Há algum tempo juntei minha tralha e fui pescar em uma cidade pacata do interior de São Paulo e fiquei surpreso com um senhor que trabalhava na roça para a sua própria subsistência.
Sua casa ficava em um pequeno sítio todo arborizado e cercado por um córrego com águas limpas. Ele tinha a pescaria como seu grande hobby e como todo bom caipira, que de bobo não tem nada, começou a perceber que sempre quando ia pescar depois de um dia inteiro na roça um pássaro tiziu cantava na beira do rio.
Outros pássaros também apareciam para apreciar a pescaria, mas o pequeno tiziu tinha um olhar diferente e observando de perto as fisgadas de lambaris, acarás e, às vezes, até tabaranas. Ouvia sempre o pescador brincar: "Ei neguinho, também tá querendo pescar?"
Pescarias iam, peixes vinham e lá estava o tiziu rodeando o pescador. Mas eis que chegou a época dos grandes lambaris e o caipira começou a usar como isca os siriris, também conhecidos como aleluia. Tinha que ver, era um verdadeiro show os peixes dando belos saltos para abocanhar a isca ainda na superfície.
Foi em um dos arremessos que o tiozinho ficou nervoso ao ver o tiziu assentando na ponta da sua vara. Aí a discussão foi brava e só dava para ouvir alguns resmungos: "Sai daí bichano, você não vê que tá atrapalhando a minha pescaria com seu canto e seus pulinhos?"
E quem disse que o pássaro se intimidou? Com o peito estufado, começou a "soltar a voz" na ponta do caniço saltitando com as asas abertas. Mas ao contrário do que pensava, o pássaro foi uma mão na roda. Para a indignação do caipira, todas as vezes que o tiziu cantava um lambari aparecia na ponta da linha!
Abismado, o pescador percebeu que tinha acabado de descobrir um sutil tiziu pescador e logo entendeu que quando o pássaro pulava e cantava no ar liberava a ponta da vara, que ao subir fisgava o esperto peixe.
Depois da façanha as pescarias do meu amigo nunca mais foram as mesmas. Além de mais produtivas, agora o caipira não precisava passar as tardes sozinho porque tinha acabado de arrumar um companheiro de pesca que não perdia uma só fisgada ? e para completar ainda cantava muito bem!
O "causo" foi contado por Hélcio de Loyola e publicado na revista Pesca & Companhia