A abreviação das distâncias com o advento de novas formas de comunicação, principalmente através da Internet, ao mesmo tempo em que facilita o contato entre as pessoas, pode tornar as relações mais distantes, por mais ambíguo que possa parecer. Filosófica ou até mesmo abstrata, essa observação acende a discussão, que não é recente: quem é o "vilão", homem ou máquina?
Apesar de vivermos em plena era da informação ? um bem valioso que impulsiona a bilionária indústria da comunicação ? a pauta é antiga, observa o filósofo Fausi dos Santos. "Essa discussão antecede o advento das novas tecnologias no campo da comunicação. O distanciamento entre as pessoas não é fruto apenas da tecnologia, remonta desde a revolução industrial e do sistema capitalista", relaciona o estudioso.
O modo egoísta de encarar a vida por parte da maioria das pessoas, dentro do comportamento caracterizado como hedonista, ou seja, a busca constante pela própria e imediata satisfação, aponta o filósofo, apenas ganhou um aliado para que o indivíduo se isole cada vez mais um do outro, criando uma espécie de bolha que projeta, para fora, uma caricatura do que ele realmente é.
"As novas tecnologias acabam servindo como ferramenta para as pessoas se esconderem, com a criação de um mundo à parte através dos perfis", analisa.
Porém, a Internet e seus derivados ? os mais recentes são as redes sociais ? não devem ser demonizados, ressalva o filósofo. O problema não está no instrumento, reforça, mas sim em quem o opera. "A tendência é a demonização da tecnologia. Assim também foi no início do século XIX , quando as pessoas achavam que as máquinas eram o problema. Na verdade, as pessoas o são", acrescenta.
Escondido atrás de um teclado de computador ou isolado mesmo em uma multidão ao teclar os pequenos botões de um smartphone, buscando contato com alguém a quilômetros de distância, mas sem enxergar algo que está, literalmente, diante do próprio nariz, o indivíduo se esquiva do mundo "analógico" vestindo uma capa virtual.
A substituição do mundo e das relações em carne e osso pelas interfaces com "amigos" que sequer se cumprimentam na realidade "analógica", mas são grandes companheiros nas listas de contatos das redes sociais, pontua o estudioso, resulta da própria desarticulação da atual sociedade moderna, cujo modelo de estrutural e familiar, padrões até algumas décadas, esfarelam como areia.
Essa impessoalidade, então, para Fausi, ganhou apenas um aliado. Ela já existia antes mesmo da popularização da Internet. "Quando me refiro à desestruturação da família não foco na ausência da figura paterna ou materna. É muito mais além. Famílias muitas vezes completas estão totalmente desestruturadas, sem transmissão de valores para os mais jovens", diferencia. "Assim, a tendência é o surgimento maior de indivíduos introspectivos ao extremo, numa sociedade que cada vez mais impede o estabelecimento de vínculos, até mesmo pelo maior número de atribuições e tarefas", acrescenta.
Com toda essa carga, as novas gerações chegam com o bônus de nascerem em meio ao trânsito frenético de informações e ferramentas para o tráfego das mesmas. Não é a toa que crianças e adolescentes dominam máquinas que assustam os mais velhos.
Ao mesmo tempo em que mexem no computador, ouvem música, conversa alheia, assistem TV e coçam o cachorro com os pés. "É uma geração que lida muito mais facilmente com as informações e meios", acentua o professor do IESB/Preve. "Contudo, informação não é conhecimento", ressalva. "O mais importante é transformar a informação absorvida em algo prático. Aí sim isso tudo é útil", diferencia.
Até a geração nascida nos anos 1980 ou início dos 1990, pesquisa na escola era sinônimo de biblioteca empoeirada ou recorrer à Barsa.
Para o leitor da nova geração que não está familiarizado com o termo, Barsa é a célebre versão brasileira da não menos famosa Enciclopédia Britânica. Era a "Meca" das pesquisas escolares antes do advento e popularização da Internet. Em tempo: a Barsa também é explicada no Wikipedia. A mesma enciclopédia também se modernizou e se apresenta no formato multimídia desde a década passada.
Mesmo assim, perante à enxurrada de informações que trafegam na rede mundial, boa parte da moçada em fase de pesquisas escolares não ouviu falar da maior grife que representava o método antigo de busca por informações para trabalhos curriculares. "Eu não conheço", admite a estudante Giovana Vanerusso Crosara, de 15 anos.
Aluna do primeiro colegial, apesar de não recorrer aos grossos livros com verbetes, ela é usuária constante dos meios eletrônicos para pesquisas do gênero.
Também é uma sagaz frequentadora das redes sociais e outros meios de troca de informações online inclusive para tirar dúvidas com professores. "Para onde vou levo meu celular com Internet e também meu notebook", comenta. E é nessa questão de relacionamentos pessoais que ela concorda que a tendência, apesar de demonstrar estreitamento de afinidades, é uma dificuldade cada vez maior de se criar vínculos pessoais.
Já a universitária Karen Gonçalves Silva Cácere, de 20 anos, acredita que, mesmo praticante o dia todo conectada ? na faculdade também não desgruda do celular com Internet ? não teria problemas no futuro para o estabelecimento de "contatos analógicos". "Eu sempre fui de falar muito. No meio eletrônico uso bastante o skype (software que permite a comunicação por voz via Internet)", atribui ela, que é estudante do primeiro ano de Arquitetura da Universidade Paulista (UNIP).