08 de julho de 2026
Articulistas

Panetone termina em pizza

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

"De repente o Natal chegou", dizia um personagem de machado de assis, como a arrematar que o ano passara tão rápido que ele nem se apercebera. Da minha parte dou-me conta que vai começar o "bimbalhar dos sinos" e o ano foi-se, quando vejo aquelas pilhas de panetones nos supermercados e na padaria de bairro. A cada ano se consome mais esse tipo de pão doce ou de bolo com frutas cristalizadas, no natal brasileiro. Os italianos, que criaram o produto, sentem inveja do sucesso que ele faz por aqui. Nasceram no brasil certas derivações sobre o mesmo tema, denominados de chocotone, sorvetone, colomba pascal, até exportadas para a europa. Há panetones de todos os preços, desde os de "fabricação própria" dos supermercados de bairro, a três reais, até o do fasano que outro dia vi em são paulo oferecido dentro de uma lata artisticamente trabalhada, a 200 reais, "sob encomenda".

As diaristas e porteiros de edifícios torcem o nariz quando recebem panetones de presente. Por se tratar de um "agrado" barato e significativo na sua relação com o natal, os usuários elegeram o tal bolo como presente ideal aos seus servidores e colaboradores de ano inteiro. A diarista com dez patroas/mês fica sem saber como dar conta de tantos. No prédio da minha filha, em são paulo, o porteiro leva para casa, no mínimo uns cinquenta. Rico em carboidratos e gorduras, a 120 calorias por fatia, imagino a intoxicação alimentar a que se arrisca o funcionário, obrigado a sorrir e agradecer por "mais um". A lenda italiana diz que um padeiro de milão, chamado toni, apaixonado pela filha do patrão criou o "pan de toni", recheado de uvas passas e perfumado com essência de baunilha. Foi um sucesso de vendas e de marketing. O dono da padaria ficou rico e o toni tornou-se genro e sócio. O panettone teria nascido de um gesto de amor. Bem diferente daquele "eu tem amo, dilma", gritado pelo ministro lupi como se tivesse pedindo uma corda para não morrer afogado.

Visitei em valência, na espanha, a "pasteleria" do mestre paco torreblanca, recomendado em todos os guias turísticos como "imperdível". Fui conferir: os seus doces são elaborados e expostos numa vitrina como se fossem jóias. Entre eles havia um panetone de excelente aspecto, a 20 euros o quilo. Ousei perguntar qual a diferença com o vendido a 3,35 euros que acabara de ver no supermercado. Paco subiu nas tamancas e desfiou o seu repertório da mais fina gastronomia. Primeiro me disse que não tinha a menor ideia de como são feitos industrialmente. O seu produto, artesanal, feito um-a-um, levava farinha procedente de trigo não trangênico, água mineral e fermentos de uva e maçã. Nada de leveduras de cerveja, típicas da "panaderia e bollería convencionales". Deu-me uma fatia para experimentar a sua obra prima, dizendo que nunca prestara semelhante cortesia a nenhum reles turista. Pediu-me que saboreasse o seu panetone como se tivesse comendo, aos bocados, o torso da vênus de milo. Depois me empurrou para dentro da área de fornos ? achei que ia me bater. Os bolos natalinos saíam da estufa e permaneciam pendurados de cabeça para baixo como se fossem morcegos. "sabe por quê?" ? berrou no meu ouvido. "para que no bajen de volumen". Saí de lá meio tonto. De fato o panetone artesanal de paco torreblanca tem um sabor suave, delicado. Mas, como vingança, gritei para dentro de mim: "prefiro o bauducco, são mais úmidos por dentro!"

Sou dado a aventuras gastronômicas. Admiro os italianos que nos últimos cem anos colocaram na cozinha mundial alguns dos seus pratos como os risotos, carpácios, raviólis, tiramisu e os indefectíveis panetones. Isso sem falar na pizza, no coquetel bellini, no vinagre balsâmico de módena. Quando digo a eles que em são paulo se faz mais pizzas e bem melhores que as da itália inteira, sinto que contraem toda a musculatura como se fossem explodir. Para descontraí-los costumo contar a origem da expressão "terminar em pizza", usada para designar escândalos que acabam sem punição no brasil. Conta-se que na década de 60 houve uma grande crise no palmeiras. Os cartolas, na sede do clube se digladiavam em batalhas verbais. Movidos pelos clamores do estômago, foram juntos matar a fome na vizinha pizzaria geovanese, onde finalmente se entenderam. No dia seguinte a reportagem do falecido cronistas esportivo milton peruzzi estampava em a gazeta esportiva: "crise no palmeiras terminou em pizza".


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC