A Polícia Civil, por intermédio da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Bauru, não tem dúvidas para apresentar acusação formal contra o autônomo Adriano Junio Oliveira Pereira de Souza, 23 anos, como autor da morte de sua ex-sogra, a dona de casa Maura Sampaio de Almeida. Ele está preso.
A edição do JC de 26 de setembro último trouxe que a mulher foi encontrada morta a facadas em sua casa no Parque Vista Alegre. A Justiça concedeu a prisão de Souza em caráter temporário (por 30 dias), acatando o pedido da DIG pela acusação de homicídio duplamente qualificado e estupro.
O crime ocorreu nas últimas horas do dia 24 de setembro e Souza foi apontado como suspeito, negou o crime, relatando diversos álibis, inclusive em entrevista ao JC, publicada na edição do dia 26.
O delegado titular da DIG, Kleber Granja, conta que, ontem, Souza reiterou sua inocência mesmo apresentando contradição na confrontação de seus álibis com a investigação feita pela delegacia especializada em homicídios nos últimos dois meses e meio. Segundo o delegado, ontem ele manteve sua versão inicial, mas com adaptações de horários e itinerário.
“Já imaginando que a gente tivesse... Isso mostra a inteligência dele. Ele é um cara muito dissimulado, frio, calculista e não demonstra nenhum tipo de arrependimento. Premeditou cada passo”, define o delegado titular da DIG.
A investigação da equipe de homicídios da DIG de Bauru colocou na cena do crime Souza, desmontando ponto a ponto a versão apresentada pelo, então, suspeito. O acusado apareceu como suspeito porque foi visto, por sua ex-esposa T.S.A., 17 anos, e filha de Maura, nas proximidades da residência onde ocorreu o crime, na alameda das Betônias, nº 2-37, no Parque Vista Alegre (PVA).
No dia do crime, T.S.A. alegou ter cruzado com Souza minutos antes de encontrar o corpo de sua mãe esfaqueado sobre a cama do quarto dela. Na casa não havia sinais de arrombamento, roubo ou mesmo luta corporal.
Granja acrescenta que a investigação obteve o relato desesperado da filha mais nova de Maura, que dormia na cama com a mãe quando o assassino da dona de casa invadiu o imóvel e matou a mulher. O delegado titular da DIG esclarece que a criança ficou bloqueada psicologicamente mas relatou o que viu.
O crime
Granja cita que há um componente ainda mais assustador na morte. De acordo com o delegado titular, a filha mais nova de Maura, uma menina de 9 anos, dormia com ela nos pés da cama e, portanto, presenciou o crime. O delegado detalha que as facadas desferidas contra Maura perfuraram seu pulmão direito, cortou a artéria aorta e perfurou a caixa torácica. Granja informa que Souza é destro e a reconstituição da cena do crime aponta para uma agressão de autor com a mão direita.
O delegado titular da DIG acrescenta que nas roupas de Souza não foram encontrados vestígios de sangue da vítima simplesmente porque ele teria esfaqueado Maura por cima de uma colcha.
De acordo com o delegado, a ausência de sinais de arrombamento no imóvel revelam que o autor conhecia o imóvel. Granja disse que a menina menor foi dormir esquecendo a porta dos fundos aberta. O portão da frente é facilmente aberto.
Filha mais nova da vítima faz relato detalhado
Com um trabalho cuidadoso, o delegado Kleber Granja conseguiu que a filha mais nova da vítima - Maura Sampaio de Almeida - contasse o que presenciou na noite do crime. De acordo com o delegado, ela descreveu, em seu depoimento, que acordou com a abertura do portão da frente, ouviu a porta dos fundos ranger e viu a pessoa entrar.
“Embora o quarto estivesse escuro, ela avista o vulto de um homem de cabelinho bem enroladinho, moreno e segurando alguma coisa na mão direita e vê que a pessoa se agacha do lado da mãe. Ela fecha os olhos, imaginando o que vai acontecer. E ela escuta a mãe tossindo e diz que adormece. Dez minutos depois chega T.S.A. (filha mais velha), que cruza com ele”, relata o delegado.
Granja conta que na fuga da cena do crime, o acusado teria limpado a faca na barra de uma calça de T.S.A. que estava pendurada nos fundos da casa. Conforme o delegado, a perícia nos vestígios de sangue apontou compatibilidade com o tipo sanguíneo de Maura.
“Isso para mim é determinante de que quando ele foge da cena do crime, para mostrar o que ele havia feito com a mãe da menina que estava traindo ele e que impedia que ele visse o filho. Aliado a esse caráter psicológico muito forte dele, de não ter um pingo de remorso e de mentir descaradamente mesmo diante de tantas provas, ele sai pelos fundos da casa, pega a lâmina da faca e limpa na calça da T.”, avalia Granja.
A faca usada no crime não foi localizada. O delegado explica que a criança percebeu que a pessoa no quarto tinha uma bolsa a tiracolo, com as mesmas características da que Souza alega ter comprado em Londrina para buscar as roupas em Bauru.
O delegado espera o resultado de um exame pericial na bolsa apreendida com o acusado em busca de vestígios. Granja desconfia do relato de compra de uma bolsa vazia para pegar roupas na casa dos pais em Bauru para levar para o Paraná.
Granja explica que Souza está sendo acusado por homicídio duplamente qualificado - por motivo fútil e por meio que impossibilitou defesa da vítima -, com pena de prisão de 12 a 30 anos, em caso de condenação. Também está sendo acusado de estupro de vulnerável em um fato ocorrido, provavelmente, em dezembro de 2010.
Granja acrescenta que, se condenado pelo crime de estupro, o acusado poderá receber uma pena de prisão de 7 a 12 anos. Souza foi preso anteontem e levado ontem para uma cela separada na Cadeia Pública de Barra Bonita, onde ficará à disposição da Justiça.
Segundo o delegado, o assassinato tem vários ingredientes passionais
Para entender o desgaste do relacionamento entre o casal Adriano Junio Oliveira Pereira de Souza e T.S.A. e que terminou com a morte de Maura Sampaio de Almeida, a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Bauru refez alguns pontos que marcam os desentendimentos e explicam a motivação do crime.
O delegado titular da DIG, Kleber Granja, comenta que o casamento azedou de vez em 2009 quando o casal teve uma briga séria. “Ao que foi apurado, ele tem um ciúme doentio dela e não deixava ela trabalhar. Houve um incidente inclusive em que ela teria dado uma facada no braço direito dele em meados de 2009. Isso não foi comunicado à polícia”, explica.
Segundo Granja, o casal viveu cerca de quatro anos juntos e tem um menino que, atualmente, tem um ano e meio de idade. O delegado conta que, em julho deste ano, T. tomou a decisão de romper o relacionamento, iniciado quando ela ainda tinha 13 anos, e foi morar com sua mãe.
“A partir daí, houve uma sucessão de confrontos entre ele, a moça e a Maura”, avalia. De acordo com o delegado, os conflitos do casal se acirraram, com Maura, na condição de representante de T., uma menor de idade, apresentando queixa por lesão corporal contra Souza na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Bauru, com base na lei Maria da Penha e que resultou em uma medida protetiva para T. concedida pela Justiça.
O delegado explica que os familiares de Souza, para evitar mais problemas para ele, mandaram o rapaz morar com parentes em Alvorada do Sul, no Paraná, onde ele permaneceu por 40 dias antes de retornar a Bauru. “O que a gente conseguiu investigar é que ele nutriu um ódio muito grande da Maura e da ex-mulher, porque ele ficou separado do filho”, salienta.