10 de julho de 2026
Geral

Alta da carne faz churrasco ficar caro

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 7 min

Fim de ano, tempo de confraternização, festas e, para o brasileiro, hora perfeita para comemorar tudo isso com o bom e velho churrasco. Porém, como tradicionalmente acontece nesta época, não são apenas o clima de harmonia e paz que estão em alta. Os preços da carne também estão altos e devem pesar no bolso do consumidor.

"Todo ano é assim. Chega nesta época de festas, quando todo mundo quer fazer um almoço especial, os preços sobem de uma hora para outra", comenta a diretora de escola Rosângela Landoufi, 45 anos. A observação dela é tão óbvia quanto a explicação. "Faz parte do processo e da relação de demanda e consumo. Esta é a época do ano em que mais se consome carne vermelha", explica Marcos Renato Lourenção, gerente de compras de uma rede de supermercados da cidade.

Ele confirma que o preço dos cortes traseiros, as carnes chamadas "nobres", já subiram de 5% a 7% em relação há duas semanas. Assim, quem estava planejando fazer um churrasco de picanha, por exemplo, ao invés de pagar R$ 23,90 o quilo, agora terá que desembolsar R$ 27,90. "Nos últimos 15 dias tivemos um aumento nas carnes nobres, e a tendência é que com a proximidade das festas, tenhamos novo aumento de mais uns 5%, talvez. Isso tudo devido ao mercado que sofre influência da exportação, do preço do dólar e da situação dos pastos também".

Portanto, mesmo deixando a picanha de lado, pouco vai adiantar apostar em contra filé, maminha e alcatra. "Uma boa opção, para os que gostam de cortes dianteiros, é uma boa costela e o próprio acém que mantiveram seus preços, pois nesta época do ano não são muito procurados e acabaram gerando uma certa sobra nos açougues e supermercados".

Segundo dados do Instituto de Economia Agrícola do Estado de São Paulo (IEA), o preço da ração para gado subiu 30% nos últimos 12 meses. O milho, base da maioria das rações, subiu 29,9% no Estado. Todos esses componentes são somados e acabam pesando na hora de passar a compra no caixa.

O ?fator original?

Para Maurício Lima Verde, presidente do Sindicato Rural de Bauru e Região e vice-presidente da Federação de Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), o aumento refletido nos açougues e supermercados no mês em que mais se consome carne coincidiu com a falta de chuva em algumas cidades da região criadoras de gado e, principalmente, com o problema crônico de falta de boi gordo que atravessa o País. "O pasto ficou seco demais, o boi demorou mais para engordar e a oferta diminuiu. Além disso, temos aproximadamente 160 milhões de cabeças de gado (no Brasil) e nos últimos anos vivenciamos um abate muito grande de fêmeas. Quando você abate uma fêmea você mata a fonte. Diminuímos a oferta, o que consequentemente faz com que os preços subam. Esse é o que chamamos de fator original, e que é somado ao aumento comum dos preços nesta época do ano", diz.

Segundo ele, até outubro a arroba do boi gordo era comercializada a R$ 90,00, chegou a R$ 110,00 e hoje gira em torno de R$ 105,00. "Isso porque acabou a oferta do gado que estava confinado, tratado com ração já que os pastos estavam ruins devido a falta de chuvas. Essa escassez de gado vai perdurar por algum tempo ainda. Hoje, por exemplo, os dois grande frigoríficos que operam em nossa região e que, antes abatiam 500 cabeças, abatem apenas 150".

Ele ainda explica que, há dez anos, o abate de fêmeas era proibido no Brasil, o que ainda se mantém em alguns países da Europa. "Se hoje o boi custa R$ 105,00, a vaca custa 98,00 (a arroba). Os frigoríficos acabam comprando porque, afinal, quando você vai ao supermercado e pede um filé mignon não sabe se é de boi ou de vaca. E isso sai mais barato em uma época de crise do setor".

Lima Verde acredita que os preços ainda devem subir até o final do ano, porém, separa a questão natural como efeito ativo a esse provável aumento. "O que tinha que acontecer em termos de pasto e falta de gado já passamos. Salvo aconteça alguma mudança radical, como uma grande seca e geada, não teremos problemas fora os que já estamos enfrentando. Da porteira para dentro não há porque subir o preço do gado. Agora, da porteira para fora, ai já é um problema do próprio mercado que inflaciona em épocas de festas".

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Aves ?natalinas? aparecem como opção mais saudável


Se o preço da carne vermelha vai encarecer o velho churrasco de final de ano, uma opção saudável ? ao corpo e também ao bolso ? são as tradicionais aves "natalinas". Em relação ao ano passado, tanto o peru quanto o chester terão aumentos modestos.

Segundo o gerente de compras de uma rede de supermercados de Bauru, Marcos Renato Lourenção, as indústrias repassaram um aumento de cerca de 5% para essas aves. "Os preços estarão praticamente iguais aos do ano passado", aponta.

Segundo ele, a faixa de preço do peru ficará entre R$ 9,60 e R$ 11,80. Já o chester poderá ser comprado por R$ 11,70. "O ciclo de engorda do ano passado para cá foi estável. Então, o preço sofreu esse aumento leve, que é praticamente o da inflação", explica Marcos Lourenção.

Entretanto, mesmo com esse custo, há quem queira economizar ainda mais. O gerente regional da Associação Paulista de Supermercados (Apas), Erlon Godoy Ortega, explica que pesquisar e ser criativo são as melhores "armas" para quem quer reduzir os gastos.

"A pessoa deve comparar preços e substituir o que acha que está caro. Em relação às aves tradicionais, uma boa opção é o frangão, que é mais barato e pode alimentar muitas pessoas", afirma. Um frangão custará, neste Natal, entre R$ 6,50 e R$ 6,90, podendo alimentar uma família de 6 a 7 pessoas.

Outra opção é aproveitar a "guerra de preços" da véspera das festas. É comum supermercados e demais estabelecimentos comerciais fazerem muitas promoções de preços.

Porém, o diretor regional da Apas faz a ressalva de que há fazer as compras nesse período traz um efeito colateral. "Não dá para negar que, com a guerra de preços perto do Natal, os produtos vão ficando cada vez mais baratos. Mas a variedade diminui bastante, pois muitos já foram vendidos", completa Erlon Ortega.

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Frango, carne suína e peixe tiveram aumento


Se a picanha subiu, as carnes de segunda estão mais acessíveis. "Não que estão mais baratas, mas os preços foram mantidos atendendo o aumento que a carne teve durante todo o ano", conta Lourenção.

Apesar desse registro, a notícia não é muito animadora para os fãs do churrasco. "O preço da carne vermelha como um todo só deve baixar no fim de janeiro".

Para piorar, o preço da carne vermelha reflete no preço da carne branca. Nem o leitão escapou do aumento de final de ano. Pela lei da oferta e da procura, as outras carnes também sofrerão reajuste, mesmo que menor do que o da carne bovina. "Um leitão vivo, de dois ou três meses, que custava durante o ano cerca de R$ 7,00 (o quilo), a partir de outubro já é vendido a R$ 15,00 (o quilo)", comenta Lima Verde.

Para a dona de casa Selma Armati, 52 anos, pesquisar nessa hora é imprescindível para garantir a ceia do Natal e o almoço de Ano-Novo. "A gente procura driblar de um jeito ou de outro os preços mais ?salgados?. Procuramos a carne que estiver mais em conta. No Natal ainda é mais fácil, porque optamos apenas pelas aves e, apesar de ter subido um pouquinho, ainda sai mais barato".

Já no réveillon, a superstição acaba entrando como aliada do mercado e fica difícil escapar da carne vermelha. "Comprar ave é que não dá. Todo mundo fala daquela história de ciscar pra trás. É melhor não arriscar. O jeito vai ser reunir a família e os amigos e cada um levar um pouquinho de carne. Além de garantir uma confraternização com todo mundo, a gente aproveita para dividir a conta", diz.