11 de julho de 2026
Bairros

Bauru joga no lixo R$ 1,5 milhão por mês

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 11 min

Malavolta Jr.

Apenas 3,41% das 5.561.461 toneladas de lixo reciclável produzidas em Bauru chegam à Cootramat

Um milhão e meio de reais. Esse é o valor que Bauru joga no lixo mensalmente ao mandar direto para o aterro sanitário 5,5 toneladas de materiais que poderiam ser reciclados, ganhar vida nova e, é claro, gerar renda.

Ficou assustado? Pois não deveria. Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cada bauruense produz, em média, 2,216 quilos de lixo por dia, número que aumenta consideravelmente em dezembro, devido ao período de festas. Deste total, 0,539 quilos correspondem a materiais recicláveis.

Sendo assim, pode-se afirmar que, no mês, os 343.937 habitantes de Bauru produzem, juntos, aproximadamente 5,5 toneladas de lixo reciclável. Contudo, segundo informações da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), a coleta seletiva recolhe apenas 190 toneladas deste total, ou seja, 3,41% do montante.

Para calcular a perda que isto significa, basta analisar os números fornecidos pela Cooperativa dos Trabalhadores de Materiais Recicláveis de Bauru (Cootramat): em novembro, por exemplo, foram comercializadas 63 toneladas de lixo reciclável, o que gerou uma renda de R$ 18 mil.

Portanto, se Bauru conseguisse dar vida nova às 5,5 toneladas de lixo reciclável que produz mensalmente, poderia deixar de mandar para o lixo cerca de R$ 1,5 milhão.

Vale ressaltar que, além da quantidade arrecadada pela coleta seletiva, que é destinada à Cootramat, Bauru coleta, por meio dos 471 catadores de materiais recicláveis uma outra parcela de lixo reciclável, que é vendido aos ferros-velhos. Contudo, mesmo sem ter cálculos que quantos quilos este trabalho consegue atingir, é possível afirmar que é uma quantidade bem menor que a arrecadada pela coleta seletiva.

Os números certamente farão mais sentido se o leitor fizer um pequeno exercício de observação: note que, nas lojas e supermercados, todos os produtos vêm com pomposas embalagens, especialmente nesta época do ano, que cumprem com eficácia a tarefa de chamar a atenção do consumidor e garantir a venda.

Das prateleiras para casa. De casa, para as ruas. É assim, quase que instantâneo o processo que faz com que objetos de desejo tornem-se peças descartáveis.

E quando o produto ou sua embalagem não servem mais? O que você, seus parentes, amigos ou vizinhos fazem com o que sobra?

“Muita gente enxerga tudo como lixo. Consumiu o que queria, basta descartar o resto. Mas não é bem assim. Existe o lixo orgânico e o lixo reciclável. Tratar o lixo reciclável como orgânico é jogar dinheiro fora”, explica Valmir Moura, presidente da Cootramat.

 

Falta consciência

A falta de consciência por parte dos munícipes é um dos principais fatores que levam Bauru a jogar no lixo cerca de R$ 1,5 milhão por mês. Isso porque grande parte da população não tem o hábito de separar o lixo reciclável do orgânico ou não respeita os dias de coleta seletiva.

“Muita gente não tem consciência. E isso de diversas formas: embora a coleta seletiva atinja 86% do município, tem gente que não separa o lixo. Além disso, tem gente que coloca o lixo orgânico misturado com o reciclado nas ruas bem no dia da coleta seletiva”, aponta Hildebrando Zanini, chefe da seção de produtos recicláveis da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma).

O mau hábito faz com que os funcionários da coleta seletiva levem tudo para a Cooperativa dos Trabalhadores de Materiais Recicláveis (Cootramat), atrapalhando a triagem dos materiais.

Portanto, para que não restem dúvidas, são materiais recicláveis coletados pela Semma: vidros, jornais, plásticos (inclusive sacolinhas de mercado), papel, embalagens tetra pak, alumínio, ferro, garrafas pet, revistas, isopor, papelão e óleo de cozinha.

Para conferir quando a coleta seletiva atende seu bairro, basta entrar no site www.bauru.sp.gov.br, acessar a Secretaria do Meio Ambiente, clicar no ícone de coleta seletiva, digitar o logradouro e filtrar.

“Vale ressaltar que os bairros que recebem a coleta seletiva no período da manhã devem colocar o material na rua por volta das 7h, já que o caminhão não tem um horário exato para fazer o percurso. À tarde, o horário é 12h”, destaca Hildebrando. 

 

A rota do lixo reciclável pelos bairros de Bauru

O lixo é colocado nas ruas...

Colocar o lixo reciclável nas ruas para coleta seletiva é o primeiro passo para contribuir com a reciclagem

Das prateleiras das lojas para as calçadas. O percurso que transforma um objeto de desejo em lixo e incômodo é rápido e acontece a todo instante nos quatro cantos da cidade.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por dia, o brasileiro produz 2,216 quilos de lixo, sendo que, destes, 0,539 quilos são de materiais recicláveis.

Sendo assim, em Bauru, diariamente, vão para as ruas 185,382 quilos de lixo reciclável. Número que, no fim do mês, chega ao montante de 5.561,461 toneladas. Mas, infelizmente, muito material reciclável se mistura com lixo orgânico e, no fim das contas, deste total, apenas 3,41% chega a Cooperativa dos Trabalhadores de Materiais Recicláveis de Bauru (Cootramat). Outra pequena porcentagem é coletada por catadores de materiais recicláveis e o restante vai direto para o aterro sanitário, onde passará anos e anos a espera da decomposição.


Recolhido pela Semma...

Todos os dias, às 7h da manhã, quatro caminhões da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) percorrem diversos bairros de Bauru com o objetivo de coletar o lixo reciclável descartado pelos moradores da cidade. À tarde, por volta das 12h, a busca se repete.

Atualmente, a coleta seletiva atende a 86% dos bairros e ocorre uma vez por semana, sempre em dias alternados da coleta de lixo orgânico, feita pela Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb).

Cinco motoristas e 17 coletores estão envolvidos no processo que, por mês, dá vida nova a cerca de 190 mil quilos de materiais recicláveis, 3,41% do total descartado pela cidade.

O serviço funciona no município desde 1995. Todo o lixo coletado é encaminhado à Cooperativa dos Trabalhadores de Materiais Recicláveis de Bauru (Cootramat).

 

Triado na Cootramat...

Sacos e mais sacos de materiais chegam, por dia, ao galpão localizado na rua James Russel, no Jardim Redentor, onde está localizada a Cooperativa dos Trabalhadores de Materiais Recicláveis de Bauru (Cootramat).

Lá trabalham, atualmente, 23 pessoas, que iniciam a jornada às 7h e finalizam o expediente às 17h, com pausa para o almoço.

O principal serviço do grupo é triar o material descarregado diariamente pelos caminhões da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma). Para isso, descarregam os sacos sobre grandes mesas e começam a separação. Nesta etapa, cada material vai para um recipiente diferente. Depois que atingem certa quantidade, são levados para o galpão superior, onde compartimentos feitos de tijolo separam um tipo de material reciclável do outro. Lá existem compartimentos para garrafas pet verdes, garrafas pet brancas, jornais, revistas, papel branco, papel cartão, papelão, embalagem tetra pak, entre outras coisas.

Nesta etapa, os cooperativados lutam contra o tempo e o cansaço. Isso porque, além do serviço ter grande volume, o que acumula trabalho, eles precisam rezar para que a chuva não danifique o material que não coube nos galpões e ficou exposto ao tempo.

 

Compactado e vendido...

No galpão superior da Cooperativa dos Trabalhadores de Materiais Recicláveis de Bauru (Cootramat), duas máquinas compactam o material triado pelos trabalhadores. Papéis, jornais e revistas são ensacados e não passam por esse processo. Depois disso, os materiais são embalados e acondicionados para venda.

O papelão, que chega em maior volume ao galpão, é um dos materiais de menor valor: é vendido a R$ 0,20 o quilo, perdendo apenas para o vidro, que vale R$ 0,10 o quilo; para as embalagens tetra pak, que têm valor de R$ 0,15 o quilo; e para o jornal, que vale R$ 0,18 o quilo.

Já o alumínio e as garrafas pet chegam em menor volume à Cootramat e são os materiais que tem maior valor no mercado de recicláveis: valem R$ 2,50 e R$ 1,40, respectivamente. Todo o material que triado pela Cootramat é vendido aos atravessadores, como são chamadas as empresas que intermediam o processo entre a cooperativa e as empresas de reciclagem.

E, finalmente, é reciclado

 


 

O lixo é colocado nas ruas...

Colocar o lixo reciclável nas ruas para coleta seletiva é o primeiro passo para contribuir com a reciclagem

Das prateleiras das lojas para as calçadas. O percurso que transforma um objeto de desejo em lixo e incômodo é rápido e acontece a todo instante nos quatro cantos da cidade.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por dia, o brasileiro produz 2,216 quilos de lixo, sendo que, destes, 0,539 quilos são de materiais recicláveis.

Sendo assim, em Bauru, diariamente, vão para as ruas 185,382 quilos de lixo reciclável. Número que, no fim do mês, chega ao montante de 5.561,461 toneladas. Mas, infelizmente, muito material reciclável se mistura com lixo orgânico e, no fim das contas, deste total, apenas 3,41% chega a Cooperativa dos Trabalhadores de Materiais Recicláveis de Bauru (Cootramat). Outra pequena porcentagem é coletada por catadores de materiais recicláveis e o restante vai direto para o aterro sanitário, onde passará anos e anos a espera da decomposição.

 

Recolhido por catadores...

Os catadores de materiais recicláveis são figuras bastante conhecidas pelos bairros de Bauru. Munidos de um carrinho de mão eles percorrem os quatro cantos da cidade em busca do que, para muitos, é lixo, mas que, para eles, é dinheiro.

Ademir Gonçalves Meira, 53 anos, é uma das 471 pessoas que trabalham com a coleta de lixo reciclável nos bairros de Bauru. Ele tornou-se catador de material reciclável há 10 anos. Antes, trabalhava como servente de pedreiro, profissão que teve de interromper por conta de um problema na coluna.

“Foi a alternativa que encontrei para garantir minha renda. Por mês, tiro cerca de R$ 250,00. Como não pago aluguel e vivo sozinho, é o suficiente”, explica.

Ele percorre, diariamente, as ruas do Jardim Redentor e Jardim Carolina, que ficam próximas a sua residência. Os dias da semana de maior trabalho são terça-feira e quinta-feira. Isso porque ele, assim como a maioria dos catadores de recicláveis de Bauru, tem uma tática: sua rota de trabalho é traçada de acordo com o cronograma da coleta seletiva da Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Bauru (Semma).

“Nos dias de coleta seletiva acordo bem cedo, lá pelas 5h, e saio para a rua com meu carrinho. Nestes dias, as pessoas já colocaram o material reciclável nas ruas para esperar a coleta. Como eu passo antes, levo o que me interessa. Facilita bastante”, explica.

Os coletores não levam plástico duro nem caixas de leite, porque não conseguem vender o material.  Os ferros-velhos, que emprestam os carrinhos aos catadores, compram o material coletado no final do dia.


Chega aos ferros-velhos...

Bauru tem cerca de 30 ferros-velhos. E eles são os responsáveis por manter na rua os catadores de lixos recicláveis. Isso porque é iniciativa dos ferros-velhos ceder o carrinho de mão utilizado pelos catadores e, no fim do expediente, comprar todo o material arrecadado.

Os preços pagos pelos depósitos aos catadores pelo quilo do material é bem inferior ao valor de mercado, já que o ferros-velhos não vendem o material diretamente para quem faz a reciclagem, mas, sim, o repassam para os chamados atravessadores.

Um exemplo é o jornal. Os ferros-velhos pagam, em média, de R$ 0,07 pelo quilo do material, enquanto a Cooperativa dos Trabalhadores de Materiais Recicláveis de Bauru (Cootramat) o comercializa R$ 0,18 o quilo.

Caixas de leite, bandejas de ovos e sacolinhas de mercado não são compradas. Já o cobre é o material mais caro e também o mais raro. Por isso, vale R$ 8,00 o quilo.

Lourival Ramos é proprietário de um ferro-velho localizado no Jardim Redentor há 3 anos e cinco meses. Ele é um dos poucos no ramo que negociam os materiais diretamente com as empresas que farão a reciclagem.

“Como consigo acumular muito material, a negociação fica fácil. A cada 15 dias, consigo encher uma caçamba com cerca de 5 mil quilos de sucata. E, semanalmente, junto 25 quilos de pet e 55 quilos de latinha de alumínio”, explica.

 

Intermediado por atravessadores...

A maioria do lixo reciclável de Bauru, antes de ganhar vida nova, passa por atravessadores, termo pelo qual são chamadas as empresas que intermediam o processo de venda para empresas de reciclagem.

Em Bauru, cerca de cinco empresas fazem este trabalho. Elas compram os recicláveis da Cooperativa dos Trabalhadores de Materiais Recicláveis de Bauru (Cootramat), de catadores e também de ferros-velhos, triam e compactam parte deste material, e depois vendem diretamente para as empresas que farão a reciclagem.

Luis Gustavo Costa, proprietário da Reciclagem Urubatan, localizada no Núcleo Mary Dota, é um desses atravessadores. Ele faz o trabalho de intermédio há 10 anos e reclama que, a principal dificuldade, é a falta de incentivo.

“São muitas exigências e pouca ajuda”, explica.

Sem o serviço prestado por empresas como a dele, o lixo, dificilmente, ganharia vida nova.

Isso porque a rota do lixo reciclável em Bauru depende da infraestrutura e de espaços como os mantidos por atravessadores.

“As empresas que fazem a reciclagem só compram material em grande quantidade. Por isso, os catadores, ferros-velhos e até mesmo a Cootramat não tem como armazená-los. Além disso, somos nós que temos de fazer o transporte do material até a empresa e atender a todos os prazos estipulados”, enumera Luis Gustavo.

Por mês, Reciclagem Ubiratan recebe cerca de 130 toneladas de recicláveis, que é vendida, em sua maioria, para empresas de São Paulo.