09 de julho de 2026
Geral

Férias ?tiram? até 15% da renda familiar

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Neide Carlos

A arquiteta Aglays Damaceno com os filhos Leonardo e Dimitria, em passeio no Shopping: “13º vai embora”

Vista pela criançada como a época mais gostosa do ano, a chegada das férias representa uma dor de cabeça aos pais. Na verdade, uma “dor no bolso”. Com os filhos em casa buscando aproveitar o máximo esse período, surgem gastos extras que podem complicar o orçamento das famílias. A estimativa é de que as despesas adicionais comprometam até 15% do rendimento mensal durante esse período.

O economista Reinaldo Cafeo explica que o impacto depende muito do perfil das famílias, porém, alerta que o aumento de gastos atinge a todos. “Esse impacto varia muito de acordo com o padrão de vida de cada família, porém, independente de qual seja esse padrão, haverá gastos a mais com os filhos durante as férias”.

Segundo ele, a falta de previsibilidade e a fuga da rotina tão valorizadas pelas crianças são os maiores problemas dos pais. “Os filhos ficam arrumando coisas para fazer o tempo todo e é nesse momento que os gastos aparecem. A média é de que os gastos de férias consumam entre 10% a 15% do rendimento mensal de uma família”.

É o caso da recepcionista Silvia Márcia Thomaz, de 35 anos, que possui dois filhos, Aeslene, de 12 anos, e Hugo, de 14. Segundo ela, as crianças já estão em férias e já “querem comprar e comer de tudo”, comprometendo a renda mensal da família, que é de R$ 1,5 mil.

“As despesas aumentam muito. Eles (os filhos) ficam pedindo para sair e, quando eu vou, pedem de tudo. É só ver este monte de sacolas. Nada aqui é para mim”, afirma Sílvia, apontando para os vários presentes que eram carregados pelos filhos.

O economista Cafeo explica que as férias criam dois problemas: o gasto em si e a oportunidade do gasto. “Quando as pessoas saem para passear, não há só o gasto do passeio. As crianças passam pelas lojas e vão pedindo. Essa oportunidade de gasto também representa uma grande despesa”.

O orçamento também se encurta em casa, onde os gastos básicos multiplicam com a presença das crianças. “Esse custo é muito sentido pelas famílias de renda mais baixa. Isso ocorre porque vários benefícios, que são de competência do Estado, acabam sendo transferidos, nas férias, para dentro das casas”, explica Cafeo.

A auxiliar de serviços gerais Rosemara Coelho da Silva, 31 anos, é um exemplo dessa situação. Com dois filhos, de 6 e 10 anos, e uma renda mensal de pouco mais de R$ 600,00, ela sofre com alimentação e energia elétrica no recesso escolar.

“Durante o ano, eles ficam na escola o dia todo. Inclusive, comem por lá. Nas férias, temos muitos gastos. Além da alimentação, a conta de energia elétrica sobe muito, pois ficam o dia todo em frente à televisão”, conta Rosemara, afirmando que quase metade de seu orçamento fica comprometido com as férias dos filhos.

 

Passeios

Com uma renda bem maior, Elizabeth Mantovani faz o possível para tirar os dois filhos, de 6 e 14 anos, da frente da televisão nas férias. Entretanto, ela calcula que, por conta desses passeios, gasta R$ 100,00 a mais diariamente.

“Tento levá-los ao shopping, cinema, zoológico e passeios desse tipo. Em cada uma dessas saídas, é um gasto muito grande com lanche e outros presentes que eles querem. Acho que compensa mais é juntá-los e ir viajar”, conta Elizabeth, com seu filho Hugo, de 6 anos, em uma loja de brinquedos.

O economista explica que essa realmente pode ser uma saída para quem tem condições e se planejou para esse programa. “É uma atividade que requer um maior planejamento, porém, é um lazer não só para as crianças, mas também para os pais. Porém, é preciso ficar atento aos preços. Agora, como é alta temporada, as viagens são mais caras”, alerta Reinaldo Cafeo.

 

R$ 80,00 em uma hora e meia

A reportagem acompanhou a missão da arquiteta Aglays Damaceno, de 42 anos, em um passeio ontem no Bauru Shopping com seus dois filhos, Dimitria, de 9 anos, e Leonardo, de 15. Ela ainda levou “de bônus” o amigo do seu filho para o passeio.

Logo na chegada, já houve um parada na praça de alimentação. Além dos lanches, todos se refrescaram com um sorvete. De lá, foram até uma loja de brinquedos. “Não tem outro jeito. Em cada passeio, eles comem, tomam sorvete, gastam e compram brinquedos”, conta Aglays, sendo interrompida por três vezes durante a entrevista para que a filha Dimitria, de 9 anos, lhe mostrasse o que queria levar.

Em apenas uma hora e meia de passeio, foram gastos mais de R$ 80,00. Neste ritmo, a família, mesmo vivendo com uma “gorda” renda mensal de R$ 10 mil, precisa programar os gastos.

Segundo Aglays Damaceno, o décimo terceiro “vai todo embora” com a estadia dos filhos em casa durante as férias. “Além desses passeios, os gastos com mercado dobram. É algo que não tem jeito. Ficar com os filhos em casa é bom, mas gasta muito”, completa a arquiteta, aos risos. (VO)

 

‘Limites e criatividade’, recomenda economista


Não adianta. Filho em casa é sinônimo de gastos a mais. É o que afirma o economista Reinaldo Cafeo que, inclusive, possui duas filhas e, por isso, sofre com o problema na própria casa. Porém, há algumas maneiras de minimizar esse acréscimo de despesas.

A primeira delas, de acordo com Cafeo, é impor limites em cada passeio. “Os pais precisam se programar e colocar um limite de quanto vai ser possível gastar em todo programa. Quando ele faz isso e divulga esse limite máximo para a família, evita surpresas desagradáveis para todos”, explica.

A outra dica é colocar a criatividade em prática. “É hora de começar a criar novos lazeres. Um exemplo é os pais conversarem e revezarem as casas para os filhos se reunirem. Assim, com esses lanches comunitários, diminuem os gastos para todos. Essas e outras brincadeiras criativas são boas opções”.

E, se nem isso funcionar, vale até recorrer para a “terceirização” dessa estadia. “As férias são um ótimo momento de ficar com os filhos. Mas, em alguns casos, os pais podem acionar os parentes também. Usar aquele tio ou padrinho e ‘terceirizar’ os gastos também está valendo”, brinca Reinaldo Cafeo.