08 de julho de 2026
Política

Parque é palco de indignação de jovens

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

Eles são jovens, querem reivindicar, falam em mobilização com elementos de protesto e de busca de engajamento social. Mas a utilização da ferramenta da mídia social ao milenar uso da praça pública como chamariz para a mobilização é o elo entre os jovens acampados no Parque Vitória Régia desde meados de novembro. A ocupação da praça, apenas um artefato para chamar a atenção do movimento, na visão dos jovens, tem ação de reintegração de posse, com pedido liminar, a ser decidida pela Vara da Fazenda Pública de Bauru amanhã, em audiência de justificação.

Como os jovens que participam da ação não querem retirar barracas e demais elementos de apoio do local, a Prefeitura de Bauru foi ao Judiciário e pediu a desocupação sob pena de aplicação de multa e de crime de responsabilidade.

Independentemente do mérito jurídico sobre a presença na praça, cuja definição sairá das mãos da juíza Regina Caro Aparecido Gonçalves, o ato e a mobilização dos jovens no local público trazem, como elemento, a identificação de que, por ora, o poder de fogo da chamada mídia social não se mostrou instrumento suficiente, por si só, para fazer efeito junto à população em escala, a despeito do seu alcance eletrônico além fronteiras.

Um dos participantes da ação no Vitória Régia, que curiosamente reconhece ter escolhido a praça como forma de "chamar a atenção e atrair mais mobilização", mas pede para não ser identificado no ambiente público, menciona objetivamente que "o face (facebook) permitiu o contato com o mundo todo em torno dessas mobilizações e na divulgação on line que se pretendia, mas não foi suficiente para mostrar ao público despolitizado que eles precisam discutir e reagir contra questões como a corrupção e a má qualidade dos serviços públicos".

Ele não soube explicar, como ocorre também com parte dos especialistas que discutem para que serve e qual a consequência da mídia social, por qual razão a internet é ferramenta expansiva, gratuita e de amplo acesso para a "multiplicação da ideia", como o jovem do movimento Indignados Bauru apontou, mas não fez aqui o mesmo efeito que fincar barracas em praça pública.

Um dos participantes desde o início na ação no Vitória Régia em Bauru, Eduardo, 22 anos, repete: "A ideia é milenar de que a mobilização chama a atenção e como o conceito é de que a praça é livre para a manifestação estamos aqui para mostrar nosso ponto de vista contra a corrupção, o mau atendimento na saúde, o desmatamento do cerrado".

Chamariz

Eduardo ensaia citações incipientes sobre o filósofo Platão para questionar o sistema econômico e de dominação. Sobre a forma de protesto escolhido, ele argumenta que não se trata de ocupação, apesar de nove barracas menores fincadas no Vitória Régia e de uma estrutura maior para acomodar uma cozinha improvisada e uma bancada de madeira cuja intenção foi criar uma biblioteca sustentada por madeira, ao ar livre. "A barraca não é barraca, é um artefato para dar a ideia de permanência fixa, para chamar a atenção. Não moramos aqui", teoriza.

A opção pela liberdade de expressão, ainda que "ancorada" na imagem das estacas fincadas no Vitória Régia, uniu Eduardo, assim como os demais, pela internet. Assim como outros ativos dos Indignados, ele trabalha e, ao final do dia, busca se mobilizar com os demais.

Victor, 27 anos, fez administração na ITE, mas hoje trabalha com desenho e quer fazer arquitetura. "Achei as reivindicações justas, como pela constitucionalidade do Ficha Limpa, os 10% do PIB para aplicar em saúde e outros temas. Também achei interessante ser movimento sem ligação com partido e sem um líder, um escolhido. Quem quiser vem, discute, participa, dissemina a ideia e segue. O movimento estudantil deu uma enfraquecida e os jovens precisam estar mais ligados", diz.

Ana Carolina, uma das poucas mulheres na ação no Vitória Régia, veio com os pais para Bauru e está cursando publicidade na USC. "Eu trabalho com artes visuais. Minhas amigas e colegas gostaram da ideia mas não se mexem. Infelizmente fica a imagem de que a mulher se mexe mais pela beleza do que para participar de ação contra o sistema, a corrupção", opina.

A vigilância às barracas é feita por revezamento. O lugar acaba ajudando na acomodação provisória de algum jovem, como Ivanildo, desempregado, que veio de Dourados (MT), e também atrai outros, como Emanuel: "Eu vim passear na praça, perguntei o que era e resolvi entrar no movimento", conta o ex-aluno da escola Ada Cariani, no Mary Dota. Os que trabalham contam com a ajuda dos colaboradores com disponibilidade, incluindo desempregados, durante o dia. À noite a maioria retorna às suas casas. Um grupo mantém o olhar sobre as barracas.

Nesta quinta-feira, a possibilidade de reintegração de posse começa a indicar se esses jovens terão fôlego para disseminar e fortalecer a intenção original de atrair adeptos pela mobilização política em torno de causas sociais, com duração além de suas próprias gerações, ou se a ação no Vitória Régia, ao final, vai fincar a "atitude" com a mesma efemeridade com que podem vir ao chão as madeiras das barracas que hoje estão por lá.