais triste. Lembro-me que ele dizia que quando uma pessoa morre, ela ganha o grande prêmio de saber o que é o lado espiritual da vida. Quanto aos momentos felizes, os maiores foram o meu casamento e o nascimento de meu filho. Sempre fui muito ligada à minha família e tudo gira em torno dela. Uma viagem que fiz com meu pai para a Itália também me marcou muito e foi muito especial, inclusive quero repeti-la com meu filho.

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Perfil


Nome: Karina Pópolo Pinto Nogueira

Idade: 30 anos

Local de Nascimento: Marília/SP

Signo: Touro

Marido: Fábio Pinto Nogueira

Filhos: Gabriel Pópolo Pinto Nogueira

Hobby: Cantar, tocar piano e praticar
esportes

Livro de cabeceira: Bíblia

Filme preferido: "Cinema Paradiso"

Estilo musical predileto: Sou
eclética

Time: São Paulo

Para quem dá nota 10: Para meu pai e para o Renato Zaiden pela amizade que dedicou ao meu pai

Para quem dá nota 0: Para a mentira e para o descaso dos governantes com a
saúde pública

E-mail: karinapopolo@terra.com.br